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O crepúsculo dos brinquedos

por Antero, em 30.07.10

 

O voo final de Buzz Lightyear. As lembranças de Jessie. O sorriso de Sulley. O desespero de Marlin. O quotidiano de Bob Parr. O discurso de Anton Ego. O bailado de WALL-E e Eva. A vida a dois de Carl e Ellie. Momentos de puro brilhantismo proporcionados pelos estúdios da Pixar, cujo impressionante currículo traçou uma meta praticamente inigualável e, ironicamente, acaba por amaldiçoá-los – afinal, como manter a fasquia tão alta? O que antes era improvável tornou-se impossível. Só que a Pixar não tem medo de ousar, vai até ao infinito e mais além e, magnificamente, volta a superar-se. Toy Story 3 é o melhor, mais complexo, humano e comovente filme da casa. O que era inicialmente uma nova sequela feita para render mais uns trocos à Disney torna-se numa obra assombrosa com um coração imenso. Se a primeira e a segunda parte já mereciam o Olimpo, o que dizer agora? Nada, a não ser levarmo-nos pela montanha-russa de emoções oferecidas por Woody, Buzz, Jessie e companhia.

 

Ao levar-nos pela imaginação de Andy numa das suas típicas brincadeiras, Toy Story 3 evoca um agradável sentimento de nostalgia logo nos primeiros minutos. Só que os anos passaram e Andy está crescido e prestes a ir para a universidade. O seu quarto, palco que dá sentido à vida dos bonecos, já não lembra o mesmo cenário dos filmes anteriores, sendo agora forrado com posters e decorado com adereços que retratam as actuais preocupações do jovem adulto. Os brinquedos, ou melhor, aqueles que sobraram, foram confinados a permanecer num baú e a esperar qualquer momento em que o dono repare neles, algo já antecipado no final de Toy Story 2. As opções para os brinquedos passam pela doação, o lixo ou o sótão, solução que os manteria próximos de Andy. No entanto, um lapso leva-os até ao infantário Sunnyside onde surgem novos dilemas e aventuras.

 

Se o primeiro Toy Story era um luminoso conto sobre identidade e objectivos, a sequela ampliava o dilema e trazia a curiosa questão “o que acontece aos brinquedos quando os donos crescem?”. No terceiro capítulo, o mais sombrio e denso de todos, Woody e Buzz devem enfrentar o seu destino e reconhecer que Andy não mais brincará com eles. A temática passa agora pela morte e aceitação. Emocionalmente carentes, os brinquedos entregam-se a qualquer instante, por mais fugaz que seja, que lhes devolva a sensação de cumprimento dos seus propósitos – e não deixa de ser comovente a ansiedade do grupo ao chegar a Sunnyside, onde poderão brincar para sempre, ou o sentimento de negação de Woody que se recusa a abandonar o rapaz ao qual foi presenteado anos atrás.

 

Por falar em Andy, um dos grandes acertos do novo capítulo é retratar o adolescente com extrema sensibilidade. Desenvolvido a partir da relação com os seus brinquedos e da devoção que estes lhe têm, Andy passa de figura periférica a um individuo que vê nos antigos companheiros uma reminiscência de uma fase distante e mais inocente e da qual não se quer despedir totalmente – um dilema que ressoa junto a qualquer um de nós, já que envelhecer não é fácil. Se Andy terá que seguir em frente, também os brinquedos terão que fazê-lo e a separação, por mais antecipada que seja, será sempre custosa. Se eles vivem em função do dono, o que será deles quando forem deixados de parte? Sem uma razão para viver, eles deixarão de existir? Qual o sentido de continuar? É este tipo de questões profundas que elevam Toy Story 3 a um patamar mais maduro e intrincado, acima do preconceituoso argumento de que filme de animação é só para crianças.

 

Não que a película seja completamente depressiva; se há coisa que a Pixar faz como ninguém é divertir e emocionar na mesma medida. Assim, para cada ocasião mais introspectiva, há uma mão cheia de tiradas hilariantes, sendo que os destaques ficam por conta do efeminado Ken, a figura caricata do Sr. Cabeça de Batata ou a reprogramação operada em Buzz. Com um sentido de humor invejável, Toy Story 3 traz uma imensidão de bonecos novos, dos quais o reprimido Lotso é mais uma prova de que a Pixar faz o que a maioria dos realizadores não consegue com actores de carne e osso: personagens tridimensionais e cheias de humanidade.

 

Com uma narrativa fluída e valores técnicos já característicos da Pixar (Sunnyside é de uma concepção espectacular), Toy Story 3 adopta a estrutura de filme de fuga da prisão, com influências notórias de A Grande Evasão, e conta com habilidosas e emocionantes sequências de acção. O terceiro acto, em particular, é construído com uma tensão crescente e desesperadora que culmina num momento arrebatador, na qual a firmeza dos heróis perante a provável morte é admirável e tocante. Acima de tudo, a trilogia Toy Story fala sobre valores como amizade e família e, se choramos e rimos ao longo de toda a jornada, é por que nos identificamos com aquelas carismáticas personagens.

 

Capaz de provocar, ao mesmo tempo, sentimentos de alegria e melancolia nos seus instantes finais, Toy Story 3 fecha com chave de ouro a caminhada do estouvado Woody, do heróico Buzz Lightyear, da esquentada Jessie, do cínico Porquinho, do mal-humorado Sr. Cabeça de Batata, do fiel Slinky, do acanhado Rex e de tantos outros que nos acompanharam por três maravilhosas longas-metragens que a imaculada Pixar teve o prazer de criar.

 

Qualidade da banha: 20/20

 

PS: ainda que Toy Story 3 faça um uso discreto da dimensão adicional, a inventiva curta que o precede, intitulada Dia e Noite, vale por si só o pagamento extra dos malfadados óculos 3D.

 

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publicado às 12:01

Filmes Expresso #4

por Antero, em 18.07.10

Collapse

Collapse (2009)

Assustador e hipnotizante documentário sobre um antigo trabalhador da CIA que traça um retrato negro sobre o futuro do planeta, o risco dos recursos naturais e a dependência do petróleo e que, paranóia ou não, lança na mente do espectador uma mão cheia de questionamentos difíceis de ignorar.

Qualidade da banha: 18/20

 

O Escritor Fantasma

The Ghost Writer (2010)

Depois do escorregão que foi Oliver Twist, Roman Polanski volta à sua melhor forma com um suspense conduzido de maneira calma, mas eficaz, recheado de críticas à promiscuidade entre os governos norte-americanos e britânicos e em que Ewan McGregor, Pierce Brosnan e, principalmente, Olivia Williams oferecem excelentes interpretações.

Qualidade da banha: 15/20

 

Green Zone - Combate Pela Verdade

Green Zone (2010)

Jason Bourne no Iraque. É a melhor frase para descrever este filme dirigido por Paul Greengrass e que traz Matt Damon em mais um boa interpretação no papel do soldado que se rebela contra os (falsos) motivos que levaram à Guerra no Iraque e que, com um argumento fluído e trepidante, diverte ao mesmo tempo que incita a discussão sobre o papel dos media e dos bastidores do poder.

Qualidade da banha: 15/20

 

Mary and Max

Mary and Max (2009)

Uma das experiências mais depressivas (diferente de deprimente) que já assisti. A história de uma amizade entre um norte-americano mergulhado na depressão e uma vivaz garota australiana, com muito humor negro e uma animação de stop-motion que, por se revelar pouco virtuosa, é encantadora em todo o seu minimalismo.

Qualidade da banha: 17/20

 

Millennium 2 - A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo

Flickan som lekte med elden (2009)

A segunda parte da trilogia Millennium escrita pelo falecido Stieg Larsson desce muitos degraus em relação ao capítulo anterior, nomeadamente na aborrecida história que atira flashbacks a torto e a direito e que só é salva (em parte) pela instigante protagonista.

Qualidade da banha: 6/20

 

Millennium 3 - A Rainha no Palácio das Correntes de Ar

Luftslottet som sprängdes (2009)

A conclusão da trilogia Millennium é satisfatória na medida em que fecha praticamente todas as pontas da narrativa, ainda que o eficaz clima de suspense presente no original seja uma memória distante e o filme se renda a muitos clichés na sua conclusão.

Qualidade da banha: 9/20

 

Não Chamem a Polícia!

Cop Out (2010)

Se aturar Tracy Morgan em 30 Rock ainda é suportável, um filme inteiro com ele como protagonista é uma tortura. Realizado por um Kevin Smith longe da garra e da acidez que o tornou famoso, este buddy cop film traz as costumeiras referências populares dos filmes do realizador, mas agora atiradas ao acaso e sem o charme de outrora, já para não falar de um argumento sem pés nem cabeça e pouco divertido.

Qualidade da banha: 5/20

 

Soldados da Fortuna

The A-Team (2010)

Adaptação da famosa série dos anos 80, Soldados da Fortuna é um filme de acção histérico, barulhento, com diálogos pedestres, um elenco canastrão ao máximo e situações tão implausíveis (e não estou a falar das exageradíssimas sequências de acção) que poderia ter sido realizado por Michael Bay.

Qualidade da banha: 4/20

 

Toy Story - Os Rivais

Toy Story (1995)

Primeiro filme da Pixar e que tornou a animação computorizada não só possível mas também economicamente viável. Ainda que os valores técnicos sejam admiráveis (embora algo datados), é na história, nas piadas e, principalmente, na força das personagens que está a grande valia do filme.

Qualidade da banha: 19/20

 

Toy Story 2 - Em Busca de Woody

Toy Story 2 (1999)

Sem se limitar a repetir a história do original, esta sequela expande o universo dos brinquedos e oferece uma narrativa ainda melhor que a anterior: o dilema é agora saber como se sentem os bonecos ao serem abandonados pelos donos que os trocam por outras diversões. Hilariante e emocionante na medida certa, Toy Story 2 é mais uma prova do brilhantismo dos estúdios da Pixar no desenvolvimento de diversões atemporais.

Qualidade da banha: 20/20

 

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publicado às 20:15

O filme mais aguardado de 2010!

por Antero, em 19.01.10

 

Para mim é este! E até pode ser em versão portuguesa e tudo que eu cá habituei-me a ouvir o José Raposo como o Sr. Cabeça de Batata. Podiam era lançar por terras lusitanas os dois primeiros filmes em sessões duplas 3D que eu pagava para rever sem qualquer problema. Toy Story vê-se em qualquer altura e sempre com a mesma sensação de maravilhamento. Apesar de esta sequela ser produzida com fins económicos (e não são todas?), eu acredito que a Pixar nos levará novamente até ao infinito e mais além.

 

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publicado às 01:56


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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