Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Prometheus

por Antero, em 07.06.12


Prometheus (2012)

Realização: Ridley Scott

Argumento: Jon Spaihts, Damon Lindelof

Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce
 

Qualidade da banha:

 

Certos filmes almejam ser tão ambiciosos que acabam por dar um passo maior que a perna, espalhando-se ao comprido (o recenteCosmopolispoderá ser encaixado nesta categoria). Há outros, porém, que são eficazes em levantar questões profundas e que depois mostram as suas fragilidades ao não explorá-las a fundo – e, infelizmente, Prometheus, a prequela do seminal Alien - O 8.º Passageiro, faz parte deste grupo.

 

Trazendo de volta o britânico Ridley Scott ao universo e ao género que o alçou à fama, Prometheus inicia-se no planeta Terra, num passado distante, onde um alienígena humanoide comete suicídio ao ingerir uma substância líquida que o desintegra. Muitos milénios depois, no ano 2093, a nave que dá título ao filme viaja para o asteroide LV-223 com o intuito de seguir uma carta celeste descoberta pelos arqueólogos Elizabeth Shaw (Rapace) e Charlie Holloway (Marshall-Green) que preveem que a mesma os levará à origem da vida que, creem eles, terá sido arquitetada por uns seres denominados de “Engenheiros”. A tripulação, composta pelo robot David (Fassbender), a arrogante diretora Vickers (Theron) e outros que mais não são do que carne para o abate, decide então explorar uma estrutura que poderá conter as respostas que procuram, mas também perigos que eles não previram.

 

Dizer que Prometheus não tem ligação direta com a saga Alien não é bem verdade: para além de pegar na raça extraterrestre vista no início desse filme e dar-lhe uma mitologia própria, o filme é praticamente uma homenagem tanto ao nível do fabuloso design de produção como da fotografia que brinca com as sombras e é constituída por uma palete de cores dominada pelos tons de cinza. Além disso, repete a mesma estrutura: uma viagem a um território desconhecido e hostil, um encontro imediato e, posteriormente, a luta pelas vidas do grupo. Curioso é que, apesar de se situar muitas décadas antes do filme que deu a conhecer Sigourney Weaver, os equipamentos vistos aqui soam muito mais avançados e ergonómicos, o que é perfeitamente aceitável visto que acompanhamos uma expedição financiada pela obscura Weyland Corp. enquanto que a Nostromo de Alien era uma simples transportadora sem muitos recursos.


A nível temático, Prometheus envereda pelas grandes questões da humanidade: quem ou o que nos criou? Qual o nosso papel neste mundo? Será que temos alguma importância ou somos um ponto insignificante na imensidão do cosmos? Neste aspeto, é Elizabeth quem personifica estes questionamentos, uma vez que é a sua sede de poder que reboca a narrativa. Profundamente crente, a arqueóloga serve como contraponto à executiva Vickers cujo pragmatismo remete mais à Ciência e à constante luta para que esta se imponha sobre a Fé. É uma pena, portanto, que esta seja retratada por Charlize Theron no registo "sou fria, arrogante e má como as cobras" (culpa do argumento) quando é ela que toma as decisões mais sensatas ao longo do filme, como, por exemplo, não deixar embarcar um possível "infetado" na nave.

 

Por outro lado, Noomi Rapace continua a não exibir o mesmo carisma da trilogia sueca Millennium desde que pousou em Hollywood – e a sua Elizabeth, embora delineada como a nova Ripley, não possui a mesma força emocional, visto que os seus conflitos resumem-se a uma relação paterna (uma rápida aparição de Patrick Wilson) interrompida precocemente e que foi a origem para a sua personalidade devota. Claro que a figura de uma cientista que paradoxalmente se revela aberta à Fé poderia dar-lhe uma bem-vinda dose de complexidade, mas o máximo que o filme consegue é que sejam outras personagens a apontar a ironia da situação e logo esquecer o assunto, o que é uma surpresa vinda de Damon Lindelof que, como co-criador e showrunner da saudosa série LOST, soube trabalhar maravilhosamente estes tópicos. Neste particular, Michael Fassbender é o único a entregar uma prestação sólida e densa como o "sintético" David: desenvolvido à imagem do ser humano, ele é uma máquina e não possui uma "alma".

 

Mas o que é verdadeiramente uma "alma"? A nossa personalidade? A consciência? Algo que nos torna simultaneamente únicos e indiferenciados? Ora, David emula Peter O'Toole em Lawrence da Arábia, desenvolve gostos, consegue ser mordaz e até sorrir subtilmente quando as coisas correm como o previsto - aspetos nada característicos de uma máquina. É também por David que passam as grandes reflexões de Prometheus: vendo-se na companhia de semelhantes ao seu Criador que buscam a sua própria origem, o robot é, naquela situação, o ser humano consciente da sua evolução, algo que os tripulantes procuram a todo o custo. Assim, ele dá outra perspetiva à situação e, ao afirmar meio jocosamente que espera "não ser tão igual aos humanos", ele demonstra toda a sua desilusão pelas falhas de caráter da espécie que o criou – o que não invalida que o mesmo não possa acontecer a Elizabeth e companhia. É como se ele pensasse "como alguém tão falho pode ter criado algo supostamente perfeito e controlável?" e, assim, como esperar algo de diferente do suposto Criador do ser humano?

 

É triste, portanto, que Prometheus chegue ao seu ato final e deixe de aprofundar estas questões sensíveis e prefira dar espaço ao típico "corre e foge" que permeiam todas as banalidades do género. E ainda que Ridley Scott consiga manter um clima tenso ao longo de toda a narrativa (com destaque para uma aterradora cirurgia de urgência), o certo é que os últimos vinte minutos tresandam a covardia de argumentista que tem de respeitar a necessidade imperiosa de estabelecer uma franquia e futuras sequelas e, com isso, deixar as respostas pela rama ou, pior do que isso, interrompendo-as para serem abordadas futuramente. Com isto, o impacto da narrativa é posto em segundo plano para valorizar objetivos comerciais e isto é simplesmente reprovável.

 

Desta forma, Prometheus pode ser resumido pelo revelador diálogo entre David e Charlie, no qual o primeiro, após perguntar sobre o porquê da sua criação e ouvir um cliché como resposta ("Por que nós podemos!"), remata com um: "não seria uma desilusão ouvir algo semelhante do vosso criador?". Aparentemente, ele recomendaria que víssemos a(s) sequela(s).

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:58

Longe do mito

por Antero, em 15.05.10

 

Perdido algures num passado remoto e com uns fogachos aqui e ali (Thelma e Louise, Hannibal e Amigos do Alheio), o talento do realizador Ridley Scott tem servido uma carreira instável, para dizer o mínimo. O homem por trás de obras seminais como Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – Perigo Iminente atingiu o pico da montanha cedo na vida, há longos 28 anos, e, de lá para cá, entregou-se a obras menores numa filmografia que abrange diversos géneros. Em Robin Hood, percebe-se a intenção de repetir o efeito do premiado Gladiador (que acho bonzinho, mas só), não por acaso o filme que o trouxe de volta para a ribalta e deu o Oscar a Russel Crowe. Porém, de boas intenções está o inferno cheio e a obra recém estreada é mais um esforço meritório, mas inconsequente, numa carreira recheada deles. Em suma: um filme digno do seu realizador.

 

Desenvolvido como uma espécie de prequela das histórias conhecidas de Robin dos Bosques, Robin Hood pretende dar a conhecer o início da lenda. Assim, temos Robin Longstride, um soldado do exército do Rei Ricardo Coração de Leão, que aproveita a morte deste e o fracasso das Cruzadas para regressar a casa com os parceiros João Pequeno, Will Scarlet e Alan A’Dayle. Para isso, eles passam-se pelo batalhão encarregue de entregar a coroa na Inglaterra, o que o levará a conhecer Lady Marion e a conhecer a realidade dos barões falidos que se revoltam contra o Rei João, irmão do falecido Rei Ricardo. Ao mesmo tempo, intrigas no seio da Corte e a bancarrota da Inglaterra permitem uma planejada invasão por parte dos franceses.

 

Ridley Scott não é nenhum novato nestas andanças: Gladiador e Reino dos Céus são tecnicamente impecáveis e transpiram épico pelos poros. Por isso, uma das grandes surpresas de Robin Hood é que ele nem se dedicar tanto a batalhas, mas sim a tentar fundamentar a narrativa (unindo todas as pontas que levarão à história já conhecida) e dar novas dimensões a velhas personagens. Desta forma, Robin surge como um guerreiro mais preocupado com o seu bem-estar do que propriamente com os problemas do reino, ao mesmo tempo que o Rei Ricardo abandona toda a nobreza que o caracteriza, estando quase sempre ébrio e tomando medidas pouco prudentes. Por outro lado, o Rei João mantém a faceta arrogante e mimada de sempre, embora revele o desejo de cair nas graças do povo (o que é diferente de ser um bom monarca) e conseguir tão boa fama como o seu irmão, ao passo que Lady Marion condiz mais com os tempos modernos e surja como mulher determinada e de forte personalidade (o orgulho das feministas actuais), isto até ao desastroso acto final – do qual falarei mais abaixo.

 

A colaborar na tarefa de revelar novas dimensões das personagens vem o elenco encabeçado por Russell Crowe que dá a Robin Hood todo o ar de um Maximus mais bem-humorado, enquanto Cate Blanchett dá credibilidade (dentro do possível) a uma personagem fora do seu tempo e Mark Strong interpreta, pela terceira vez em seis meses, um vilão – aliás, basta vê-lo em cena para perceber que a sua personagem não é confiável, uma vez que ele não inova nada de filme para filme, o que não deixa de ser uma pequena proeza. Em contrapartida, são os secundários quem mais brilham, como William Hurt no papel do valoroso e dedicado William Marshal e o veteraníssimo Max von Sydow numa participação curta e marcante.

 

Ainda que os valores de produção sejam competentes, eles acabam por não impressionar muito devido à realização burocrática de Ridley Scott que não consegue imprimir o mínimo de energia às cenas de acção. Outro tropeço é a estrutura narrativa que parece incluir elementos de forma inorgânica, apenas para avançar a narrativa artificialmente: o casal que discute mas ama-se profundamente, o trauma do passado que se revela determinante (numa cena imbecil em que uma lembrança aparece do nada, praticamente inventando a psicanálise como tratamento médico) ou o facto de o tempo ser convenientemente relativo – não por acaso, o exército francês está a caminho de Inglaterra pelo Canal da Mancha, mas ainda há tempo de alertar a Corte, reunir com os barões a Norte, seguir para a costa e surpreender os franceses. Nada como a pontualidade britânica.

 

O grande erro de Robin Hood, porém, é o seu terceiro acto, que praticamente consegue destruir o que de bom se vinha feito anteriormente (mesmo com todos os percalços). A batalha final mais parece o desembarque das tropas Aliadas na Normândia e, se isto já seria pouco adequado num filme de época, a sequência ainda se torna mais constrangedora pelo facto da mesma ser encenada de forma pouco majestosa (económica, diria eu), com uma Lady Marion armada em Joana D’Arc – o que pode ser muito louvável nos dias de hoje, mas não deixa de ser uma facada na credibilidade do filme – e com um Robin Hood a revelar-se um canivete suíço do exército, já que ele ajuda os arqueiros, a cavalaria e, como não podia deixar de ser, a donzela em perigo.

 

Contudo, o que mais decepciona no filme é a própria preguiça com que ele foi produzido. O argumento original pretendia dar a conhecer um lado mais simpático do Xerife de Nottingham que apenas tentava cumprir o seu dever contra um Robin dos Bosques retratado como um fora-da-lei menos idealista. Infelizmente esta ideia não foi avante e preferiu-se jogar pelo seguro, subestimando a inteligência do espectador. Poderia ter saído daqui um filme muito mais interessante que este inconsequente, mas passável, Robin ‘Maximus’ Hood.

 

Qualidade da banha: 11/20

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:42


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Últimos vendidos


Armazém

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D