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Os Miúdos Estão Bem

por Antero, em 15.02.11

 

The Kids Are All Right (2010)

Realização: Lisa Cholodenko

Argumento: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg

Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson

 

Qualidade da banha:

 

Há coisas que não se entendem: certos filmes chegam até nós com completamente sovados pela crítica e não se percebe o porquê de tanto vexame; outros aparecem embalados por elogios e aplausos sem que vislumbremos motivos para tal. Os Míudos Estão Bem pertence a esta última categoria.

 

Nic e Jules são um casal lésbico com dois filhos adolescentes, Joni (de Joni Mitchell) e Laser (do raio). À medida que Joni se prepara para partir para a Universidade, Laser, com 15 anos, pressiona-a para que lhe faça um grande favor: que o ajude a encontrar o pai biológico de ambos – foram concebidos através de inseminação artificial, embora ele seja filho de Jules e ela de Nic. Embora algo contrariada, Joni honra o pedido do irmão e consegue entrar em contacto com Paul, um bem-disposto empresário da restauração. Este reencontro despoletará uma verdadeira crise no outrora saudável ambiente familiar.

 

Destaque no Festival de Sundance em 2010, Os Miúdos Estão Bem é cinema independente dos pés à cabeça: apesar de abordar uma temática que não traz nada de novo (o conceito de família e a dinâmica dos seus integrantes), a realizadora Lisa Cholodenko pontua as suas personagens com características peculiares. No entanto, estes detalhes têm como único propósito tornar o filme mais sofisticado na sua proposta, já que falham em tornar aqueles seres mais interessantes – e o facto de percebermos esta obviedade do argumento revela não só falta de sensibilidade na condução da narrativa, mas também um certo preconceito. Paul, por exemplo, é convenientemente dono de uma plantação de alimentos orgânicos e namora com uma afro-americana.

 

Sem ter a algo a que se agarrar, Cholodenko encena um conflito dramático de maneira artificial com o envolvimento gratuito entre Jules e Paul, já que o aparecimento do pai biológico não parece afectar a relação que Joni e Laser têm com as mães. Desta forma, cabe ao excelente elenco carregar o filme às costas e é por eles que Os Miúdos Estão Bem não se torna um desastre total: Annette Bening consegue salvar a caracterização falha de Nic como mulher ansiosa sem razão aparente, recorrendo a uma postura de "lésbica masculinizada" sem resvalar para a caricatura, assim como Julianne Moore mostra-se insegura e carente (também sem motivo aparente) como a típica figura feminina obrigada a abandonar a carreira em prol dos filhos, enquanto Mark Rufallo confere simpatia e segurança a Paul. Que estas personagens soem autênticas de algum modo é por que têm um talentoso elenco a dar-lhes corpo e alma.

 

Longe de também poder ser classificado como comédia, Os Miúdos Estão Bem ainda perde um tempo considerável com os amigos de Joni e Laser sem que estes exerçam função alguma na história. Para quê mostrar Laser a consumir drogas com o seu amigo problemático se isto não será abordado adiante? Para mostrar como ele é "atípico"? É a forma como estes assuntos são atirados e depois largados na narrativa que enerva no filme, como se quisesse chamar a atenção à força toda – e, a bem da verdade, há apenas um momento genuinamente sensível e hilariante na mesma medida em toda a projecção: quando Nic e Jules explicam a Laser o porquê de preferirem filmes pornográficos com homossexuais do sexo masculino.

 

Surpreendente vencedor do Globo de Ouro de Melhor Comédia ou Musical (o que diz muito do prémio e não do filme), Os Miúdos Estão Bem ainda falha ao concluir de maneira pouco satisfatória os "conflitos" criados anteriormente. Numa obra que tenta a todo o custo mostrar-se pouco convencional e inteligente, nada pior do que acabar com um lugar-comum covarde e deselegante.

 

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publicado às 23:49

No país das (poucas) maravilhas

por Antero, em 05.03.10


Tenho muita estima por Tim Burton e os seus universos fantasiosos recheados de humor negro e até mesmo pelos seus filmes mais comerciais (considero o mal-amado Planeta dos Macacos espectacular), mas, desta vez, algo correu mal. Alice no País das Maravilhas é o pior filme de Tim Burton em muito tempo, provavelmente o pior que ele já realizou, onde abundam os efeitos especiais e os cenários maravilhosos, porém tudo sem alma, sem chama, sem o sentido de maravilhamento que deveria estar presente numa adaptação da obra de Lewis Carroll e que Burton trata com o descaso típico do realizador que se rendeu aos devaneios proporcionados pela tecnologia digital. É menos um filme de Tim Burton, mas mais um filme Disney com umas pitadas do realizador de obras como Ed Wood, Eduardo Mãos-de-Tesoura, O Estranho Mundo de Jack ou A Noiva Cadáver.

 

Desenvolvido como uma espécie de sequela das obras literárias Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, o filme conta com Alice já com 19 anos e prestes a casar com um lorde, num arranjo proporcionado pelas famílias de ambos. Quando deve aceitar o pedido de casamento, a jovem hesita e acaba por fugir, indo parar à toca de um coelho, entrada para a Sub Terra ("Underland" no original e não "Wonderland", num detalhe imbecil acrescentado pelo argumento) onde reencontra o Coelho Branco, os gémeos Tweedledee e Tweedledum, a Lagarta Azul, o Gato Cheshire e o extravagante Chapeleiro Louco. No entanto, Alice não se recorda das aventuras anteriores e agora terá de fazer frente à Rainha Vermelha (numa mistura desta com a Rainha de Copas) que se apoderou do trono e devolvê-lo à irmã desta, a Rainha Branca, para que a felicidade volte a reinar no País das Maravilhas.

 

Pensaram em Hook? Pois bem, a base é praticamente a mesma, só que o desenvolvimento está mais para A Bússola Dourada ou As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e tantos outros sub-Senhor dos Anéis que invadiram os ecrãs nos últimos anos. E dá-lhe música épica (Danny Elfman volta a entregar uma partitura fraca), panorâmicas das personagens enquanto percorrem pastos, planícies e montanhas e, para não fugir muito à regra, uma história ancestral do Escolhido contra as forças malignas. Aqui, Alice terá de recuperar a mítica Espada Vorpal para matar um dragão qualquer (esqueci-me do nome) e destronar a Rainha Vermelha. Sim, o argumento é assim tão linear e pouco ambicioso.

 

Por outro lado, o País das Maravilhas (ou Sub Terra como o filme insiste em chamar) é belíssimo, mas Burton nunca nos dá a oportunidade de nos envolvermos naquele universo, deixando que os cenários majestosos façam o trabalho por ele. Ou seja, tudo o que tão bem resultou emAvatarnão se aplica aqui. Mas o mais decepcionante é que Burton abandone o surrealismo e a inteligência da obra de Carroll para abraçar uma aventura de grande escala, onde nem o charme das personagens secundárias recupera a essência original, uma vez que é notória a inclusão do Chapeleiro como personagem importante e não tanto periférica como justificação para o apelo comercial de Johnny Depp.

 

E por falar em personagens importantes, o facto de Alice estar mais crescida não faz diferença alguma no resultado final, já que ela demonstra uma inocência incomum para uma jovem de 19 anos, sendo ainda prejudicada pela fraca actuação de Mia Wasikowska que, além de inexpressiva, surge pouco à vontade no meio de tanto cenário digital (e a cena em que ela se belisca por achar que aquilo tudo é um sonho é, no mínimo, embaraçosa). Ainda assim, Helena Bonham Carter resgata o espírito da Rainha de Copas com imenso sucesso, sendo ainda auxiliada pelos excelentes efeitos especiais que lhe aumentam a cabeça de forma absurda para um corpo tão esguio. Quanto a Johnny Depp, o actor acrescenta mais uma personagem excêntrica à sua já longa galeria, embora não saia do piloto automático, ao passo que Anne Hathaway mal tem tempo para fazer seja o que fôr com a Rainha Branca.

 

Com poucos momentos do humor negro que caracterizam a obra de Tim Burton (os animais vassalos da Rainha ou as cabeças flutuantes que auxiliam Alice a atravessar um leito são momentos isolados), Alice nos País das Maravilhas falha ainda ao não estabelecer nenhum arco dramático para a sua protagonista que, ao final da projecção, não sofre nenhuma mudança assinalável. Se pensarmos que o filme foi filmado em 2D e só depois convertido para 3D, é caso para dizer que Burton preocupou-se em dar profundidade às imagens e não à narrativa e, no final, o seu filme é tudo menos maravilhoso, mas sim... vulgar.

 

Qualidade da banha: 8/20

 

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publicado às 20:20


Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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