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X-Men: O Início

por Antero, em 10.06.11

 

X-Men: First Class (2011)

Realização: Matthew Vaughn

Argumento: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn

Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne, January Jones, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult
 

Qualidade da banha:

 

Quando Bryan Singer assinou o primeiro X-Men, em 2000, as adaptações de comics (salvo raras excepções) vinham sendo tratadas como meros depósitos de infantis batalhas entre o Bem e o Mal onde nada era levado muito a sério. Com esse filme, o género deu o salto qualitativo que precisava: com uma abordagem adulta e inteligente (que foi seguida, em maior ou menor grau, nos dois capítulos seguintes) e sucesso de público, Singer cimentou o paradigma a ser acompanhado por outras obras e os comics nunca estiveram tão em voga no cinema como nos últimos dez anos.

 

Criados na turbulência de uma América mergulhada nas questões raciais, os X-Men servem como metáfora para qualquer minoria da sociedade: geneticamente diferentes do Homo sapiens, os mutantes possuem habilidades extraordinárias e são excluídos e odiados por muitos daqueles que juraram proteger, os humanos. Assim, Charles Xavier (Professor X) e Erik Lehnsherr (Magneto) surgem como forças antagónicas neste tabuleiro. Enquanto o primeiro age como um diplomata crente na convivência pacífica entre humanos e mutantes, o segundo, sobrevivente do Holocausto, já experienciou o pior da natureza humana e prega o domínio da sua espécie através do uso da força. A dinâmica de respeito/ódio entre os dois indivíduos e as suas ideologias era um dos pontos altos da trilogia original e é resgatada com brilhantismo nesta semi-prequela/semi-reformulação (há detalhes cronológicos que não batem certo, mas isso não é importante) da saga que se dedica aos primeiros tempos da equipa e como Xavier e Erik se conheceram. E, claro, como se desentenderam.

 

Iniciando-se na década de 40 ao trazer o jovem Erik (Fassbender) num campo de concentração polaco, X-Men: O Início investe boa parte da sua introdução a apresentar a juventude sofrida de Magneto às mãos do inescrupuloso Sebastian Shaw (Bacon) em função dos seus poderes – uma adolescência que é o oposto da do adolescente Charles (McAvoy), cuja família abastada lhe proporcionou estudos e diversão, o que obviamente reflecte-se na postura vivaz de Xavier por contraste ao carácter amargurado de Lehnsherr. Este passa os anos do pós-guerra fixado na ideia de encontrar o seu antigo carrasco e matá-lo, o que o levará a conhecer Xavier e a encetarem, com o apoio da CIA, uma busca por outros mutantes que possam ajudá-los a perseguir Shaw, cujos objectivos passam por inflamar as relações entre os EUA e a União Soviética.

 

Ao ambientar a narrativa nos anos 60, Vaughn encontra a desculpa perfeita para abraçar a estética comum aos comics, com as suas cores berrantes, salas com designs devidamente retro e uniformes absurdos e pouco práticos. Além disso, o realizador emprega acertadamente um clima que deve muito às primeiras aventuras de James Bond, seja pelo vilão de excelência representado por Bacon e os seus recursos (que submarino de luxo é aquele?) ou pelos diversos países que Erik atravessa na sua vingança pessoal (e Fassbender daria um óptimo 007). Hábil ao lidar com imensas personagens que têm o devido tempo de antena, Vaughn até pode sacrificar a acção a certo instante, mas o que perdemos em adrenalina ganhamos em complexidade das relações das personagens, o que se tornará vital para quando as espectaculares cenas de acção aparecerem, uma vez que o nosso envolvimento emocional nunca é comprometido.

 

Encarnando um Xavier jovial que certamente não estaríamos à espera, McAvoy transforma-o repleto de ternura, bon vivant e astuto, ainda que inexperiente, como se o seu carácter mais pacato que conhecemos (e esperaríamos ver) fosse moldado com eventos futuros. Por outro lado, Fassbender injecta rancor e ódio em Magneto, mas não o torna num vilão: impulsivo e pragmático, ele é unicamente direccionado pela sua raiva e é o seu receio em ver a História repetir-se que dita os seus actos cada vez mais violentos e impensados. Ele sabe como a humanidade pode ser cruel com aqueles que julga diferentes, ao passo que Xavier acredita na capacidade de aceitação dos humanos – e é do choque entre estas faces da mesma moeda (um simbolismo fartamente usado no filme) que vêm os melhores momentos de X-Men: O Início.

 

Mas não é só: recentemente nomeada ao Oscar por Despojos de Inverno, a jovem Jennifer Lawrence compõe Raven (ou Mística) como uma rapariga insegura e dividida entre viver com a sua verdadeira aparência ou resguardar-se perante a sociedade. Uma trajectória que encontra paralelo na do precoce Hank McCoy, cuja deformidade leva-o a ressentir-se de comentários alheios e a procurar desesperadamente uma cura que o encaixe naqueles que o rodeiam. Desta forma, X-Men: O Início analisa as suas personagens com sensibilidade e cuidado para que nada saia gratuito: quando Xavier se arrisca por Erik, é por que ele sabe o potencial do amigo na sua luta e, mais tarde, quando o futuro líder dos X-Men suplica ao colega para que não ceda aos seus instintos assassinos, percebemos como aquele discurso soa trágico por todo o abalo que aquela amizade sofrerá.

 

Divertido e recheado de personagens fascinantes, X-Men: O Início usa a crise dos mísseis de Cuba como estratégia para ancorar aquele universo na realidade e conta com um terceiro ato intenso, da qual se destacam duas cenas: a visão de dezenas de mísseis em direcção ao mesmo alvo, o que expõe a índole destruidora da Humanidade, e o belíssimo plano que acompanha o movimento de uma moeda que retrata tristemente a cisão de valores entre os envolvidos. Envolvente do início ao fim, o filme é um bom exemplo de como as malfadas prequelas não têm necessariamente de ser previsíveis (basicamente já sabemos como tudo se desenrolará) e que podem, de certo modo, providenciar novos olhares sobre acontecimentos posteriores.

 

Uma lição que não pode nem deve ser ignorada.

 

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publicado às 03:19

Sem poderes e sem responsabilidades

por Antero, em 24.04.10


Dave Lizewski é o típico adolescente norte-americano: estuda no liceu, é apaixonado por uma colega, é fanático por comics e tem as hormonas a quebrar recordes no salto olímpico. Ele é um Peter Parker em potencial só que no mundo real não há aranhas radioactivas, seres de outro mundo ou raios gama que facultem o sujeito anónimo de super-poderes. Não há nem sequer o trauma familiar que o leve a um desejo de vingança. Dave decide dar o passo em frente e tornar-se num super-herói, seguindo a lógica de que há milhões de indivíduos que desejam ser como a Paris Hilton, mas ninguém quer ser um super-herói. Arranja um fato de mergulho verde e amarelo, adopta o nome de Kick-Ass e daí até à fama dos noticiários, do YouTube ou do MySpace é um salto. Até que ele se vê envolvido com os negócios de um magnata corrupto e será orientado por Big Daddy e Hit Girl, pai e filha que têm os seus próprios desejos de vingança.

 

Depois da desconstrução do conto de fadas no injustiçado Stardust - O Mistério da Estrela Cadente, Matthew Vaughn vira as suas lâminas para o género de super-herói, mas de forma mais afiada, ácida e violenta. Baseado na obra de banda desenhada escrita por Mark Millar e com o traço de John Romita, Jr., Kick-Ass - O Novo Super-Herói é uma sátira aos comics e, consequentemente, às adaptações que deram novo alento aos bolsos de Hollywood na última década, sendo a principal referência o primeiro Homem-Aranha realizado por Sam Raimi. Produzido de forma independente dos grandes estúdios, Vaugh sente-se à vontade para não fazer concessões ao politicamente correcto e inundar o filme de violência estilizada que, mais do que provocar o choque, acaba por fazer rir.

 

Ao contrário dos atentados cometidos por Jason Friedberg, Aaron Seltzer ou os irmãos Wayans, Kick-Ass é uma paródia que caminha pelo próprio pé e respeitando as regras consagradas pelo género: há a etapa da origem do herói, a sua primeira missão, as consequências na sociedade, o estabelecimento de aliados, a revolta dos vilões, o amor platónico que se torna mais palpável, os motivos para uma determinada vingança (numa sequência belissimamente ilustrada por John Romita, Jr.) e, claro, os secundários normais que nem desconfiam que o herói se encontra mesmo ali ao lado. Isto permite uma narrativa sólida que acaba por respeitar os ditames do género ao mesmo tempo que os desmistifica. Os uniformes são ridículos, os auxiliares do vilão são mera carne para canhão e o equivalente ao Homem-Aranha balancear-se por Nova Iorque ou ao voo do Super-Homem não deixa de ser divertido na maneira ridiculamente simplória que ocorre no ecrã.

 

Vestindo a pele da personagem principal, Aaron Johnson retrata com sensibilidade a vulgaridade de um adolescente ao mesmo tempo que insere pequenos detalhes na sua composição, como o desconforto sempre que veste o uniforme (afinal, ele não teve treino nenhum para se tornar vigilante), o que só engrandece a sua interpretação, ao passo que Mark Strong faz o vilão típico a mãos com um filho intrometido e ansioso por assumir os negócios do pai, enquanto Nicolas Cage surge mais comedido que o costume como Big Daddy, uma espécie de Batman da loja dos trezentos que até fala com uma divertida cadência digna de Bruce Wayne. Porém, o grande destaque do filme é a jovem Chlöe Grace Moretz que rouba todas as atenções sempre que entra em acção. Ternurenta, mas letal e asneirenta com os seus 11 anos, a Hit Girl é um prato cheio para todos aqueles que quiserem acusar o filme de ser moralmente reprovável e que não se deixem levar pelo gozo da produção. E, posso garantir, poucas coisas são tão divertidamente macabras como ver um sorriso infantil de uma criança enquanto esquarteja um grupo de mafiosos.

 

Recheado de referências à cultura popular (vai de Scarface a filmes de gangsters, passando pelas redes sociais e até LOST) e de violência e cenas de acção hilariantes de tão absurdas, Kick-Ass ainda arranha uma crítica à sociedade contemporânea, ávida de consumismo e onde os meios de comunicação estão sedentos de violência e prontos a promover a idolatração do cidadão anónimo. Uma diversão inteligente, politicamente incorrecta, imaginativo e com uma direcção enérgica de Vaughn que nunca deixa o filme descambar para tempos mortos. Um bálsamo para qualquer fã de cinema e comics, logo sinto-me duplamente satisfeito.

 

Qualidade da banha: 16/20

 

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publicado às 17:46


Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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