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Cosmopolis

por Antero, em 04.06.12


Cosmopolis (2012)

Realização: David Cronenberg

Argumento: David Cronenberg

Elenco: Robert Pattinson, Kevin Durand, Sarah Gadon, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Juliette Binoche, Samatha Morton
 

Qualidade da banha:

 

Cosmopolis é uma treta disfarçada de filme profundo e que nos convida a refletir sobre as suas ideias - isto é, até percebermos que a obra em questão não vale o tempo perdido com divagações sobre os seus temas. Não é difícil perceber o que terá atraído David Cronenberg a levar o livro de Don DeLillo ao grande ecrã; incompreensível é que tenha realizado um produto que quanto mais questiona mais vazio e irritante se revela.

 

Eric Packer (Pattinson) é um jovem bilionário e uma verdadeira ratazana da alta finança que mete na cabeça que tem de ir cortar a cabelo. Para isso, terá de cruzar uma Nova Iorque em autêntico clima de ebulição, visto que o Presidente dos EUA e outras figuras políticas se encontram na cidade, o que dá um prato cheio para violentas manifestações de anarquistas. Sem dar ouvidos ao seu guarda-costas (Durand) que acredita que a sua vida corre perigo, Eric vai-se cruzando com diversos indivíduos, ora colaboradores profissionais ora completos estranhos, que o levarão a meditar sobre o seu rumo.

 

Hábil a lidar com temas que mergulham na psique humana e nos seus conflitos, Cronenberg tenta ensaiar um estudo sobre os malefícios do capitalismo desenfreado e de como a tecnologia se tornou uma máquina de fazer dinheiro que suga a humanidade de todos os agentes ao mesmo tempo que lida com um protagonista que, obviamente, representa aquele 1% da população que detém a riqueza e cuja sede de poder parece não ter limites. Eu escrevi "tenta" por que a verdade é que tudo sai ao lado: Cosmopolis quer ser tanta coisa ao mesmo tempo que se esquece de ser um filme.


As cenas sucedem-se sem a mínima coesão que não a da lógica temporal – o que já é uma proeza ao lado de personagens que se comportam de maneira absurdamente robótica e debitam diálogos atrozes ("Porque se chamam aeroportos?") e que nem respeitam as leis de uma conversa a dois: ninguém parece falar para outra pessoa, mas para si mesma, exatamente como num monólogo e, muitas vezes, sem responder ao que é perguntado. Claro que isto poderia refletir a alienação da sociedade atual e nota-se que Cronenberg tenta imprimir esta abordagem na narrativa, só que a mesma cai por terra devido à teatralidade das ações daqueles indivíduos.

 

Para piorar, Cronenberg retrata os manifestantes como uma turba incontrolável que, nos tempos mortos, dedica-se a invadir restaurantes com animais mortos e uma das ideias de Cosmopolis é a de que ratazanas se tornariam a nova moeda corrente – e peço desculpa por achar esta metáfora completamente indecifrável e mal explorada. Também o que esperar de um filme onde os seres humanos reagem como se fossem simulações de computador e que inclui momentos idiotas como aquele em que Eric cruza-se, no meio do trânsito, com um taxi que leva a sua esposa ou aquele em que o bilionário não esboça a mínima reação ao dispararem sobre ele, o que me leva a suspeitar que ele não se trata realmente de um humano e sim de produto de um argumento que se acha erudito e que, para ser sincero, é apenas fútil.

 

Claro que o elenco pouco pode fazer com personagens tão rasas: dói ver nomes como Juliette Binoche, Samantha Morton e Paul Giamatti (naquela que está mais próxima de um ser tridimensional) serem desperdiçados por diálogos sofríveis e situações irracionais e Robert Pattinson bem tenta, mas é inexpressivo e nada convincente para que consiga manter o interesse. Até o "duelo final" é boicotado pela monotonia de Pattinson e pelo fim abrupto que é dado à mesma, numa tentativa de acabar numa nota contemplativa e reflexiva que falhou em toda a linha.

 

Agradeço a Cronenberg o esforço em fazer-me pensar, mas o melhor é que ele pense em voltar a fazer bons filmes.

 

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publicado às 23:56

Puro Aço

por Antero, em 04.11.11

 

Real Steel (2011)

Realização: Shawn Levy

Argumento: John Gatins

Elenco: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Kevin Durand
 

Qualidade da banha:

 

Misto de Rocky com Transformers? Parece impossível, mas é isto que Puro Aço propõe: em 2020, o boxe é praticado por robots em vez de humanos, uma medida politicamente correta que visa reduzir a violência crescente do desporto. Charlie (Jackman) já foi um lutador com relativo sucesso, mas os tempos são outros e agora promove combates robóticos de quinta categoria. Cheio de dívidas, ele decide relutantemente passar umas semanas com Max (Goyo), o filho que renegara há dez anos e que é fã da modalidade. Ambos unirão esforços para voltar a ter sucesso nos ringues, reutilizando peças descartadas e a Atom, uma máquina de segunda geração destinada à sucata encontrada por Max.

Só de ler a sinopse acima já posso imaginar o vosso pensamento: "pfff... mais uma história batida de superação, em que o pai e o filho reatam a muito custo, um deles hesitará antes do terceiro ato ter início e até aposto que há um interesse amoroso que debita pérolas sobre o valor do amado...". Tudo isto é verdade e Puro Aço está recheado de clichés, mas com a diferença de que sabe trabalha-los para extrair o máximo de emoção ao espectador sem parecer maniqueísta. Assim, o facto de Charlie receber dinheiro para acolher o filho poderia ser usado para criar um conflito artificial mais à frente, mas logo este dado é sabido por Max que de seguida confronta o pai (e, consequentemente, dá sinais do seu génio forte que, isso sim, será relevante para a narrativa). Mesmo o interesse romântico vivido por Evangeline Lilly é desenvolvido com cuidado para não soar forçado, tendo como função pontuar a relação pai-filho que é o que realmente interessa para a história.

 

Demonstrando um imenso entrosamento em cena, Hugh Jackman e o jovem Dakota Goyo revelam uma química essencial para o sucesso do filme, já que é por eles que torcemos ao longo de duas horas. Jackman, um ator talentoso, demonstra um perfeito equilíbrio entre a comédia e o drama no papel do pai falido e pouco carinhoso que, aos poucos, compreende o verdadeiro peso de criar um filho. Max, por outro lado, é construído pelo argumento como uma criança que, mesmo não querendo, partilha vários aspetos com o progenitor: a paixão pelo boxe, a autoconfiança e uma pontinha de matreirice e língua afiada. Claro que isto não é muito aprofundado ou dramático, mas serve para carregar bem o filme e preparar terreno para o verdadeiro espetáculo: os robots.

Tecnicamente impecáveis, os robots movem-se com total fluidez, são perfeitamente credíveis naquele universo e têm um design que incorpora algumas caraterísticas da modalidade nos seus corpos: como máquina de treino, Atom tem uma fisionomia humana, com o crânio que tem uma grade retalhada (que se assemelha a uma cara), os olhos luminosos, braços com uma aparência de luvas de boxe e pés com formato de sapatilhas. Além disso, o seu visual sujo, datado e podre contrasta brilhantemente com os robots recentes, limpos, brilhantes e tecnologicamente mais avançados - já para não falar no detalhe genial de ele estar preparado para assimilar movimentos humanos como forma de estabelecer um padrão de treino, o que o torna ainda mais humano aos nossos olhos.

 

No entanto, a grande surpresa de Puro Aço é mesmo o realizador Shawn Levy que depois de comandar uma série de comédias insignificantes (À Noite, no Museu; A Pantera Cor-de-Rosa; À Dúzia É Mais Barato), demonstra segurança na condução da película para que esta não descambe no sentimentalismo e, o melhor de tudo, filma os combates de maneira empolgante, com coreografias que remetem diretamente ao boxe e que nos permite vislumbrar o belo trabalho de efeitos especiais ao serviço da história (uma lição que Michael Bay poderia aprender). Só condeno um ou outro pormenor: porquê fazer dos vilões seres arrogantes e desprezíveis? Era mesmo necessário demoniza-los sem comprometer a nossa simpatia por Charlie e Max? E por que não cortar as partes dos credores mafiosos que alongam demasiado a duração? Ou deixar questões em aberto como o facto de Atom ter ou não uma essência?

 

Nada disto retira o brilho a Puro Aço que, previsível do início ao fim, soube tirar partido dos seus pontos fortes, esconder até onde pôde as suas falhas e transformar-se num entretenimento cativante e eficaz.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 03:00


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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