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007 – Skyfall

por Antero, em 28.10.12


Skyfall (2012)

Realização: Sam Mendes

Argumento: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade

Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomi Harris, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw, Albert Finney
 

Qualidade da banha:

 

Os filmes de James Bond nunca foram conhecidos por terem realizadores reputados já que a série pedia apenas que cumprissem o caderno de encargos obrigatório estabelecido há 50 (!) anos – e a única vez em que se tentou inovar neste quesito o resultado foi...Quantum of Solace. Para o 23º (!) filme oficial, os produtores voltam a fazer uma escolha inusitada, mas desta vez os receios eram infundados: Sam Mendes traz uma assinatura única a Skyfall que, mesmo cheio de referências à mitologia do agente do MI6, é o menos 007 de todos os 007. E, por isso mesmo, um dos seus melhores exemplares.

 

Escrito pelos já veteranos na série Neal Purvis e Robert Wade (que já andam nisto desde O Mundo Não Chega) juntamente com o recém-chegado John Logan, Skyfall inicia-se no final de uma missão fracassada na qual um disco que contem as identidades de vários agentes do MI6 é roubado e da qual James Bond (Craig) é dado como morto. No entanto, depois de um ataque à sede do MI6 em Londres, Bond vê-se obrigado a voltar à ativa contra um vilão cibernético que, longe do normal na série, não tem planos megalómanos: a sua cruzada dirige-se a M (Dench), a superior de 007, que vê a sua carreira ao serviço da Rainha trazer à tona escolhas e erros do passado.

 

Não se assustem os fãs quando escrevo que este é menos 007 de todos; muitos dos elementos da personagem estão lá: a frase icónica, o martini (que não é pedido), as viagens pelo globo, até o Q aparece embora com poucas engenhocas e a discussão entre o velho e moderno faz com que Skyfall insira umas quantas piscadelas de olho ao legado de cinco décadas (e um certo e famosíssimo veículo é resgatado do limbo a dada altura). Esta dicotomia entre passado e presente define o filme estilitica e dramaticamente, uma vez que não só o passado de M a volta para a atormentar como também a relevância de James Bond nos dias de hoje é analisada ao longo da narrativa (a sua aversão à tecnologia e as piadas sobre estar "ultrapassado" rendem bons momentos), o que, num caso mais extremo, é algo que ultrapassa o próprio filme: longe vão os tempos em que os filmes de 007 ditavam as regras do cinema de ação e, nos últimos anos, as longas-metragens de Jason Bourne focaram as atenções dos fãs do género e, assim, a própria série foi obrigada a reinventar-se.

 

Dando continuidade temática ao excelente Casino Royale, Skyfall traz um Bond mais experiente, mas não menos brutal: há algo de psicótico nas suas ações e na sua dedicação às missões e Daniel Craig continua impecável ao retratar a virilidade e o caráter explosivo do agente. Por outro lado, as bond girls da ocasião não causam impressão alguma para além da sua beleza, uma vez que a verdadeira bond girl é Judi Dench que ganha mais tempo de projeção e uma profundidade nunca antes vista, mas que faz todo o sentido já que é a sua relação ora afetuosa ora distante com Bond que serve como alicerce da narrativa (e já que mencionei Casino Royale, não deixa de ser interessante que um pequeno diálogo dessa obra seja o mote para o intenso terceiro ato de Skyfall). Já Ralph Fiennes e Ben Whishaw são adições curiosas à série, mas é Javier Bardem quem realmente se destaca com o seu Silva, digno de figurar na galeria dos melhores vilões de 007: com um visual bizarro e uma afetação que o torna num ser imprevisível e perigoso, ele carrega um subcontexto de homossexualidade que rompe com o machismo característico da série – e a tirada final de Bond aos seus avanços merece aplausos pela sua originalidade e coragem.

 

Conduzindo a narrativa com segurança, Sam Mendes impressiona mesmo é nas fabulosas sequências de ação, com destaque para a cena pré-créditos que começa nas ruas de Istambul e termina num comboio em movimento, a perseguição pelos subterrâneos de Londres e o bombástico (literalmente) desfecho. Ao lado do não menos fantástico diretor de fotografia Roger Deakins, Mendes mostra bom olho para a composição dos planos e para a urgência das situações – e momentos como aquele diante dos painéis luminosos de Shangai ou a chegada a um casino cuja fachada tem a forma cabeça de um dragão trazem uma benvinda sofisticação artística tamanho é o requinte com que são apresentados.

 

Um pouco mais longo que o ideal, Skyfall ganha pontos por mostrar novas camadas na personalidade de 007 ao desenvolver a sua complexa relação com M e também por conseguir a difícil tarefa de emparelhar a personagem com todas as regras estabelecidas ao mesmo tempo que o contextualiza no presente e o prepara para o futuro. Este, sim, é o James Bond que conhecemos e acompanhar a sua evolução até lá chegar foi nada menos que ótimo.

 

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publicado às 23:32

A Invenção de Hugo

por Antero, em 23.02.12

 

Hugo (2011)

Realização: Martin Scorsese

Argumento: John Logan

Elenco: Asa Butterfield, Chlöe Grace Moretz, Ben Kingsley, Sasha Baron Cohen, Jude Law, Christopher Lee
 

Qualidade da banha:

 

Não deixa de ser curioso que dois dos grandes candidatos aos Oscars este ano abordem temáticas que remetam para os primórdios do Cinema, numa evocação de nostalgia que embala o espectador – mas, ao contrário deO Artista, esta curiosidade praticamente se torna numa bem-vinda ironia quando Scorsese abraça as mais recentes tecnologias para nos levar por uma viagem pelo fenómeno de popularização da Sétima Arte quando esta era ela própria... a mais recente tecnologia.

Escrito por John Logan a partir do livro de Brian Selznick, a história acompanha o órfão Hugo (Butterfield), que, vivendo numa estação ferroviária de Paris, tenta juntar peças a fim de reconstruir um autómato encontrado pelo seu pai (Law). Certo dia, Hugo é surpreendido pelo dono de uma loja de brinquedos ao tentar roubar mais um objeto para seu projeto e acaba por trabalhar para o sujeito ou será entregue ao ameaçador inspetor da estação, Gustave (Cohen). Tornando-se amigo de Isabelle (Moretz), filha adotiva do lojista, o rapaz acaba por descobrir que o seu patrão é Georges Méliès (Kingsley), esquecido realizador do icónico A Viagem à Lua e possível inventor do objeto descoberto pelo seu pai.

Com um tom de fábula mais do que apropriado à narrativa, A Invenção de Hugo situa a sua ação numa Paris fantasiosa, mas não irrealista: a estação de comboios é intensamente banhada por luz, a biblioteca está exageradamente apinhada de livros e os mecanismos dos relógios aparentemente não têm fim, mas estes cenários, mediante um design de produção e efeitos visuais impecáveis, nunca deixam de soar funcionais e harmoniosos – e Scorsese, um amante de planos-sequência, não hesita em empregá-los para acompanhar Hugo nas suas deambulações pelas entranhas da estação, sendo ainda beneficiado por um (finalmente!) trabalho em 3D memorável, já que a profundidade do campo visual é potenciada ao máximo e dando-se ao luxo de brincar com a tecnologia, como no momento em Gustave ameaça as crianças e a sua cabeça quase "salta" do ecrã.

Mas é a partir do momento em que a identidade do lojista é revelada que A Invenção de Hugo revela a sua ambição: Méliès já era um ilusionista reputado quando se deparou com o cinematógrafo dos irmãos Lumière e percebeu que poderia aplicar os seus truques para aperfeiçoar a técnica cinematográfica e contar histórias que desafiassem a imaginação do público. Tal como o Cinema, Hugo sofre uma trajetória emocional semelhante: limitado ao que via à distância no seu quotidiano (assim como os primeiros filmes traziam eventos prosaicos), ele logo é atirado para situações que remetem à aventura e que, de certa forma, refletem obras do primeiros anos da Sétima Arte (o incidente do comboio e o instante em que Hugo se pendura no ponteiro de um enorme relógio).

Noutras ocasiões, Scorsese faz uma recriação literal das produções de Mèliés e, mais uma vez, o efeito 3D é inteligentemente usado para traçar um paralelo entre a imersão que se busca atualmente e aquela que o pioneiro dos efeitos visuais almejava há mais de um século, como no brilhante momento no qual a câmara se afasta e vemos um aquário em grande plano e o cenário ao fundo, dando a ilusão de ambiente subaquático). A grande lição de A Invenção de Hugo, porém, é a necessidade de preservação dos clássicos como parte importante da História – e a salvação do esquecimento absoluto a que Mèliés (ainda) é sujeito justifica-se pela celebração de um legado artístico incalculável para criar as bases pelas quais o Cinema evoluiu e amadureceu.

 

Apenas prejudicado por histórias paralelas que se alongam mais do que o necessário e personagens secundárias sem grande relevância, A Invenção de Hugo é uma carta de amor não só a uma técnica, mas também a todas as suas potencialidades limitadas à imaginação de cada um. Uma homenagem feita com a tecnologia de ponta de agora para quem tudo isto proporcionou no passado.

 

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publicado às 23:52


Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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