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007 – Skyfall

por Antero, em 28.10.12


Skyfall (2012)

Realização: Sam Mendes

Argumento: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade

Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomi Harris, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw, Albert Finney
 

Qualidade da banha:

 

Os filmes de James Bond nunca foram conhecidos por terem realizadores reputados já que a série pedia apenas que cumprissem o caderno de encargos obrigatório estabelecido há 50 (!) anos – e a única vez em que se tentou inovar neste quesito o resultado foi...Quantum of Solace. Para o 23º (!) filme oficial, os produtores voltam a fazer uma escolha inusitada, mas desta vez os receios eram infundados: Sam Mendes traz uma assinatura única a Skyfall que, mesmo cheio de referências à mitologia do agente do MI6, é o menos 007 de todos os 007. E, por isso mesmo, um dos seus melhores exemplares.

 

Escrito pelos já veteranos na série Neal Purvis e Robert Wade (que já andam nisto desde O Mundo Não Chega) juntamente com o recém-chegado John Logan, Skyfall inicia-se no final de uma missão fracassada na qual um disco que contem as identidades de vários agentes do MI6 é roubado e da qual James Bond (Craig) é dado como morto. No entanto, depois de um ataque à sede do MI6 em Londres, Bond vê-se obrigado a voltar à ativa contra um vilão cibernético que, longe do normal na série, não tem planos megalómanos: a sua cruzada dirige-se a M (Dench), a superior de 007, que vê a sua carreira ao serviço da Rainha trazer à tona escolhas e erros do passado.

 

Não se assustem os fãs quando escrevo que este é menos 007 de todos; muitos dos elementos da personagem estão lá: a frase icónica, o martini (que não é pedido), as viagens pelo globo, até o Q aparece embora com poucas engenhocas e a discussão entre o velho e moderno faz com que Skyfall insira umas quantas piscadelas de olho ao legado de cinco décadas (e um certo e famosíssimo veículo é resgatado do limbo a dada altura). Esta dicotomia entre passado e presente define o filme estilitica e dramaticamente, uma vez que não só o passado de M a volta para a atormentar como também a relevância de James Bond nos dias de hoje é analisada ao longo da narrativa (a sua aversão à tecnologia e as piadas sobre estar "ultrapassado" rendem bons momentos), o que, num caso mais extremo, é algo que ultrapassa o próprio filme: longe vão os tempos em que os filmes de 007 ditavam as regras do cinema de ação e, nos últimos anos, as longas-metragens de Jason Bourne focaram as atenções dos fãs do género e, assim, a própria série foi obrigada a reinventar-se.

 

Dando continuidade temática ao excelente Casino Royale, Skyfall traz um Bond mais experiente, mas não menos brutal: há algo de psicótico nas suas ações e na sua dedicação às missões e Daniel Craig continua impecável ao retratar a virilidade e o caráter explosivo do agente. Por outro lado, as bond girls da ocasião não causam impressão alguma para além da sua beleza, uma vez que a verdadeira bond girl é Judi Dench que ganha mais tempo de projeção e uma profundidade nunca antes vista, mas que faz todo o sentido já que é a sua relação ora afetuosa ora distante com Bond que serve como alicerce da narrativa (e já que mencionei Casino Royale, não deixa de ser interessante que um pequeno diálogo dessa obra seja o mote para o intenso terceiro ato de Skyfall). Já Ralph Fiennes e Ben Whishaw são adições curiosas à série, mas é Javier Bardem quem realmente se destaca com o seu Silva, digno de figurar na galeria dos melhores vilões de 007: com um visual bizarro e uma afetação que o torna num ser imprevisível e perigoso, ele carrega um subcontexto de homossexualidade que rompe com o machismo característico da série – e a tirada final de Bond aos seus avanços merece aplausos pela sua originalidade e coragem.

 

Conduzindo a narrativa com segurança, Sam Mendes impressiona mesmo é nas fabulosas sequências de ação, com destaque para a cena pré-créditos que começa nas ruas de Istambul e termina num comboio em movimento, a perseguição pelos subterrâneos de Londres e o bombástico (literalmente) desfecho. Ao lado do não menos fantástico diretor de fotografia Roger Deakins, Mendes mostra bom olho para a composição dos planos e para a urgência das situações – e momentos como aquele diante dos painéis luminosos de Shangai ou a chegada a um casino cuja fachada tem a forma cabeça de um dragão trazem uma benvinda sofisticação artística tamanho é o requinte com que são apresentados.

 

Um pouco mais longo que o ideal, Skyfall ganha pontos por mostrar novas camadas na personalidade de 007 ao desenvolver a sua complexa relação com M e também por conseguir a difícil tarefa de emparelhar a personagem com todas as regras estabelecidas ao mesmo tempo que o contextualiza no presente e o prepara para o futuro. Este, sim, é o James Bond que conhecemos e acompanhar a sua evolução até lá chegar foi nada menos que ótimo.

 

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publicado às 23:32

 

The Girl with the Dragon Tattoo (2011)

Realização: David Fincher

Argumento: Steve Zaillian

Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Steven Berkoff, Joely Richardson
 

Qualidade da banha:

 

NOTA: não posso avaliar a fidelidade da trilogia Millennium em relação às obras literárias que lhe deu origem, uma vez que não as li. Sendo assim, qualquer comparação terá como base a trilogia cinematográfica sueca, falada sucintamenteaquieaqui.

Havia necessidade de Hollywood adaptar os livros do falecido Stieg Larsson quando estes foram levados ao grande ecrã há meros dois anos e que foram um sucesso em todo o Mundo? No aspeto comercial, há sempre necessidade: como os norte-americanos são avessos a legendas, é preferível refazer tudo por um balúrdio do que gastar um ou dois milhões de dólares a adquirir os direitos do original, legendá-lo e distribui-lo. Esta lógica distorcida dita os rumos da indústria há décadas e é mais uma prova da sua falta de criatividade. Por outro lado, do ponto de vista artístico, esta nova versão de Os Homens que Odeiam as Mulheres é perfeitamente válida e tem os seus méritos, embora não seja assim tão superior à película sueca que a antecedeu.
 
Primeiro capítulo da trilogia Millennium, Os Homens que Odeiam as Mulheres traz o jornalista Mikael Blomkvist (Craig) caído em desgraça após perder um processo em tribunal por difamação contra um influente empresário. Decidido a afastar-se do cargo de editor da revista Millennium e com as finanças arruinadas, Mikael aceita o convite de um velho industrial do norte da Suécia, Henrik Vanger (Plummer), para que se instale na sua moradia e desvende um mistério com 40 anos: o desaparecimento da sua sobrinha-neta, Harriet, que ele acredita ter sido morta por alguém do seu clã. Enquanto isso, Lisbeth Salander (Mara), uma analista e pirata informática que já investigara o passado de Mikael, vê a sua já tumultuosa rotina virar do avesso com o colapso do seu tutor legal e terá uma nova oportunidade quando for recrutada para ajudar na investigação da morte de Harriet.
 
Escrito pelo experiente Steve Zaillian a partir do livro de Larsson, o argumento mantém a ação na Suécia fria e melancólica do original, uma decisão acertada que visa conservar a ambientação sombria que rodeia as personagens ao mesmo tempo que respeita e explora o grande tema da trilogia: o peso do passado. Tal como aqueles indivíduos vivem em conflito por causa de atos obscuros que vivenciaram, a própria Suécia, país dito evoluído e estável, tem os seus esqueletos no armário refletidos na ascensão do clã Vanger e as suas ligações antigas ao partido Nazi (embora não deixe de ser curioso ver atores de Hollywood a interpretarem suecos que se expressam em inglês com sotaque).
 
Objeto mais cinematográfico que o original (que era notoriamente um produto televisivo), Os Homens que Odeiam as Mulheres é menos explícito e violento e, aqui sim, podemos afirmar que é um filme "americanizado", mas que não deixa de retratar mortes, torturas e violações – e fugir destes tópicos seria trair a essência da história. David Fincher, habituado a estas andanças, faz um bom trabalho a conduzir uma narrativa intrincada e a estabelecer um clima soturno de perigo e mistérios que inquieta e fascina na mesma medida. No entanto, Fincher não consegue escapar a um terceiro ato que se estica para lá do ideal (algo que já afligia o original) e que a resolução se dilua num sentimentalismo que não combina com o que viramos antes (e isto não acontecia no filme sueco), mas estou tentado a perdoar-lhe estes percalços apenas pela ótima ideia de usar uma cover da Immigrant Song dos Led Zeppelin no brilhante genérico inicial.
 
E se a narrativa é intrigante, muito deve às suas personagens e ao cuidado com que estas são desenvolvidas: Mikael não é um indivíduo isento de falhas, mas é o seu apego à verdade que guia as suas ações, o que condiz com o seu perfil investigativo. Metódico e altamente racional, ele faz as perguntas certas sem temer as respostas e agarra-se aos factos mesmo quando o caso começa a ameaçar a sua segurança pessoal. Vanger, por outro lado, surge como um idoso vivido que respeita e acarinha os laços familiares e até encara com bom humor as zangas entre os seus, embora deixe transparecer uma certa paranoia e desgaste por uma questão que o consome há décadas, ao passo que Robin Wright, numa participação pequena, demonstre imenso profissionalismo como colaboradora de Mikael na Millennium sem deixar que a saúde financeira da revista a impeça de se preocupar com o colega e amante ocasional.

E eis que chegamos a Rooney Mara e à sua Lisbeth Salander, o centro emocional da história. Com uma existência marcada pela violência, Lisbeth sofreu abusos de todos aqueles que exerciam algum tipo de autoridade sobre ela e não é de admirar que ela adote uma postura defensiva (quase autista, diria) em relação àqueles que a rodeiam – não por acaso, ela traz tantas marcas (tatuagens, piercings) no corpo e se comporte como uma marginal, apenas encontrando conforto nas suas atividades ilícitas e em encontros sexuais fugazes. Em contrapartida, há algo de vulnerável na sua pessoa, como se ela estivesse em constante busca por alguma paz interior que acalme as suas experiências e é na parceria que se desenvolve com Mikael que ela se depara com alguém em quem pode confiar plenamente. No original, a sua impressão positiva sobre Mikael surge aquando a sua investigação privada; aqui, cresce naturalmente à medida que o caso avança. É um papel de total entrega de Mara, com uma transformação física que só encontra paralelo na intensidade com que é levada ao ecrã. Os seus esforços só perdem pelo fator novidade, já que a visceral prestação anterior de Noomi Rapace foi marcante e ainda está fresca na memória.

Mesmo sem abordar a fundo no passado de Lisbeth (uma curta menção e só) que será o estopim dos capítulos seguintes, Os Homens que Odeiam as Mulheres está uns furos acima da película sueca que a precedeu e deixa excelentes indicações de que poderão levar os próximos filmes a outro nível, algo que os originais falharam redondamente. Quando Hollywood pensa e executa com cuidado, só podemos esperar coisas boas.

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publicado às 19:25

 

The Adventures of Tintin (2011)

Realização: Steven Spielberg

Argumento: Steven Mofatt, Edgar Wright, Joe Cornish

Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Simon Pegg, Nick Frost, Daniel Craig
 

Qualidade da banha:

 

Aquando a estreia de Os Salteadores da Arca Perdida, em 1981, houve quem comparasse Indiana Jones a Tintin e com razão, já que as aventuras do arqueólogo emulavam na perfeição o espírito da banda desenhada de Hergé com os seus artefactos místicos, voltas ao Mundo, personagens carismáticas e um sentido de diversão contagiante. Assim, nada mais justo que seja o próprio Spielberg a comandar a produção que leva o jornalista loiro e de poupa inconfundível de volta ao grande ecrã, ainda mais com produção de Peter Jackson (que dispensa apresentações) e argumento de Steven Mofatt (das séries britânicas Sherlock e Doctor Who), Edgar Wright (dos óptimos Shaun of the Dead e Hot Fuzz) e Joe Cornish (do pouco visto, mas elogiadíssimo, Attack the Block). Além disso, demonstrando imenso respeito pela obra original, Spielberg optou por manter a estética de Hergé ao recorrer à técnica do performance capture, já usada em filmes como a trilogia O Senhor dos Anéis, Polar Express, Beowulf eAvatar. Tanto talento junto e o resultado é frustrante. Comparações com Indiana Jones só se for com o lamentávelReino da Caveira de Cristal.

 

Combinando elementos dos álbuns O Caranguejo das Tenazes de Ouro, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackam, o Terrível, As Aventuras de Tintin traz o personagem-título (Bell), sempre acompanhado do fiel Milu, no encalço de um segredo que está relacionado com uma réplica de uma embarcação que ele recentemente adquiriu: o Licorne. O modelo é cobiçado pelo misterioso Sakharine (Craig) que o deseja para descobrir o tesouro de um pirata do século XVII, o que levará Tintin a conhecer o rabugento e ébrio Capitão Haddock (Serkis) e a ter a ajuda dos inseparáveis detectives Dupond e Dupont (Pegg e Frost).

 

Visualmente falando, o filme acerta ao respeitar o traço de Hergé e a situar a acção numa época que remete às décadas de 30 e 40, algo que traz uma aura de nostalgia, visto que esses anos foram férteis em histórias de acção e aventura tanto na Europa como nos Estados Unidos que fervilhavam as mentes de um povo a braços com uma nova guerra mundial. Dos cenários que oscilam entre o realismo e o cartoon às caracterizações das personagens, passando pelas texturas, luzes e sombras, e acabando na manipulação de elementos problemáticos como o fogo e a água, Tintin é tecnicamente irrepreensível - ou quase (e isto é o grande problema do filme), uma vez que a técnica do performance capture revela-se um defeito capaz de sabotar a narrativa. Nota-se um imenso avanço desde Polar Express e Beowulf, mas a técnica ainda tem muito caminho a percorrer no que ao fotorealismo diz respeito: as personagens continuam a demonstrar uma inexpressividade alarmante, com o olhar "morto" como se estivessem cegas e movem-se de forma mecânica e pouco fluida.

 

Isto, obviamente, compromete o envolvimento emocional do público: há algo naquelas acções e naqueles olhares que não bate certo e dificilmente alguém se preocupa com o perigo que um ser digital corre ao envolver-se numa luta ou numa perseguição. Tomem, como exemplo, a cena em que um cartaz anuncia o espectáculo da cantora de ópera Bianca Castafiore: vemo-la de perfil, em pose, igual aos desenhos de Hergé e, logo de seguida, somos apresentados à personagem real que mais se assemelha a um boneco de cera ambulante no qual os movimentos da boca parecem não responder adequadamente aos músculos da cara. Apesar de contar com tecnologia digital de ponta, O Segredo do Licorne falha redondamente onde não podia falhar; tirando alguns momentos do Capitão Haddock e do encantador Milu, o filme não consegue injectar vitalidade naquela gente – e até o pobre Tintin é deixado a debitar pensamentos em voz alta, um recurso que faz sentido na banda desenhada, mas que no cinema só acentua o carácter expositivo de uma arte distinta.

 

Esta falta de vida contagia tudo o resto: Spielberg vê-se obrigado a mexer a câmara de um lado para o outro, talvez para mostrar as potencialidades do novo brinquedo que tem em mãos e a investir em objectos apontados e atirados para a objectiva, sem que isto tenha alguma função narrativa e surja mais como justificação rasteira para o irritante 3D. No entanto, a sequência inicial do carteirista comprova a inventividade do realizador em trabalhar com animação e alguns raccords (passagens de cena) visuais são imaginativos. Noutros casos, Spielberg atira qualquer noção de ritmo e espaço pela janela, como na perseguição pelas ruas de uma cidade marroquina que, composta por um longo plano sem cortes, transforma-o automaticamente no anti-Michael Bay na forma, mas não no conteúdo, já que o caos visual toma conta do ecrã e não se percebe nada do que acontece.

 

Costurando com relativo sucesso partes de três livros diferentes, O Segredo do Licorne é uma obra emocionalmente oca e há alturas em que lembra um videojogo tal é o virtuosismo que os produtores querem imprimir à força toda, algo que só torna a condução da narrativa cada vez mais robótica e amorfa, sendo ainda pontuada por uma das piores partituras que o grande John Williams já compôs. Não há emoção, nem a sensação de que algo ou alguém está em risco, muito menos o arrebatamento de um entretenimento à altura dos escritos de Hergé. Apenas a tecnologia digital ao (des)serviço do cinema e criaturas que são a cara chapada da banda desenhada, sim senhor, mas que não têm um décimo do charme e da alma que os desenhos proporcionam.

 

E isto é algo que os computadores simplesmente não conseguem capturar.

 

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publicado às 01:03

Cowboys & Aliens

por Antero, em 21.08.11

 

Cowboys & Aliens (2011)

Realização: Jon Favreau

Argumento: Damon Lindelof, Alex Kurtzman, Roberto Orci, Mark Fergus, Hawk Ostby

Elenco: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Sam Rockwell, Paul Dano, Clancy Brown, Keith Carradine
 

Qualidade da banha:

 

Cowboys & Aliens é tudo aquilo que o título promete: uma subversão do western típico... com alienígenas! Isto, porém, não o torna mais interessante e se há aspecto que irrita na produção é como a mesma foi capaz de juntar tanta gente talentosa e tornar-se numa obra tão pouco imaginativa. Ora vejamos: Jon Favreau realizou o óptimo Homem de Ferro e é um bom director; Damon Lindelof comandou a maior parte de LOST; Kurtzman e Orci são responsáveis pela fantástica Fringe (embora tenham cometido Transformers); junta-se o James Bond, o Indiana Jones e a Thirteen de House no velho oeste e só poderíamos esperar boa coisa. Bem, nem tanto.

 

Passado em 1873, no Arizona, Cowboys & Aliens começa com Jake Lonergan (Craig) a acordar no meio de nenhures, sem lembranças de seu passado e com uma entranha pulseira agarrada ao seu pulso. Ele acaba por ir parar à desértica e pequena cidade Absolution, onde o medo impera e as pessoas não são acolhedoras. Tudo se complica para quando criaturas vindas do céu passam a atacar a cidade, desafiando tudo o que a população já conheceu. Jake, rejeitado pelos habitantes, é a única esperança de sobrevivência e um grupo é formado para combater a ameaça extraterrestre.

 

Esse grupo, convenhamos, não passa de um bando de clichés ambulantes: há o amnésico que se recorda de tudo aos poucos; o valentão mal-humorado que domina a cidade (Ford); o medricas que parte em busca da esposa e abomina a violência (Rockwell); a mulher misteriosa que nem parece fazer parte daquele contexto (Wilde), o indígena que, empregado do valentão, é ostracizado por este; o médico/pregador que tenta ajudar toda a gente; o xerife bem intencionado; e o miúdo que deve ser protegido das ameaças que enfrentam. Depois há os índios mal encarados e pouco dispostos a colaborar com o "homem branco" e gangues de saqueadores que vêm nos aliens uma nova forma de lucrar. Não que haja algum problema em trabalhar com estereótipos; é preciso que estes sejam bem trabalhados, o que prejudica não só as personagens (cuja profundidade é nula), mas também a própria história que, em pouco tempo, torna-se um exercício de paciência tamanha a sua previsibilidade.

 

No entanto, isto seria até expectável num filme com cowboys... e aliens! O grande trunfo do argumento (baseado numa banda desenhada pouco conhecida) é mesmo a variação sobre o tema "cowboys versus índios" ou "cowboys versus gangues", embora estes apareçam lá para o meio sem nada que os distinga de outras obras do género. O que interessa realmente aqui são os extraterrestres e é neles que o filme aposta todas as fichas – apenas para perder a jogada. Com um design confuso e sem personalidade, os alienígenas decepcionam a nível visual e narrativo, já que nunca chegam a ser aquele perigo todo que as primeiras aparições sugeriam e Cowboys & Aliens funciona melhor antes de os mostrar em todo o seu (pouco) esplendor. Além disso, as suas motivações desapontam por serem mal exploradas, apesar de estarem devidamente enquadradas com a época e o estilo cinematográfico em questão.

 

Por outro lado, é sempre um prazer ver Harrison Ford em cena (ainda que no piloto automático) a brincar com o seu cinismo crónico e constatar a segurança que Daniel Craig imprime a Jake, além de admirar a beleza estonteante de Olivia Wilde, não obstante o anacronismo da sua "donzela". O que já não é nada mau num filme em que a dinâmica daqueles indivíduos é desenvolvida de maneira formulaica e cujas sequências de acção são pura fanfarra visual e auditiva. Tendo em conta os envolvidos, esperava-se mais do que um simples e derivativo passatempo ligeiro.

 

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publicado às 23:35

O efeito Bourne

por Antero, em 07.11.08

 

Que 007 - Quantum of Solace poderia ser inferior que 007 - Casino Royale já seria de esperar. Afinal, o segundo caracterizou-se por fazer um recomeço na série, aproximando o agente às suas origens e o filme a outra série de espionagem que fez bastante sucesso nos últimos anos: a do agente Jason Bourne. Porém, o que eu não esperava era que o novo 007 empalidece tanto em comparação com o seu antecessor, uma vez que em nenhuma altura atinje o seu brilhantismo, apesar de manter quase toda a equipa principal (os realizadores mudaram). O filme mais parece a segunda parte de uma trilogia preocupada em encher chouriços e estabelecer uma ponte entre o primeiro e o terceiro filme, embora os responsáveis digam por aí em entrevistas que a história iniciada em Casino Royale terminou por aqui.

Sem fazer nenhuma recapitulação (por isso é melhor irem com Casino Royale bem fresco na mente), Quantum of Solace começa no exacto ponto que o anterior acabou: traído pela amada Vesper, Bond está em Itália no encalço da organização oculta que o quis eliminar e acaba por descobrir que essa organização é muito mais complexa e perigosa que o MI-6 previa. De forma a acabar com ela, Bond encontra um membro influente da mesma, Dominic Greene, que pretende originar um golpe de estado na Bolívia e contará com a ajuda de Camille que também tem contas a ajustar com o vilão. Primeira impressão: Camille está longe, muito longe, de Vesper como Bond Girl, seja na interpretação da actriz seja na personagem (esta última até é desculpável: dificilmente se igualaria o peso dramático de Vesper em Bond). Segunda impressão: a história é mais do mesmo, só que aqui foi embalada numa jornada de vingança já vista anteriormente em 007 - Licença Para Matar (só que neste, a amizade por Felix Leiter era o mote da mesma).

 

Sendo o mais curto de todos os filmes da série lançados no cinema até agora, Quantum of Solace peca num quesito que o anterior se revelou exímio: o desenvolvimento das personagens. Não há uma única pausa em que isso acontece e poucas vezes temos direito aos maravilhosos diálogos que caracterizaram e destacaram o anterior. Basicamente, o filme tem acção do início ao fim e alguma dela é de cair o queixo, como a perseguição de carros que abre o filme e a perseguição a pé também no início. Só que, a partir da metade, as cenas de acção (parece haver uma a cada 5 minutos) soam desconexas e evidenciam a história por vezes confusa do filme (o clímax ocorre num hotel... no meio do deserto?). É como se as pausas do filme estivessem lá para o espectador respirar antes de embarcar em mais um banho de sangue promovido pelo agente. E isto é decepcionante tendo em conta o equilíbrio sólido alcançado em Casino Royale: as cenas de acção pura e dura eram poucas, mas deixavam uma marca forte num filme que apostava imenso nas personagens (o objectivo principal era apresentar o Bond de Daniel Craig às plateias).

 

Falando em Daniel Craig, e usando uma frase que toda a gente diz sobre o filme, ele carrega-o às costas. Oscilando entre a frieza de um agente no cumprimento do dever e a cólera em obter vingança, Craig assenta como uma luva no papel e mostra um Bond mais mundano, mais astuto, que transpira e sangra quando luta e que está longe da subtileza e da finura de Bond's anteriores. Aqueles que não o queriam no papel devem estar a morder a língua. O vilão Dominic Greene não chega aos pés da galeria que a série já ofereceu e já se sabe que, nestes filmes, um bom vilão eleva sempre a qualidade da obra. Quantum of Solace ainda consegue arranjar referências à própria série que vão deixar os fãs loucos, como a morte de determinada personagem (que remete para 007 - Goldfinger) ou a promoção de Felix Leiter a um cargo na CIA, embora Moneypenny e Q (ainda) não dêem as caras.

 

Marc Forster, uma escolha inusitada para a realização, aproxima o seu trabalho do ideal da saga Bourne: cenas de acção realistas (ou, vá lá, menos absurdas), câmara trepidante e montagem frenética, embora as comparações com essa saga parem por aí. É que Casino Royale também já havia feito isso, mas tinha um argumento de peso atrás de si tal como os filmes de Jason Bourne. Este não e as comparações são inevitáveis. Quantum of Solace seria melhor se não estivesse na sombra do seu antecessor. O efeito Bourne saiu ao contrário.

 

Qualidade da banha: 12/20

 

Off-topic: no outro dia acrescentei dois novos links ao blog, mas, por lapso da minha parte, não adicionei o blog/site/tudo-e-mais-alguma-coisa do meu ex-colega de faculdade Bruno Abrantes. Um erro imperdoável que já foi reparado.

 

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publicado às 20:45


Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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