Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A Saga Twilight: Amanhecer - Parte 1

por Antero, em 17.11.11

 

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1 (2011)

Realização: Bill Condon

Argumento: Melissa Rosenberg

Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Billy Burke, Peter Facinelli, Nikki Reed, Elizabeth Reaser
 

Qualidade da banha:

 

Eu tentei, juro que tentei. Enchi-me de boa vontade e dirigi-me ao cinema para ver o novo Twilight. Estava disposto a esquecer que o primeiro filme não tem grande história, que nosegundonão acontece nada de especial e que oterceiroé uma repetição do anterior. Queria deixar para trás o insosso triângulo amoroso formado por Edward-Bella-Jacob, a impressão que as interpretações são da escola Madame Tussuad, as imbecilidades da narrativa criada por Stephenie Meyer e a falta de tensão dos capítulos anteriores. Afinal, Bella (Stewart) e Edward (Pattinson) casam-se, vão de lua-de-mel e voltam com um rebento por nascer que, gerado por uma humana e um vampiro, ameaça não só o mundo destas criaturas, mas também a trégua firmada com os lobisomens. Eu esforcei-me, a sério, mas Amanhecer - Parte 1 voltou a confirmar-me o porquê de Twilight, a saga onde pouco acontece, ser um poço de mediocridade.


Dividido em dois tomos sem razão aparente que não aquela de incrementar o lucro (uma decisão que funcionou nos últimosHarry Potter), Amanhecer - Parte 1 é o tipo de disparate que demora duas horas a contar uma história simplória que facilmente era arrumada num terço do tempo. O filme comete os erros de sempre: Bella, a nossa heroína, anda sempre nervosa e com ar depressiva, como se estivesse prestes a ter uma quebra de tensão, e isto no dia do próprio casamento! Sempre desconfortável ao lado de Edward, o amor da sua vida, Bella é interpretada por Kristen Stewart com a já costumeira falta de alegria e de vida que faria Vítor Gaspar soar como João Baião. Não que eu a censure: o agora marido pode ser bastante carinhoso (ainda que pouco articulado para alguém que já viveu mais de um século), mas logo dá sinais da sua habitual agressividade e machismo, chegando a ser desagradável com a moça e entrando numa espécie de transe quando a gravidez começa a correr mal (aquele pequeno problema mensal que levantei no texto sobreLua Novaestá resolvido).

 

É aí que entra o terceiro vértice do triângulo: Jacob (Lautner), praticamente irreconhecível com a t-shirt vestida na maior parte do tempo. Possessivo e obcecado ao extremo (o protótipo do amor incondicional, segundo as jovens fãs), ele passa o filme com o seu olhar de adolescente birrento que até tem direito a uma cena na qual desfaz-se do convite de casamento e, à chuva, foge sem destino... e sem t-shirt (isto com um minuto de filme). Sim, a forma física do rapaz é invejável, mas eu preferia admirar a sua forma artística e que ele debitasse os diálogos com o mínimo de convicção. No entanto, isto seria pedir muito, já que os diálogos são profundamente risíveis e tragicamente pastosos e creio que nem Peter O'Toole conseguiria imprimir o mínimo de elegância à narração que acompanha a ridícula cena em que Jacob confronta o bebé recém-nascido e... não, não vou revelar o que acontece. Basta referir que a mesma, em toda a sua grandiosa lamechice, quase vale o preço do bilhete.

Deixando de lado a metáfora da abstinência sexual, Amanhecer - Parte 1 leva uma eternidade a preparar a noite de núpcias do casal e, quando o momento chega, temos direito a menos que nada e logo Edward recusa os avanços de uma Bella acabada de descobrir a sua própria sexualidade. A conclusão deprimente é que a saga promove a necessidade "imperativa" de se praticar a abstinência (sexo é perigoso!) e, mais tarde, torna-se descaradamente antiaborto, numa continuação temática da punição pela quebra da castidade, apesar das personagens terem feito tudo após o casamento, como mandam os "desígnios", e esperarem três filmes (e ele 100 anos) pelo momento. O que esperar, porém, de uma narrativa que atraiçoa as suas personagens quando os vampiros já nem brilham à luz do Sol, desrespeitando uma das (estúpidas) regras estabelecidas anteriormente?

 

Inexplicavelmente atraído para este projeto, Bill Condon (dos ótimos Deuses e Monstros e Relatório Kinsey) vê-se obrigado a trabalhar com uma classificação etária que limita uma abordagem mais adulta e gráfica, como a história exigia. Além disso, o seu despreparo com efeitos visuais é notório: os lobisomens são impecáveis quando estáticos; quando se movem soa tudo falso, pouco fluido e as lutas são de difícil compreensão devido a uma montagem sem nexo que sabota até a sequência do parto, cuja tensão é inexistente. Pior é perceber que ele não soube aproveitar as (poucas) boas ideias presentes no texto como o cerco infligido à família Cullen e a míngua a que foram sujeitos pela falta de sangue ou facto de uma integrante do clã de Jacob estar insatisfeita com a pessoa que lhe foi "destinada". Até o Rio de Janeiro é desaproveitado aqui, com uma daquelas panorâmicas que devem ter sido emprestadas pelo arquivo da Rede Globo e a banda sonora, tanto a incidental como a selecionada, tira qualquer um do sério pela sua constante intrusão e obviedade (não há um momento sem música no filme!).

 

Absurdamente superficial e entediante para uma história de contornos mais sombrios, Amanhecer - Parte 1 espera que comecemos a nos preocupar com a chata da Bella, o bronco do Edward e o louco do Jacob quando três filmes falharam completamente nessa tarefa. O único indivíduo de quem realmente nutro pena é o sensato pai de Bella e não pela sua dor pela ausência da filha, mas sim pela constatação que ele criou e sofre por uma rapariga tão frágil e insignificante.

 

Nem tudo é mau: falta um. Por outro lado, ainda falta um.

 

PS: há uma cena importante durante os créditos finais.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:02


Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Últimos vendidos


Armazém

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D