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Ó tempo, volta para trás...

por Antero, em 01.06.10

 

É incrível, mas é verdade: entre as dezenas de adaptações de videojogos levadas às salas nos últimos 20 anos não há uma minimamente decente. Já não peço uma obra-prima, mas um filme razoável. Nem isso. Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo é a nova investida no género e mais uma página virada sem glória. Percebem-se as intenções: tentar repetir a fórmula que fez a fama de Piratas das Caraíbas (não por acaso uma adaptação de uma atracção de um parque de diversões), chamou-se o prolífero Jerry Bruckheimer que, para cada boa obra que entrega, comete uma mão cheia de atentados e recrutou-se Mike Newell, cuja última incursão nas grandes produções foi com Harry Potter e o Cálice de Fogo, o melhor capítulo da série cinematográfica. Porém, todos os valores à disposição do filme de pouco ou nada serviram. Ainda não foi desta que um videojogo deu direito a um bom filme.

 

Iniciando-se com uma pomposa narração sobre o Destino, Príncipe da Pérsia conta a história do mendigo Dastan que é adoptado por um rei Sharaman admirado pela bravura e carácter que o jovem demonstrou. Anos depois, o exército persa liderado pelos filhos do rei, Tus e Garsiv, e pelo seu irmão, Nizam, prepara-se para invadir a cidade sagrada de Alamut. Desejoso de provar o seu valor na batalha, Dastan auxilia a invasão e conhece a princesa Tamina, cuja função é guardar a Adaga do Tempo que permite ao seu portador recuar no tempo e subjugar o passado conforme as suas pretensões. Nisto, o rei Sharaman é assassinado e Dastan é dado como culpado, o que o levará a fugir com Tamina e tentar provar a sua inocência, bem como proteger as místicas Areias do Tempo.

 

Filmado com absoluta preguiça por Newell, Príncipe da Pérsia é todo ele um videojogo dos pés à cabeça e menos um filme: depois de ultrapassado um obstáculo passa-se para o nível seguinte (foge dos guardas, recupera a Adaga, salva a donzela, recupera a Adaga, foge dos mercenários, salva a donzela, enfrenta o vilão, recupera a Adaga que teima em perder-se, salva a donzela que não pára quieta…) ; as informações são disparadas à medida que o tempo passa (somos informados de um sacrifício que Tamina terá que se sujeitar, mas depois não há seguimento quanto a isto); a Pérsia vista aqui abrange vales com construções monstruosas, desertos com dunas majestosas e até uma montanha onde neva bastante, e não deixa de ser cómico que para um Império que vai da China ao Mediterrâneo, todos estes lugares estejam a poucos dias de distância. Além disso, Newell não consegue explorar os elementos presentes no jogo como as panorâmicas de cada cenário que aqui soam pirosas ou o constante recurso a planos em slow-motion sem nenhum propósito narrativo, ao mesmo tempo que o seu trabalho é sabotado pela fraca direcção de arte, cujas coreografias das lutas revelam que tudo aquilo não passa de um cenário, e os efeitos não tão especiais que abundam pela projecção.

 

Por falar em sabotagem, crime maior é cometido pelo elenco. Ben Kingsley telegrafa para o espectador mal aparece todas as suas intenções; Jake Gyllenhaal é bom actor, sem dúvida, mas não tem o perfil de herói de acção nem consegue segurar uma grande produção, ao passo que Gemma Arterton é bela, mas é zero em presença e em química com o seu par romântico. Para piorar, as alfinetadas que ambos trocam são irritantes, mas nada se compara à chatice que é a insistência de Newell em apostar nas cenas que o casal está para se beijar e são interrompidos no último momento. Assim, o único que se destaca é Alfred Molina como o “empresário” Sheik Amar que, com a sua leveza e críticas à aristocracia, diverte-se a valer e rende as (poucas) gargalhadas do filme.

 

No mais, o filme conta com uma montagem caótica que mal dá oportunidade de perceber a geografia e o intervenientes das sequências de acção (mas nada que chegue ao extremo mau gosto de Michael Bay, o que já é um alívio), enquanto assassina a fluidez da narrativa ao fazer cortes incompreensíveis no meio das cenas - como no instante em que uma tempestade de areia colossal surge do nada para atacar Alamut, num plano que dura poucos segundos e que, bem explorado, podia carregar na espectacularidade que o filme tanto carece. Sim, porque apesar de nos berrar "Épico! Épico!" aos ouvidos, Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo é seco e calmo como um deserto sem ponta de vento.

 

Qualidade da banha: 7/20

 

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publicado às 23:05



Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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