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Cisne Negro

por Antero, em 03.02.11

 

Black Swan (2010)

Realização: Darren Aronofsky

Argumento: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder

 

Qualidade da banha:

 

NOTA: este texto discute detalhes importantes sobre o filme (entre eles, o final), por isso aconselho a sua leitura após a visualização do mesmo. É por vossa conta e risco! Depois não digam que eu não avisei...

 

Cisne Negro é um exercício exaustivo e complexo sobre a perfeição. Um estudo sobre a Obra e o Artista que, comprometido de corpo e alma com a sua Arte, tenta ultrapassar todos os limites e abraçar a visceralidade inerente a cada obra-prima. É esta a jornada emocional que espera Nina Sayers (Portman), uma bailarina que tem a oportunidade de uma vida ao ser escolhida para protagonizar O Lago dos Cisnes na companhia dirigida pelo exigente Thomas Leroy (Cassel). No entanto, a ambiguidade do papel revela-se um enorme obstáculo, uma vez que Nina tem dificuldade em incorporar a sensualidade necessária de Odile, o Cisne Negro da peça que se mascara de Odete, o Cisne Branco que, puro e casto, não revela qualquer problema para a bailarina. Atormentada pela pressão do papel, Nina ainda deve lidar com a chegada Lily, uma nova integrante do grupo que poderá ser uma concorrente no protagonismo do bailado.

 

Extremamente dedicada à dança, Nina investe todos os momentos do seu dia-a-dia num cansativo aprimoramento da sua dança, o que não é de admirar: frágil e insegura, a rapariga partilha a casa com a sua protectora mãe que, ex-bailarina, serve como guia orgulhosa dos feitos da filha ao mesmo tempo que denota uma certa frustração por ter abandonado a carreira em prol da família. Desta forma, é natural que Nina encare a dança como o único escape para o sufoco que a mãe lhe inflige e Portman é inteligente ao retratar Nina não como uma pessoa determinada, mas como alguém que realmente precisa de ser protegida de tudo e de todos, já que nem mesmo os comentários maldosos das suas colegas merecem uma resposta firme por parte dela. Nina tem a graciosidade que Thomas suplica para o papel, mas falha na aura mais sensual que Odile deve transmitir por não conseguir libertar toda a sexualidade reprimida em si – e quando este fogo faz uma rachadela na tômbola que o aprisiona (ou seja, quando Nina se masturba) logo é apagado pela presença da mãe, espelhando o recalcamento a que ela está sujeita.

 

Por falar em espelhos, poucas vezes se viu um uso tão eficaz e orgânico de todos os simbolismos que eles permitem. Através de reflexos, Aronofsky envolve-nos na consciência de Nina e acompanhamos cada uma das etapas do seu descalabro emocional e psicológico, deixando-nos sempre na dúvida (tal como a protagonista) sobre as estranhas visões que tomam conta da narrativa. Esta dualidade é algo que percorre por toda a película e através de variadas manifestações: se a mãe representa o lado adulto e sedutor que a infantilizada Nina tarda em descobrir, a recém-chegada Lily é encarada ora como rival (as asas tatuadas nas suas costas são um pormenor brilhante) ora como amiga, já que a sua espontaneidade leva não só o autoritário Thomas a pensar nela como substituta, mas também exerce um poderoso fascínio em Nina, cujos esforços e racionalização para atingir a precisão absoluta contrastam com a naturalidade e diversão dos movimentos da parceira (isto até chegarmos ao acto final de Cisne Negro, que será abordado no último parágrafo).

 

Belíssima homenagem ao bailado (tal comoO Wrestlerera para o wrestling), Cisne Negro inclui detalhes sobre o árduo quotidiano dos bailarinos profissionais, como o ranger dos soalhos, a constante repetição de coreografias até chegar ao pretendido, e as mazelas e desgaste das articulações sofridos pelos praticantes – e até mesmo o design de produção acerta ao vestir Lily com roupas escuras e Nina com adereços claros, assim como pinta o quarto desta em tons de rosa e atulhado de peluches, numa demonstração da natureza pura e infantil da bailarina. Com um uso constante de sombras que realçam o sentimento de opressão na história, o filme também conta com um trunfo na banda sonora, que usa partes da partitura de Tchaikovsky para complementar as cenas fora da companhia, deixando bem vincado que a devoção à dança é algo que acompanha Nina a toda a hora.

 

No entanto, é Darren Aronofsky e Natalie Portman que exploram a proposta do filme a fundo e tornam-no numa experiência tão marcante: o realizador planta pequenas pistas que indicam o crescente desiquilibrio de Nina, seja em visões dela própria ou em reflexos que se movem instantes depois dela e Aronofky não perde a oportunidade de dar vazão às suas fantasias quando sugere uma metamorfose literal de Nina num cisne negro. Aos poucos, Nina vai-se distanciando da moça fragilizada do início da projecção e descobre uma faceta sua que desconhecia: a sua sexualidade e, ao querer incorporar duas dimensões do mesmo ser, ela resvala para a esquizofrenia e a transformação acontece a todos os níveis (físico, psicológico e emocional). Se antes Nina dançava com distanciamento e frieza, no final aceita toda a magnitude do seu ser e atinge a tão almejada perfeição (e Portman é estupenda ao transpirar a sensualidade e confiança que antes lhe faltava). Porém, isto não surge sem um preço: em mais uma projecção literal da mente quebrada de Nina, as duas personalidades entram em conflito e, para que a excelência seja uma realidade, haveria um obstáculo a abater nem mais nem menos que a própria Nina, ferida de morte com um golpe de um estilhaço de um espelho partido (como ela mesma).

 

São estes simbolismos que tornam Cisne Negro uma experiência transcendente, intensa e evocativa, com a frase de encerramento a resumir não só o feito de Nina, mas o filme como um todo: "Eu senti-o. Foi perfeito."


publicado às 23:20

Fringe: causa e efeito

por Antero, em 02.02.11

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

Fringe 3x10: The Firefly e 3x11: Reciprocity

Não deixa de ser irónico que o décimo episódio desta primorosa temporada de Fringe partilhe o título com outra série dedicada ao fantástico e extremamente injustiçada pela estação Fox nas grelhas de Sextas: Firefly, de Joss Whedon. Até por que Fringe terá que sobreviver na implacável guerra das audiências e o referido horário é conhecido por enterrar programas atrás de programas, muitos deles já sem voto de confiança dos seus produtores. No caso, Fringe tem conseguido números animadores, mas a tão esperada renovação está longe de ser um dado adquirido, pelo que o desespero e a incerteza ainda durarão várias semanas.

 

Deixando de lado as questões mais comerciais e passando aos episódios em si, o regresso de Fringe trouxe dois óptimos episódios e que contribuem para cimentar a qualidade da actual temporada. No primeiro, percebemos mais um pouco sobre o funcionamento dos Observadores, aqueles seres encarregues de vigiar o Tempo e as variadas dimensões a ele associados, através do conceito conhecido como Efeito Borboleta (que, apesar de permear todo o episódio, nunca é referido pelo seu nome). Assim, quando Walter raptou Peter do "outro lado" (a partir de agora, Lado B) desencadeou uma série de eventos que levaram à morte de outra criança, filha de um rockeiro interpretado por nem mais nem menos que Christopher 'Doc Brown' Lloyd. Isto levará a uma prova de fogo do próprio Walter que, ao admitir os erros que cometeu, revela que deverá preparar-se para a eventualidade de abandonar Peter – e a sensibilidade com que John Noble expressa este pesar é um dos grandes momentos do episódio.

 

Entretanto, Olivia e Peter tentam superar o abalo provocado pela "outra" Olivia (a partir de agora, Altivia) na relação dos dois, o que deixa-a um pouco de parte nos dois capítulos, mais centrados na dinâmica familiar entre Walter e Peter e a tal Máquina do Apocalipse que deverá ser conduzida por este último. Encontradas todas as partes e construída pela Massive Dynamic, a Máquina reage à presença dele e este passa por uma mudança radical. Sombrio e distante, ele desata a matar transmorfos com as informações registadas por Altivia antes de regressar ao Lado B, com a intenção de impedir que a passividade da situação tome conta de si. Só Walter não se deixou enganar pela mudança e logo percebeu que Peter pode ser a arma que Walternate necessita para pôr fim à guerra. Se Olivia foi o foco da primeira metade da temporada, Peter será o destaque na segunda, já que a sua condição de "filho de dois mundos" (biológica e socialmente) deverá ser o catalisador para todos os acontecimentos de agora em diante.

 

publicado às 00:50

Filme do Desassossego

por Antero, em 01.02.11

 

Filme do Desassossego (2010)

Realização: João Botelho

Argumento: João Botelho

Elenco: Cláudio Silva, Pedro Lamares, Alexandra Lencastre, Ana Moreira, André Gomes, António Pedro Cerdeira, Carlos Costa, Catarina Wallenstein, Dinis Gomes, Filipe Vargas, José Eduardo, Luísa Cruz, Manuel João Vieira, Marcelo Urgeghe, Maragarida Vila-Nova, Miguel Guilherme, Miguel Moreira, Mónica Calle, Paulo Filipe, Ricardo Aibéo, Rita Blanco, Rui Morrison, Sofia Leite, Suzana Borges

 

Qualidade da banha:

 

Na passada Quinta-feira, esteve em exibição no Centro Multimeios de Espinho a obra baseada nos escritos de Bernardo Soares (um dos heterónimos de Fernando Pessoa), ‘Livro do Desassossego’, levada a cabo por João Botelho. Considerado “infilmável” devido à sua estrutura fragmentária e carácter analítico sobre a condição humana, a própria literatura e a sociedade como condicionadora da reflexão crítica, o ‘Livro’ ganha vida no ‘Filme’ graças à brilhante composição de planos de Botelho, que usa e abusa do ponto de fuga e do lado mais forte do ecrã (o terço mais à direita) para criar cenas de grande impacto e exuberância, como naquela em que as colinas de Lisboa se sobrepõem umas às outras (como se a cidade se engolisse a si mesma, numa clara sugestão da influência do Meio sobre o Homem) ou para ilustrar a solidão de Soares.

 

Se a nível plástico ‘Filme do Desassossego’ se revela intenso, a nível “narrativo” – assim mesmo, entre aspas – Botelho não consegue evitar a armadilha de estar a trabalhar com um texto sem fio condutor e sem um epicentro dramático. Lido, os registos de Soares permitem uma reflexão e absorção do que é transmitido; no Cinema, soa tudo a verborreia despejada sobre nós – e quando paramos para analisar a profundidade do que é dito, já estamos noutra sequência e com outro discurso, o que também peca por tornar a “história” episódica (embora isto fosse esperado). Um pouco mais longo que o ideal, ‘Filme do Desassossego’ conta com uma óptima interpretação de Cláudio Silva, cuja concentração absoluta permite-nos mergulhar na mente de Soares e nas suas deambulações por uma Lisboa que evoca a capital do início do século XX ao mesmo tempo que inclui objectos contemporâneos, num retrato da atemporalidade da obra.

 

Ainda que mereça uma reprimenda por sucumbir a lugares-comuns como o de enquadrar Soares junto ao Tejo, sozinho, enquanto a ondulação esbate na costa ou pela ópera no bosque que, apesar de bela, surge insólita e deslocada, Botelho merece todos os aplausos só pela introdução, onde Pessoa e Soares encontram-se nos extremos do cenário (e, consequentemente, do plano), para depois partilharem o centro do mesmo (a amálgama do Criador e da Obra), terminando com Soares a trocar de lugar com Pessoa na direita do quadro, assumindo o protagonismo da acção. Uma verdadeira aula sobre como criar planos e sequências de tirar o fôlego, ‘Filme do Desassossego’ falha em celebrar o génio criativo de Pessoa, já que a sua essência não encontra reflexo na arte cinematográfica, sendo ainda ofuscada pelo talento do seu realizador. Duvido que esta fosse a intenção de Botelho.

 

Nota: este texto é a versão integral da publicada na coluna de cinema da edição de 01 de Fevereiro de 2011 do jornalMaré Viva, a qual, por razões de espaço, teve de ser encurtada.

 

publicado às 00:05

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Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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