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Lost: 10 anos

por Antero, em 22.09.14

 

Há dez anos um avião desaparecia no Pacífico Sul e dava início ao maior fenómeno televisivo deste jovem século. Misto de drama profundo com aventura, história de sobrevivência, ficção científica, filosofia e muitos (muitos!) mistérios, Lost capturou a imaginação do público com a história dos sobreviventes do fatídico Oceanic 815 e daqueles que se cruzaram nos seus caminhos. Durou 6 excelentes temporadas (sim todas, sem exceção!) e marcou um virar de página na forma como se produz e se vende em Televisão.

 

Surgida numa fase de grande experimentalismo e de proliferação de diferentes propostas e abordagens na Televisão norte-americana (em que as emissoras abertas começaram a ter de correr atrás dos canais do cabo), Lost ousou em desafiar aquilo que era regra nas narrativas serializadas: assistir ao piloto após tantos anos e com outros olhos é ver cada uma dessas leis atiradas janelas fora. Não há exposição para situar eventos e personalidades: sabemos exatamente aquilo que as personagens sabem, como se nós próprios também tivéssemos caído naquela Ilha - e, com isso, a tensão aumenta ao estabelecer-se desde logo uma atmosfera de urgência e perigo. A maneira como os flashbacks são introduzidos e incorporados organicamente na narrativa é genial: da Ilha saltamos para os últimos minutos do voo e experimentamos o pânico e a confusão da queda do avião. Mais à frente, descobrimos que Charlie é um viciado em heroína e que Kate encontrava-se algemada. Como chegaram àquele ponto? O que fez Kate para ser procurada pelas autoridades? É inocente? Cometeu um crime? Qual? Como? Porquê? E por aí fora à medida que a teia de enigmas se vai adensando e em que uma resposta longamente ansiada pode despoletar outra mão cheia de questões.

 

Nem só de flashbacks vivia Lost. Entre o núcleo de sobreviventes da cauda do avião, os flashforwards, as viagens no tempo, realidades paralelas, mais o misticismo, esoterismo, pseudo-ciência, teologia, etc., a série encontrava sempre novas e interessantes formas de contar a sua história, mantendo o espectador às escuras em relação ao que iria acontecer e como iria acontecer. Nada disto, porém, serviria de muito caso os dramas daspersonagens não fossem envolventes e esse era o ponto onde a produção mais se esmerava: se Lost se tornou tão memorável deve-se em grande parte à sua fascinante e multifacetada galeria de personagens que tivemos a oportunidade maravilhosa de os ver crescer diante dos nossos olhos. E os mistérios? O Monstro. O urso polar. A francesa louca. Os Outros. A Iniciativa DHARMA. O eletromagnetismo. 4 8 15 16 23 42. A Ilha desaparecer. Os saltos temporais. Jacob. Aquele desfecho.

 

No entanto, isto é somente a ponta do icebergue na experiência que foi acompanhar Lost ao longo dos anos e o seu sucesso deve-se a um timing perfeito com a popularização dos downloads de séries aquando a sua exibição original. A ABC, atenta ao hype que se foi gerando, nunca interferiu nesta questão e procurava formas de manter o interesse sem alienar a audiência mundial. Daí que a janela de exibição entre os EUA e o resto do Mundo tenha diminuído cada vez mais. Cabia na cabeça de alguém que, há meros dez ou cinco anos, pudessemos ver o final de uma série em simultâneo com os norte-americanos ou assistir ao mais recente episódio de Game of Thrones um dia após a exibição original? O paradigma mudou com os downloads e com Lost no topo das preferências da "pirataria online".

 

Revisitar Lost é também reavaliar-me. É ler textos antigos aqui do estaminé e ver outra pessoa, outra escrita (por vezes, terrível e de corar) e outra energia. De alguém que descobrira que a Televisão podia ser mais do que os CSIs da vida e pílulas de boa disposição em formato de 30 minutos. De uma excitação digna de uma criança na véspera de Natal - todas as semanas. De ler artigos por essa Internet fora (e quantos blogues e sites não surgiram graças à série?) e formular mil e uma teorias. De desesperar meses a fio entre temporadas.

Há muitas e boas séries ainda no ar, mas Lost era única. O prazer de ver a série começava quando o episódio acabava. Breaking Bad ensaiou algo parecido na reta final quando o Mundo abriu os olhos para o seu valor, mas foi algo ainda longe do fenómeno de culto que foi a primeira. Nenhuma série me desperta o mesmo grau de fascínio e viciação. Game of Thrones parei no final da terceira temporada e nunca mais retomei, The Walking Dead estanquei na primeira, desisti de Homeland, House of Cards vi dois episódios e "nhé",vi uns três capítulos de Hannibal e não me cativou. Podia pegar em True Detective, Sons of Anarchy, Fargo ou Masters of Sex, mas a verdade é que nunca vi essas séries nem as mesmas me puxam muito. Ainda tive Fringe (gostei muito, mas...), House (errrr...) e Dexter (cruzes, credo!). Claro que ainda tenho Sherlock (quando temos direito) e a cada vez mais incrível The Good Wife (que eu amo), mas Lost era... Lost!

O certo é que, gostando do final ou não, dos caminhos fantasiosos pelos quais se meteu e um ou outro engonhar da história, Lost merece ser recordada e celebrada como um dos mais originais, criativos, bizarros e admiráveis esforços que a Televisão já ofereceu. Que muitas outras tentem até hoje replicar o seu efeito é só mais um atestado de toda a sua qualidade.

 

Tenho saudades daquela maldita Ilha.

 

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publicado às 23:52

Rapidinhas #5

por Antero, em 25.08.10

Já não escrevia um destes há muito tempo...

  • O SC Braga está na Liga dos Campeões, após eliminar Celtic e Sevilha, dando continuidade à excelente época anterior(a nível interno). Uma bofetada de luva branca o sucesso deste Braga: com uma equipa de tostões, Domingos tirou leite de pedra nestes últimos meses, alcançando mais do que FC Porto e Sporting e melhor que o Benfica (pelo menos actualmente e a nível de futebol jogado agora). Não que eu simpatize com o treinador ou com o clube, mas espera-se que isto não seja apenas bom "timing" (daquele que sofreu o Boavista) e que seja para ficar. Falar em 4º grande ainda é prematuro.
  • No último mês, deu-me para rever as três primeiras temporadas de LOST. Devorei-as como se as tivesse a descobrir pela primeira vez. O facto de saber tudo o que acontece de seguida não tirou nem um décimo do gozo à experiência: pormenores num diálogo ou numa acção ganham outros contornos (como as aparições da Ilha); respostas que são dadas muito vagamente numa frase ou duas; rever momentos marcantes (o episódio da morte de Boone e do nascimento de Aaron é sensacional); e, claro, perceber como as personagens eram no início e como se desenvolveram com o passar do tempo. Dizem que as grandes obras só atingem esse posto após uma revisão e, neste caso, resta-me dizer que a série passa com louvor. Urge descobrir para quem (ainda) vive num mundo à parte. Pelo menos a primeira temporada, vá.
  • Vi o Salt, com a Angelina Jolie, e achei um filme de acção competente, mas nada mais do que isso. Não me pareceu merecedor de uma crítica extensa aqui na banca.
  • Carlos Queiroz foi suspenso pela Federação, mas já leva com outro processo em cima. Se é para meter a malta do departamento jurídico a vergar a mola, mais vale contratar o Domenech. Só ele para limpar a má imagem de Queiroz.
  • Isto tem estado parado. Agosto é pasmaceira e o estaminé também precisa de descanso (na verdade isto é uma desculpa muito foleira; a vontade para escrever é que tem sido pouca. Para isto voltar a ter o movimento de outrora, só com a estreia do novo filme do Twilight.). Porém, isto não vai acabar como aconteceu com tantos blogs aqui do lado que parecem ter ido ao charco. Não posso é estar sempre a fazer textos com "a praia estava óptima... hoje não fiz nada... ainda continuo desempregado... isto está mau... a praia estava óptima...".

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publicado às 18:44

LOST: enfim... o fim!

por Antero, em 24.05.10

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

LOST 6x17 e 6x18: The End

Um final poético, poderoso e, acima de tudo, corajoso. Vai desagradar imensa gente, principalmente aqueles que estão à espera de respostas. Eu fiquei plenamente satisfeito. Não houve respostas, mas houve emoções a rodo. Chorei litros. Foi perfeito.

 

A esta altura nunca pensei que a série pudesse voltar a surpreender. Pensava eu que o último episódio seria dedicado ao desenrolar da guerra entre o recém-nomeado guardião da lha, Jack, e o Falso Locke ao mesmo tempo que acompanharíamos uma espécie de fusão entre ambas as realidades. A primeira parte foi cumprida: Jack e Locke decidem tirar a prova dos nove e comprovar qual dos dois teria razão e auxiliam Desmond na caverna da luz - onde o conceito darolhafoi levado à letra. Desmond pensaria que estaria, de certa forma, a activar a realidade paralela, mas o máximo que conseguiu foi despoletar um evento que levaria ao afundamento da Ilha. No entanto, esgotada a fonte, esgota-se também a imortalidade do Homem de Negro e este fica à mercê de Jack. Enquanto isso, Lapidus é encotrado vivo e providenciará a fuga tanto almejada por Sawyer, Miles, Kate, Claire e Richard, ao passo que Hurley fica para trás e sucede a Jack como líder e com Ben como seu braço direito.

 

Por outro lado, na realidade paralela, a emoção só aumentava a cada personagem que "despertava" e vários foram os momentos simbólicos a remeter a eventos passados: o parto de Aaron, a ecografia de Sun, a recuperação de Locke. Mas as lágrimas começaram a ficar mais pesadas nos últimos dez minutos com a epifania de Jack, ainda por cima com a incrível banda sonora de Michael Giacchino que é de uma consistência e emotividade memoráveis. Longe do misticismo ou da ciência, o final de LOST recorreu à religião no seu sentido mais lato (basta ver que na Igreja onde todos se encontram há vários símbolos de diferentes religiões, numa mensagem que se quer universal). Eu pensei que a realidade paralela poderia significar que o Homem de Negro havia vencido ou que a mesma era um prémio de Jacob pelos sacrifícios feitos, mas nada me preparou para o turbilhão de emoções que foi o desvendar da verdadeira natureza da mesma.

 

Impossível de ser racionalmente explicada, a realidade paralela acaba por ser uma segunda vivência (reencarnação?) daquelas personagens que se permitem reencontrar após terem partilhado uma parcela decisiva das suas existências. Purgatório? Talvez sim, até porque algumas personagens não "estão preparadas" (Ana Lucia) e outras decidem ficar para trás (Ben) como se ainda tivessem muito que fazer para redimir os seus pecados. Eu, que não sou nada dado a estas coisas, achei uma solução fascinante e que encerra a trajectória das personagens de forma elegante e poética, com a morte de Jack no local onde tudo começou, mas agora com o sentido de dever cumprido.

 

 

 

 

Obviamente que quem procurava que tudo se resolvesse agora deve andar bem frustrado. No fundo, o essencial foi respondido ou ficou nas entrelinhas. Apenas não ficamos a saber exactamente como as coisas são (a luz ou o Monstro, por exemplo), mas sabemos o seu propósito e seria impossível explicar plausivelmente vários mistérios da Ilha, mas a sua natureza ficou esclarecida. Claro que houve situações mal desenvolvidas - o facto de Walt ser especial - ou respostas muito menos elaboradas que as teorias que pipocavam na Internet. No entanto, os produtores de LOST sempre afirmaram que esta era uma série de personagem, sobre humanidade e o sentido da vida. Os mistérios maquilhavam os questionamentos que a série levantava, a evolução das suas personagens e o conflito que germinava entre elas. Para mim, é mais instigante perceber como Sawyer passou de pessoa conflituosa e vingativa para um sujeito afável, ou acompanhar a jornada emocional de Jack até chegar a crente ou assistir à contradição do caminho de Locke, cuja fé na Ilha o levou à morte, do que saber porque os Números aparecem em todo o lado (uma pergunta parva quanto a mim) ou saber mais sobre as tatuagens de Jack.

 

Assim, o final de LOST deixa um monte de perguntas em aberto e que podem perfeitamente ser descortinadas pelo espectador mas, melhor do que isso, oferece um final emotivo que faz justiça a toda a série ao confiar na inteligência do espectador e preferindo arriscar do que jogar pelo seguro, cabendo ao espectador interpretar o final como bem quiser. Um brilhante final para uma série genial. Foi uma bela caminhada. Obrigado.

 

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publicado às 11:53

O fim de uma era

por Antero, em 23.05.10



Quando comecei a acompanhar LOST no início de 2006 depois da insistência de conhecidos, nunca imaginei que fosse ficar fisgado desta maneira. Na altura era uma alegria: via os episódios de rajada (a segunda temporada ia a meio quando vi o piloto), sabendo que teria sempre o capítulo seguinte logo ali no computador para saciar o meu crescente fascínio. Na terceira temporada, o vício falou mais alto e passei a seguir religiosamente com a exibição norte-americana. Eram dias de espera e desespero, noites a deitar-me tarde para ter o episódio pronto para passar ao meus colegas universitários logo pela manhã (muitos deles em Erasmus), horas passadas a ler blogues, a formular teorias, a fugir de spoilers (embora vacilasse por vezes). Já vi LOST como estudante, como estagiário, como trabalhador, como desempregado. Desbloquei conversas com a série e passei horas a discuti-la. Ri, chorei, emocionei-me, irritei-me, revoltei-me, assustei-me. Mas sempre como mesmo fascínio. Vi o passado, o presente e o futuro daquelas personagens, viajei no tempo com elas e até acompanhei uma vida paralela. Conheci-as a fundo, condenei comportamentos, emocionei-me com as suas catarses e epifanias, descobri com elas cada recanto da Ilha, temi pelas suas vidas, compreendi certas decisões, maravilhei-me com as descobertas, torci o nariz a certos acontecimentos, impacientei-me com o quebra-cabeças, mas no final saía sempre recompensado.

 

A partir de hoje, tudo isto acabará. Eu e a Televisão ficaremos orfãos de LOST, a série mais falada da década, amada por muitos, odiada por outros tantos, mas que não deixa ninguém indiferente. Não haverá mais episódios para analisar, repercutir, falar bem, falar mal, nada! Hoje acaba a maior jornada já desenvolvida na Televisão e que apaixonou e desiludiu milhões. É certo que haverá muito por explicar, muito será deixado à imaginação do espectador, alguns enigmas foram explicados subtilmente (algo que adoro na série; ela não subestima a inteligência do espectador) e o final não agradará a todos, um pouco o reflexo desta temporada que tem dividido opiniões - o que não deixa de ser um ponto a favor dos produtores por percorrerem caminhos inesperados e promoverem a discussão. Por isso, tranquem as portas, fechem as janelas, desliguem o telemóvel e tragam os lenços de papel. Esqueçam o Mundial de futebol; o acontecimento televisivo do ano ocorre hoje. LOST ACABA HOJE! HOJE! H-O-J-E! E acredito que acabará em beleza.

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publicado às 02:44

LOST: dedos cruzados

por Antero, em 19.05.10

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

LOST 6x16: What They Died For

Depois de ver o frustranteAcross the Seana semana passada, fui rever umas cenas, li umas coisas e cheguei à seguinte conclusão: encarem a luz da vida apresentada como quiserem. Para aqueles que desejam recorrer ao metafísico e à fantasia, levem aquilo à letra. Por outro lado, se são como eu e com uma tendência para explicações mais "científicas", vejam a luz como o centro do enorme campo de electromagnetismo que rodeia a Ilha. É como se a série nos pedisse para entrar no jogo "Fé x Ciência" que ela tão bem promove desde o seu início. Não admira que Widmore deposite todas as esperanças em Desmond e nas suas "habilidades" adquiridas com o facto de ter accionado a chave de segurança da escotilha e de ter estado no núcleo de uma intensa descarga electromagnética (rever final da segunda temporada, por favor). Widmore que não esperou pela vingança e foi morto a sangue frio por um Ben de volta aos (bons) tempos de calculista, embora esta tomada de posição surja mais como uma forma de auto-preservação do que realmente estar aliado com os objectivos do Homem de Negro.

 

Contudo, o grande destaque do episódio foi a passagem de testemunho do posto de Jacob para Jack, algo que, mediante toda a jornada emocional do Doutor, ocorre naturalmente (o vinho que a Mãe ofereceu a Jacob não interessa realmente; o importante é o gesto e a intenção com que o mesmo é feito). Numa rima temática fabulosa, Jack e Locke (embora não seja a mesma personagem) encontram-se em lados opostos - como sempre estiveram, aliás - só que agora é o perturbado Jack que descobre o sentido da sua vida e se apropria de um posto que, durante praticamente toda a série, pensávamos que estaria destinado ao careca. Não deixa de ser irónico que Locke tenha sido o catalisador da libertação de Jack e este se encontre, agora, na posição que ele tanto almejava, o que confere um carácter ainda mais trágico a John Locke. Além disso, soubemos a justificação para Kate deixar de ser uma candidata, o que achei apropriado se pensarmos em todos os ressentimentos que Jacob tinha com a sua Mãe e não querer o mesmo para Kate ou Aaron (obviamente que Kate deixou de ser uma candidata depois de eles terem ido para 1977, uma vez que eu acredito que Sun não viajou no tempo por não estar habilitada para o cargo).

 

Na outra realidade, acompanhamos os esforços de Desmond em reunir toda a gente no tal concerto e ainda matámos saudades de personagens marcantes como Rousseau e Ana Lucia. Ao mesmo tempo, Locke aceita ser curado por Jack por começar a desconfiar que é muita coincidência os seus caminhos terem-se cruzado desde o voo 815. Foi um episódio de preparação para o grande final no próximo Domingo (madrugada de Segunda em Portugal) e que terá a duração de 100 minutos (quase um telefilme). Depois... acabou!

 

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publicado às 19:47

LOST: manipulações

por Antero, em 12.05.10

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LOST 6x15: Across the Sea

"Cada pergunta que eu responder só levará a outras perguntas." - diz a mãe adoptiva de Jacob e do seu irmão, o Homem de Negro (do qual não sabemos o nome e isso não interessa para o caso). É a forma que os produtores de LOST nos avisarem: nem tudo será respondido, algumas explicações serão bem simplórias e muito ficará obscuro (o que não deixa de ter o seu charme). No entanto, o episódio que seria dedicado a Jacob acaba por se revelar frustrante não pelo que diz, mas sim pelo que omite. A esta altura do campeonato, seria impossível para a série responder tudo numa base mais científica/plausível quando muito do que temos visto remete à fantasia e ao esoterismo. Só que, basicamente, não tivemos grandes respostas, mas sim uma transição das mesmas: já não é Jacob que nos instigue, mas sim a sua mãe, de onde ela veio, como se tornou guardiã da Ilha, que raio é aquela luz (seria a forma de explicar os fenómenos electromagnéticos numa época menos tecnologicamente avançada?), quais os poderes dela e como ela os passou para Jacob. Tudo o resto soou muito superficial e, não por acaso, lembrei-me dos infames midi-chlorians (qualquer fã de Star Wars arrepia-se ao ouvir este termo).

 

Onde o episódio é bem sucedido é no estabelecimento de uma relação entre Jacob e o Homem de Negro de irmãos (gémeos) que nos permite entender as nuances da sua rivalidade actual, bem como deduzir que tudo isto não passa de um jogo cujas regras são ditadas pelo primeiro (um dos pontos pior explorados no episódio). A Mãe deles preparou-os para que um deles tomasse o seu lugar, embora não esconda a preferência pelo Homem de Negro que, mais calculista, rebelde, vivaz e criativo, poderia ser o substituto perfeito (não é por acaso que ela trata-o com nomes carinhosos e que, mesmo depois do abandono dele, ela esperou sempre pelo seu regresso como Jacob aponta). Na semana passada, escrevi aqui que o Falso Locke se havia estabelecido como o grande vilão do arco final da série, mas, de uma forma que só LOST consegue, o tapete é-me novamente tirado dos pés: aqui não há vilões nem heróis, tudo o que ele queria era sair da Ilha. Daí que investigue os diferentes núcleos de electromagnetismo da Ilha e promova um mecanismo que o liberte (a roda que Ben girou para "mover" a Ilha). Também não deixa de ser irónico que o Homem de Negro que confronta Jacob com a opinião que o Homem só serve para corromper e destruir esteja de acordo com a opinião vinculada pela própria Mãe que viria a assassinar.

 

No final, ficamos a saber quem são os esqueletos encontrados na gruta lá no início da série (episódio seis para ser mais preciso), embora isto não fosse realmente importante. Relevante seria perceber como e porque Jacob começou a vigiar os candidatos, porque decidiu criar esta espécie de jogo, porque o Monstro não o pode matar ou então se o seu irmão morreu mesmo ao entrar na fonte e libertou o Monstro ou se, de alguma forma, ele se transformou no Monstro por ter perdido a sua humanidade. Era bom que este episódio se revelasse determinante no futuro, mas isso dependerá do tratamento que for dado nas duas horas e meia que faltam para o final da série. E com tão pouco tempo e tanto para responder, acho que vamos mesmo ter de nos contentar com isto.

 

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publicado às 21:23

LOST: os restantes

por Antero, em 05.05.10

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LOST 6x14: The Candidate

É por episódios como este que eu desculpo qualquer derrapagem a LOST. Lançada num acto final que se tem mostrado primoroso, a série atinge aqui mais um ponto alto com um episódio chocante e recheado de emoção. Já não há dúvidas: o Falso Locke é o grande vilão da série e aqui abriu completamente o jogo. Ele não quer sair da Ilha com os sobreviventes, ele quer matar todos aqueles escolhidos por Jacob para o suceder (tal como havia dito no final deAb Aeterno). Como não o pode fazer directamente, engendrou um plano de mestre: ganhar a confiança deles aos poucos e conduzi-los ao submarino com o propósito de o explodir. E aí, Sayid sacrificou-se pelo grupo, restaurando a sua humanidade e informou-os que não matou Desmond, enquanto Lapidus - o único que poderia pilotar o avião - também bateu a bota. Mas o que realmente foi de uma crueldade indizível foi a morte do casal Jin e Sun, numa cena impactante. Ainda agora se tinham reencontrado e acabam por deixar órfã a pobre Ji Yeon.

 

Mantendo as cenas da realidade paralela ao mínimo indispensável (o foco de tensão eram os acontecimentos na Ilha), vemos Jack a querer curar Locke da paralisia, algo que este não aceita de bom grado. Assim, o Doutor investiga como o careca ficou nesse estado e fica a saber que foi num acidente de aviação que também deixou Anthony Cooper, pai de Locke e o golpista que tramou a família de Sawyer, num estado vegetativo. Aqui os papéis inverteram-se: Locke penitencia-se pelos seus actos e é um indivíduo corroído pelo remorso que não consegue dar o passo em frente, como tantas vezes Jack o foi ao longo da série. Este, por outro lado, é a luz de esperança para o caminho de Locke, como este tentou ser várias vezes para o Doutor, até morrer e ser bem sucedido. Enquanto isso, Jack começa a ter a percepção que já são coincidências a mais o facto de encontrar passageiros do voo 815 da Oceanic, numa clara ideia que todos eles estão interligados, o que será fulcral para o plano de Desmond em reuni-los a todos.

 

No final, um desesperado Jack vê a sua missão custar a vida de mais pessoas que ele imaginava, ao passo que o Homem de Negro está cada vez mais perto do seu objectivo. Para a semana, um promissor episódio que revelará o passado de Jacob e do seu rival. Até lá, estamos de luto.

 

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publicado às 20:29

LOST: escolham os vossos lados

por Antero, em 21.04.10

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LOST 6x13: The Last Recruit

No último episódio, Desmond atropelava Locke na realidade paralela e a sugestão era de que esse acto seria como uma vingança pelas acções do Falso Locke na Ilha. No entanto, convém lembrar que Desmond só começou a ter noção da artificialidade do seu universo com o acidente rodoviário provocado por Charlie: uma experiência de quase morte que lhe abriu os olhos e cuja epifania só ficou completa ao entrar em contacto com Penny. Daí que não seja difícil de supor que Sun, após ser baleada, passou por um processo semelhante e, consequentemente, reconhecer John Locke a caminho do hospital. Hospital esse para onde parecem convergir todas as personagens principais: Jack fará a operação de Locke, Sun está internada e acompanhada por Jin e Sawyer deverá lá ir buscar declarações sobre as mortes provocadas por Sayid. O plano de Desmond deverá passar por fazê-los "acordar" e verificar que as suas vidas actuais são falsas, meros caprichos de uma entidade que se queria ver livre, apesar de muitos dos seus desejos se tornarem possíveis.

 

Preparando o terreno para um final que se adivinha bombástico, o episódio deu a oportunidade da realidade paralela deixar um vislumbre do seu verdadeiro propósito. É por ela que passarão questões como: o que estaríamos dispostos a abdicar para atingir o que mais queremos? A ilusão de algo idílico é mais benéfica que o decepção da realidade? Já estou a imaginar Jack, que tanto sofreu e agora reatou com o filho, perceber que David não é mais do que uma mentira. Por falar no Doutor, ele é a peça-chave e o verdadeiro opositor do Homem de Negro: fiel às suas actuais convicções (o homem empírico deu lugar a um indivíduo de profunda fé - e esta é a principal jornada de toda a série), Jack abandona o seus companheiros para permanecer na Ilha e perceber quais as verdadeiras implicações dos intentos do Falso Locke, ainda que este necessite dele para os poder concretizar. Widmore prende todos os losties e deverá colocá-los a salvo do Homem de Negro: sem eles, ele não conseguirá escapar da Ilha.

 

Tenso do início ao fim, o episódio preocupou-se em alinhar as peças para o momento final e, de forma precisa, estas iam "casando" com determinados momentos na realidade paralela: quando Sayid se prepara para matar Desmond (algo que eu acredito que não foi cumprido), na realidade paralela Sayid prepara-se para abandonar Nadia, aquela que ele, mais do que tudo, queria voltar a rever. Quando Claire conhece o seu irmão (Jack), é deixada para trás pelo grupo excepto por Kate que pretende levá-la de volta para junto de Aaron. E ainda tivemos a confirmação de que as aparições na Ilha do pai de Jack (e outros, certamente) foram obra do Homem de Negro. Com as peças dispostas para os quatro últimos episódios, resta-nos esperar pacientemente (tarefa difícil) pela continuação desta fabulosa história daqui a duas semanas.

 

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publicado às 23:17

LOST: na toca do lobo

por Antero, em 15.04.10

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LOST 6x12: Everybody Loves Hugo

Num episódio basicamente centrado em Hurley (embora tenham sido vários os núcleos desenvolvidos), a série apresenta a redenção do relacionamento nunca consumado entre Libby e o milionário. Na realidade paralela, ele é abordado por ela que tem memórias de vários acontecimentos na Ilha, antes de ser assassinada por Michael. Não sei se repararam, mas os primeiros a "despertar" da realidade têm sido os indivíduos que faleceram anteriormente (Libby, Charlie e Faraday) numa clara sugestão de que o universo alternativo é algo posterior aos eventos que acompanhamos na Ilha, uma vez que eles já haviam cumprido o seu papel e que acabam por não ter ganhos pessoais relevantes (o que não acontece com os nossos conhecidos Jack, Desmond, Sawyer, Ben, Hurley ou Claire; Locke ainda é uma incógnita porque ele está efectivamente morto). Cabe a Desmond, plenamente consciente das duas realidades como se verifica no chocante final do episódio, a missão de dar o empurrão para que os losties percebam que aquele rumo não é o Destino deles.

 

Na Ilha, tivemos uma dispensável aparição de Michael a pedir perdão pelos actos passados e a dar uma interessante, embora batida, revelação de que os sussuros, presentes desde o início da série, não são mais do que mortos que se encontram presos no limbo que os separa do Além. Ainda assim, a participação de Michael como guia de Hurley acaba por ser bastante duvidosa já que acaba por atender aos planos do Homem de Negro em reunir Hurley, Sun e Jack na sua fuga. E já que falamos no Homem de Negro, não posso deixar de tecer (novamente) rasgados elogios à actuação de Terry O'Quinn: a sua eloquência e nuances são nitidamente de John Locke, mas agora com um misto de malícia e sabedoria que substituem a antiga curiosidade do careca em relação à natureza da Ilha. Obviamente, ele sabe que Desmond é uma ameaça aos seus planos: Widmore nunca se daria a tanto trabalho (rapto mais experiência com electromagnetismo) se o escocês não lhe fosse mesmo essencial. Resta saber se o Falso Locke está a par dos planos de Desmond e da sua consciencialização da realidade paralela.

 

Tivemos também a despedida bombástica (literalmente) do Black Rock e de Ilana, o que me deixou surpreso: tanta coisa com Jacob e a sua missão em proteger os sobreviventes e, ao mínimo descuido, lá vai a moça pelos ares. No final, o olhar entre Jack e o Falso Locke não engana: não vem aí coisa boa.

 

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publicado às 00:14

LOST: felicidade eterna?

por Antero, em 07.04.10

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LOST 6x11: Happily Ever After

Para se perceber este brilhante episódio de LOST, há que fazer uma recapitulação da trajectória de Desmond. Ao sobreviver à explosão da estação Cisne, no final da segunda temporada, a mente do escocês "quebrou" a sua linearidade e passou a estar dispersa no tempo, o que fez com que ele tivesse pequenas visões do futuro onde previa a morte de Charlie, facto que não conseguiu impedir apesar dos seus esforços. Ao sair da Ilha de helicóptero - já na quarta temporada - Desmond cruzou o campo electromagnético que a circunda, o que intensificou os efeitos de dispersão da sua consciência, algo só reparado quando ele conseguiu influenciar a continuidade temporal e entrar em contacto com Penny, a sua constante, aquele que lhe dá harmonia e estabilidade. Desmond é "especial" porque consegue alterar o Tempo e, não por acaso, Faraday recorreu a ele (isto já na quinta temporada) para o alertar sobre a situação dos losties que haviam ficado para trás e que corriam perigo devido à instabilidade da Ilha depois de Ben "movê-la".

 

E eis que chegamos ao momento actual: Widmore raptou Desmond e levou-o de volta para a Ilha. A intenção de Charles é usa-lo como arma para salvar a vida de todos, uma vez que ele conseguiu sobreviver praticamente ileso a um desastre electromagnético e, assim, decide está-lo noutra exposição. Esta experiência leva ao primeiro cruzamento entre as duas realidades paralelas, onde Desmond é um "moço de recados" de Widmore e tem como tarefa levar Charlie para um concerto que este dará numa festa organizada pela esposa do milionário, Eliose Hawking. Com o avançar dos eventos, Desmond começa a ter noção de algo está errado e onde lhe surgem visões de acontecimento da realidade que tão bem conhecemos. Tal como Charlie vislumbrou o seu amor no avião (Claire) e Faraday no Museu (Charlotte), o escocês passa a procurar por Penny. Ao encontrá-la - no mesmo estádio onde treinava para a regata e onde conheceu Jack pela primeiríssima vez - Desmond volta a entrar em contacto com a sua constante e toma plena consciência das duas realidades e da sua missão. No final, dá a impressão que a sua mente "trocou" de realidade e que o "verdadeiro" Desmond se encontra na realidade paralela, pronto a avisar os passageiros do voo 815 de que as suas vidas não são o que realmente aparentam.

 

Como em todos os episódios que envolvam o brotha, há muito para ser digerido e analisado até se chegarem a conclusões finais (e rever o capitulo é sempre aconselhado). Desmond será a ponte entre as realidades alternativas e passará por ele a resolução da guerra entre Jacob e o Homem de Negro. Quando eu pensava que já tinha decifrado o rumo final da série, mais uma vez ela volta a mudar a disposição das peças e a abrir outras possibilidades para o seu desfecho. É incrível a quantidade de perguntas novas que surgem a míseros seis episódios do fim anunciado. Será que Eliose sabia da realidade paralela para não querer promover um envolvimento entre Desmond e Penny? Charlie e Faraday também teriam noção do que se passa? Como a realidade paralela pode influenciar a guerra travada na Ilha? E Widmore sempre soube que Desmond iria "parar" ao outro lado? A realidade paralela significa que o Homem de Preto venceu e que Desmond será a chave para que ele saia derrotado?

 

Recheado de referências a acontecimentos que já conhecemos (o navio, o whisky, o estádio, o motorista que era passageiro do cargueiro e que morreu devido a experiências de "dispersão temporal", Aaron, o talento de Faraday para a música, a morte de Charlie e tantos, tantos outros), o episódio abriu definitivamente o caminho que levará ao final da melhor série da actualidade. E nem imaginam como é triste escrever isto.

 

10 potes de banha


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publicado às 03:30


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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