Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Carros 2

por Antero, em 08.07.11

 

Cars 2 (2011)

Realização: John Lasseter, Brad Lewis

Argumento: John Lasseter, Brad Lewis, Dan Fogelman

Vozes: Larry the Cable Guy, Owen Wilson, Michael Caine, Emily Mortimer, John Turturro, Eddie Izzard, Joe Mantegna
 

Qualidade da banha:

 

Haveria de chegar o dia em que a Pixar iria escorregar e esse momento chegou. Depois de subir bem alto com o maravilhosoToy Story 3, a empresa dá um tombo valente com a sequela daquele que, até à data, seria o elo mais fraco da imaculada carreira da companhia, Carros, e que, ainda assim, conseguia ser um divertimento adorável e com sequências espectaculares. Assim, não se pode dizer que a desilusão não fosse totalmente esperada; o que impressiona mesmo é a fraca qualidade narrativa de Carros 2, já que a Pixar parece baixar os braços e entregar-se a tudo aquilo que eu reclamo na concorrência: histórias previsíveis, lições de moral enfiadas a martelo e personagens nada cativantes. Com tanta obra da casa a pedir continuação (The Incredibles, Ratatouille), é de lamentar que o apelo comercial de Carros tenha falado mais alto.

 

Visualmente espantoso (e só), Carros 2 traz Faísca McQueen (Wilson) e seu melhor amigo Mate (Larry the Cable Guy) numa viagem pelo mundo enquanto o carro de corrida participa num torneio espalhado por três países para comprovar a eficiência de um combustível alternativo, limpo e renovável. No entanto, Mate acaba por ser confundido com um espião norte-americano e passa a encabeçar várias aventuras ao lado do agente Finn McMíssil (Caine) e sua assistente Holley Shiftwell (Mortimer) enquanto tentam descobrir a identidade do vilão que tenta sabotar as corridas para desacreditar o novo combustível.

 

Realizado por John Lasseter (o mago por trás do lançamento da Pixar) juntamente com o novato Brad Lewis, o filme comete a asneira de fazer de Mate, uma personagem esporadicamente engraçada, o protagonista desta nova aventura e relegar o também pouco interessante Faísca McQueen para segundo plano – o que poderia ser uma bem-vinda mudança de foco, mas acaba por se tornar num enfado, uma vez que somos obrigados a ver os dois amigos desentenderem-se de maneira forçada (o reboque envergonha o amigo em eventos públicos) só para determinar que o filme tenha um arco dramático a ser resolvido com diálogos pastosos como "acredita em ti mesmo", "não interessa o que os outros pensam de ti" ou a inacreditável pergunta que alguém faz a Faísca, "por que irias pedir a Mate para ele não ser ele próprio?". Isto atinge o pico da artificialidade quando Mate deduz quem é o autor por detrás dos ataques às corridas e, na urgência da situação, tem uma crise de confiança e faz uma birra por ser gozado por todos e lá vem McQueen com um dos seus discursos motivacionais para restaurar a auto-estima do companheiro.

 

Além disso, a parte de espionagem não tem ponta por onde se lhe pegue e tudo parece uma justificação para sequências de acção eficazes, ainda que bem mais violentas do que seria de esperar: com explosões, mortes e torturas, Carros 2 exibe um sadismo nada apropriado para uma obra totalmente voltada para um público infantil e a revelação do vilão é absurda e deixa um rasto de buracos ao longo do argumento. Também o que poderíamos esperar de um filme que contém situações absolutamente ilógicas, como aquela em que Mate tem uma bomba pregada a si e um dos capangas afirma – após o cronómetro ter avançado um minuto com o seu comando de desactivar – que apenas quem instalou a bomba pode desactivá-la com a voz e o filme parece esquecer-se que segundos antes o próprio Mate gritava em desespero "desactivar!" umas três vezes sem que a contagem do tempo sofresse alterações.

 

O facto é que Carros 2 é somente aquilo que realmente é: uma feira internacional de bonecos prontos a atacar as prateleiras das lojas e as carteiras dos pobres pais que levarão os seus filhos ao cinema e, neste aspecto, o filme cumpre o que promete. Com detalhes deliciosos e um apuro visual estonteante, os veículos têm as suas formas e peças como indicadores da sua personalidade, o que pode ser comprovado pela dianteira de McMíssil que remete a um bigode canastrão de um agente secreto britânico seguro de si ou os carros japoneses com características do anime. Além disso, os cenários da fictícia Porto Corsa em Itália e de Tóquio cheia de cores e vida são de tirar o fôlego, as corridas continuam trepidantes e o universo do filme já não se limita a automóveis, investindo em aviões e barcos embora isto não seja aproveitado ao máximo.

 

Contudo, ainda que seja digno de aplausos pelos seus aspectos técnicos, é triste constatar que estes estão ao serviço de uma narrativa frouxa e poucas vezes a Pixar surgiu tão preguiçosa em estabelecer a temática de uma obra sua que, além de pouco ambiciosas, ainda parecem virar o bico ao prego consoante as exigências do momento: de início há a questão ecológica das energias alternativas por oposição ao petróleo, depois passam a ideia que o crude já é mais fiável; há o tema da diferença e aceitação pelos pares (Mate) e, mais tarde, dá a impressão que os renegados da sociedade são uns potenciais terroristas cheios de ressentimento para com o Mundo, enfim... tudo inserido aos pontapés como se o filme tentasse desesperadamente mergulhar nas temáticas adultas que diferenciavam a Pixar das suas concorrentes.

 

Fraco até como comédia, Carros 2 é uma mancha no currículo antes imaculado da Pixar. Até os génios têm direito a falhar.

 

PS: a costumeira curta-metragem que precede a sessão de Carros 2, intitulada Férias Havaianas, tem uma certa piada pela nostalgia em rever as personagens de Toy Story, mas é tão fraca e sem graça como o filme que se lhe segue. Pareciam que estavam a adivinhar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:16


2 comentários

Imagem de perfil

De sandrafofinha25 a 05.08.2011 às 21:04

este filme é mais apropriado para crianças dos cinco aos dez anos. pelo menos é o que eu acho.
Sem imagem de perfil

De Maria a 25.01.2012 às 15:23

Concordo em pleno. Adorei o Carros 1, assim como o meu filhote de 3 anos. Cometi o erro de o levar a ver o Carro 2. Saímos a meio. Bem sei que o filme é para maior de 6 anos mas se seguisse a lógica do primeiro, não era violento, tinha uma mensagem bonita, os bonecos (carros!) eram apelativos, logo, não viria mal ao mundo. Pelo contrário, o Carros 2 é super violento, parecendo uma versão da Missão Impossível. É pena...

Comentar post



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Armazém

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D