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Virar à Direita

por Antero, em 05.06.11

O Partido Socialista, com José Sócrates à cabeça, acabou de levar uma tareia nas Legislativas 2011 e não ficou por aí: mesmo o Bloco de Esquerda e a CDU levaram um forte abalo e uma nova coligação PSD-CDS é iminente. Isto numas eleições carregadas pelo peso das medidas que o FMI irá implantar nos próximos anos e numa campanha mergulhada em acusações de todos os lados sobre culpabilidade e omissão. Sabendo como é o povo português, não era de todo improvável uma nova reeleição de José Sócrates, seja pela inexperiência e/ou ineficácia da oposição ou pela postura do próprio Sócrates, cuja eloquência e retórica desarmavam os opositores e a sua habilidade em trazer a si os louros de "pequenas" conquistas e alhear-se dos prejuízos.

 

Nada disto serviu (nem as sondagens que pintavam um cenário renhido) e eu, simpatizante socialista e plenamente consciente do mau serviço prestado pelos representantes do PS, estou surpreso e - diria até - moderadamente satisfeito. Porque o povo não foi nas lérias do Zé, na sua constante vitimização à qual os adversários ainda davam mais lenha e não caiu na mesma asneira uma segunda vez (segunda por que a primeira eleição foi contra Santana Lopes, então não conta). Por outro lado, dá para perceber que Sócrates não só minou o Partido Socialista, mas também teve efeitos colaterais em toda a Esquerda: o BE, que vinha em crescendo no mapa político nacional, viu-se relegado à quinta posição.

 

Eu votei em branco e andei toda a semana a ouvir mil e uma aberrações sobre essa decisão. Ia ajudar o Sócrates, para isso mais valia nem ir, que votasse num dos partidos sem expressão, enfim. Pois bem, eu votei em branco por que me preocupo: se estivesse nas tintas para isto, nem punha lá os pés. Li (por alto) as principais medidas propostas por TODOS os partidos e, quanto aos chamados pequenos, era cada um pior que o outro. Se eu não vejo capacidade e não deposito confiança naquela gente, simplesmente não voto em ninguém. Se isso favorece X ou Y, problema deles. Sejam mais eficientes da próxima vez. Eu não vou por "males menores".

 

Outra coisa que me deixou agastado: o facto de eu não apoiar Passos Coelho não faz de mim automaticamente pró-Sócrates, tal como o inverso não se aplica. Não gosto de Passos Coelho, de quem o rodeia, acho que perdeu tempo a falar de imbecilidades e acusações, de fazer joguinhos com o Governo na altura do PEC, acho que ele é inexperiente e não poderá fazer muito com a herança que terá em mãos (cuja culpa também tem de ser repartida com o PSD e - vejam só! - com aquele sujeito que reside no Palácio de Belém). Daí a adorar o Sócrates vai uma distância e tanto e não convém diabolizar nem um nem outro. Por isso é que eu entendo a postura dos meus pais em votar PS por que realmente houve coisas bem feitas e acham que há margem de manobra para pôr isto nos eixos, assim como percebo o meu irmão que engoliu o orgulho esquerdista e votou na Direita por que crê que necessitamos de uma mudança.

 

E isto escreve-vos um tipo de Esquerda, avesso à Direita, liberal, que acha que o Estado deve ter um papel minimamente regulador, que as preocupações máximas de um Governo deveriam ser educação e saúde, que concorda com as privatizações da TAP, Correios e CP; que as parcerias público-privadas devem ser revistas, defensor dos direitos dos homossexuais, que acha que o Ministério da Cultura é essencial ao país (mas que será o primeiro a levar cortes), que a RTP deve ser pública, que a Assembleia é maioritariamente composta por inúteis, que é a favor da despenalização do aborto, ateu, alérgico ao conservadorismo, que acredita que o grande mal deste país é a falta de fiscalização. Em tudo! Que admira a pluralidade da Esquerda por oposição a uma certa rigidez da Direita, mas com uma ponta de inveja do carácter reaccionário e singular para o qual tende a Direita que contrasta com uma certa passividade da Esquerda (alguém vê o CDS atacar o PSD como o BE e a CDU atacam o PS?).

 

Que Passos Coelho e restante executivo façam um bom trabalho e me surpreendam. De bom grado morderei a língua, se for caso disso.

 

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publicado às 20:51


6 comentários

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De Rui Costa a 05.06.2011 às 22:25

Tu és de esquerda?! Já leste o teu penultimo parágrafo?! És de esquerda, és socialista e liberal? Oi?! Isso é um bocadinh
o... esquisofrénico, pah. :-)

Por exemplo, dizes-te apologista de Estado minimal. Ou seja, és como eu algo próximo do minarquismo. Quanto à função de regulador do Estado, isso defende o Hayek, um dos icones do liberalismo...
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De Antero a 05.06.2011 às 23:12

Sou isso tudo e considero-me de Esquerda, mas não daqueles com palas nos olhos, inflexíveis, que não sabem dar valor a outros pontos de vista e hostilizam qualquer ideia de outras ideologias.

Aí seria comunista. :P
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De Juliana Gomes a 05.06.2011 às 23:30

Antero gostei muito do teu comentário. Concordo contigo com muito do que dizes no ultimo paragrafo. Esquizofrenia ou não, penso que só porque queremos menos estado não significa que sejamos de direita ou fascistas (como já fui apelidada). Eu concordo com todas as medidas sociais mas com a fiscalização devida. Concordo com todas as privatizações excepto na saúde, educação e RTP. Tal como tu estou à espera de ser surpreendida pelo futuro primeiro ministro. Eu sou militante do PS, votei PSD, mas não é isso que importa. Agora venham medidas e muito trabalhinho para tirar o País desta crise.
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De RS a 06.06.2011 às 01:09

A CDU levou um forte abalo??!! Passou de 5º para 4º, elegeu mais um deputado e teve mais votos (em percentagem, porque em numero até diminuiu ligeiramente). Não entendo onde está o abalo. Aliás se há partido que pouco mexe é mesmo esse. Tem o seu eleitorado bem "fixo"! Sinceramente não pensei que a direita chegasse à maioria. Pensei que ficava perto, mas que não conseguia chegar lá. Enganei-me! Vamos ver agora o que fazem, mas nesta altura talvez tivesse sido bom que a direita não o tivesse conseguido. Obrigava à constituição de um bloco central (sem Sócrates), com a possível presença do CDS. Penso que daria muita estabilidade e podia-se finalmente avançar com reformas de longo prazo. E muitas outras daquelas que custam votos, mas tem de ser tomadas. Espero que PPC e PP tenham uma certa coragem para tocar em alguns pontos, porque falar é uma coisa, mas fazer é outra. Mas espero também que tenham o bom senso de "ouvir as pessoas" e não caiam no mesmo erro do Sócrates e extravasem arrogância!
Um ultimo comentário para a forma das eleições que na minha opinião não tem lógica. Isto dos círculos eleitorais é uma palhaçada. Só tira expressão aos partidos mais pequenos. O CDS teve pouco mais de metade dos votos do BE, mas elegeu 24 deputados contra 8. Onde está a lógica disto? O PSD elegeu 1 deputado por cada 20500 votos. O BE elegeu 1 deputado por cada 36000 votos! O PCTP/MRPP com 62500 votos não elegeu nenhum... Numas eleições em que claramente se vota no partido a nível nacional e não nas listas do distrito não me parece que isto tenha a menor lógica!
E para quando os votos brancos contarem??!!
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De Rui Costa a 06.06.2011 às 10:10

Ju, desculpa discordar, mas seres militante PS e votares neste PSD liberal importa. É que isto não é um PSD centrão: é um PSD liberalissimo.
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De Rui Costa a 06.06.2011 às 10:09

Bem, vejo que estão todos na defensiva...

Eu só queria ressalvar um ponto: é uma incongruência lógica querer Estado mínimo e dizer-se socialista. Por exemplo, se formos ao dicionário ver o significado de socialismo (http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=socialismo), encontramos:

"Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade, pelo regresso dos bens e propriedades particulares à coletividade, e pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objetos de consumo."

Ora, a incorporação dos meios de produção na comunidade implica maior Estado, Q.E.D.

Agora, acho que entendo o que queres dizer: és um socialista no que toca às questões sociais, e nas questões económicas queres pouco Estado. Também interpretei isso da Ju. Mas isso não é ser de esquerda... Isso é ser de centro... direita, por causa da questão o Estado minimal.

Não se confunda socialismo com Estado Social. Um excelente exemplo disso é a Suécia, um país dado como exemplo (errado) de socialista, que tem um dos mercados mais liberais que existem. E ainda assim mantêm um Estado Social eficaz.

Ju, choca-me dizeres-te militante Socialista e defensor de Estado mínimo. Sério. Aqui vai uma provocação para ti e para o Antero:

Neste país ainda vivemos enamorados pelo socialismo e as pessoas têm medo de ser de "direita", seja lá o que isso for. Então dizem-se de esquerda, mas defensoras de pouco Estado :p

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Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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