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Sucker Punch - Mundo Surreal

por Antero, em 02.04.11

 

Sucker Punch (2010)

Realização: Zach Snyder

Argumento: Steve Shibuya, Zach Snyder

Elenco: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Scott Glenn

 

Qualidade da banha:

 

Zach Snyder é o novo menino bonito da Warner Bros.. Eu já tinha esta opinião e o seu mais recente filme, Sucker Punch - Mundo Surreal, veio apenas confirmar esta teoria. Ao lidar pela primeira vez com um argumento original, Snyder mostra o mesmo olhar acertado para planos belíssimos e evocativos que marcaram as suas obras anteriores, O Renascer dos Mortos, 300 eWatchmen(não vi A Lenda dos Guardiões). O problema é que a estética apurada não encontra reflexo na frágil história e que, pecado mortal, revela uma inacreditável insolência nos minutos finais. O que, claro, é uma pena, já que Sucker Punch revela-se uma das apostas mais insólitas e originais vindas do lado mais comercial de Hollywood e tinha potencial para ser mais do que aquilo que realmente é: uma descartável obra na qual fantasias masculinas são personificadas no grande ecrã para deleite da plateia, mas sem um escape emocional que sustente a jornada.

 

Quando refiro fantasias masculinas, não uso o termo por acaso: internada num hospício devido a um acidente trágico após tentar proteger a irmã de ser molestada pelo padrasto, a jovem Baby Doll refugia-se nas suas fantasias para engendrar uma fuga do local, onde será submetida a uma lobotomia em cinco dias. Assim, ela imagina estar a viver num cabaré/prisão e une-se a outras bailarinas (leia-se: outras pacientes internadas) de modo a formar uma equipa para escapar do local. Este plano consiste em várias “missões” que, novamente, são personificadas por outro tipo de fantasias de Baby Doll e que vão desde cenários de guerra, jogos de vídeo que devem muito ao fantástico ou até uma época mais futurista.

 

Sempre vestidas em trajes mínimos, Baby Doll e restantes companheiras surgem como objectos sexuais prontos a satisfazem a libido masculina ao mesmo tempo que são endeusadas pelo efeito que causam no sexo oposto. Num filme que leva a noção de espectáculo ao extremo (a começar pela cortina e o palco que abrem a narrativa, numa reminiscência de Moulin Rouge), certos exageros na caracterização das personagens são até justificáveis. No entanto, isto retira força à história, uma vez que nas variadas sequências oníricas que se referem às missões do grupo nós sabemos que a raparigas não correm perigo de vida, tornando as longas sequências de acção num exercício de estilo meramente sensitivo, algo que atinge o ponto de saturação na cena do comboio futurista, onde Snyder abusa da câmara lenta como se congratulasse a si mesmo por achar-se tão inventivo.

 

Ainda assim, a produção liberta-se sempre que entra na mente de Baby Doll ao encontrar no delírio visual o arrebatamento e a elegância que fazem de Sucker Punch uma experiência extasiante: do mundo “real” cinzento e triste, às cores vivas do cabaré com detalhes que não deixam de ter presente que o local é uma prisão, passando pelas trincheiras da Primeira Guerra Mundial e visões de zepelins e aviões militares, e acabando no castelo do dragão, tudo no filme busca a espectacularidade e a imaginação sem limites, sendo que também é divertido ver como a narrativa flui com as missões que reflectem o que se passa no cabaré que, por sua vez, reflecte o que se passa no hospício.

 

Com aspectos técnicos irrepreensíveis (o design de produção é deslumbrante), Sucker Punch conta com um elenco de beldades femininas que dão (muito) corpo e (pouca) alma a personagens unidimensionais, ao passo que os homens são, na sua maioria, retratados coom feios, sebosos e repulsivos, numa visão feminista que se adequa à proposta do filme. O que já não se adequa mesmo nada é o desfecho com ares filosóficos de quinta categoria e que serve tentar injectar profundidade numa narrativa que em momento algum quis parecer mais do que aquilo que é: um monumento ao talento imagético de Snyder e à sua incapacidade em perceber que uma estética primorosa não vale muito sem uma boa história por trás.


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publicado às 15:05



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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