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A verdade social

por Antero, em 05.11.10

 

Quando A Rede Social foi anunciado há cerca de um ano, poucos devem ter sido aqueles que depositaram grandes expectativas no filme que retrataria a gestação do Facebook, uma das redes sociais mais utilizadas do Mundo. Nas mãos de Aaron Sorkin, renomado argumentista na Televisão, a pouco promissora história torna-se num conto sobre moralidade, ética, ambição e poder. O facto de ser sobre o Facebook é o que faz a acção seguir adiante, mas é um mero detalhe e poderia ser substituído perfeitamente por outro fenómeno da Internet como o Google, o YouTube ou o Twitter. O que interessa aqui são os efeitos dos actos na interacção entre Mark Zuckerberg e o seu parceiro Eduardo Saverin tanto no fenómeno que se tornou o referido website, bem como nas acções legais que o sucederam.

 

Baseado no livro The Accidental Billionaires, A Rede Social aproveita factos dispersos para ficcionar sobre eles, num esquema semelhante ao adoptado por Peter Morgan em A Rainha. Muito do que é descrito no ecrã não é verdade (aposto que as festas académicas estejam longe de ser aquilo que Hollywood nos costuma mostrar) ou, pelo menos, não aconteceu daquela maneira. No entanto, esta dramatização dos eventos não deprecia o filme, já que tudo ali soa verosímil e o belíssimo argumento de Sorkin permite-nos acompanhar tudo com a maior das clarezas: há códigos para aqui, gírias tecnológicas para ali, mas nada que permita que o espectador comum se perca entre as cenas de tribunal e os brainstormings de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook.

 

Rejeitado pela namorada, Mark decide criar uma rede para o circuito de Harvard intitulada “FaceMash” que, em poucas horas, se torna um sucesso, mas sem que ele deixe de sofrer um castigo da Direcção. É aí que os gémeos Winklevoss o contratam para criar um site chamado Harvard Connection. No entanto, Mark une-se ao seu melhor amigo, Eduardo Saverin, e avançam com a criação de uma rede social, o “thefacebook”. Em meio a festas e estudos, a rede torna-se num fenómeno cada vez mais global, o que acarretará consequências para a vida de ambos e, em poucos meses, são accionados mecanismos legais que põem em causa a fortuna recentemente conseguida por Zuckerberg.

 

Anti-social ao extremo, Zuckerberg é o grande destaque do filme. Interpretado brilhantemente por Jesse Eisenberg, Mark é um tipo que revela um grande intelecto debaixo de um aspecto jovial que, como bem salienta o futuro sócio Sean Parker, ninguém leva a sério no mundo dos negócios. Ingénuo ao ponto de pensar que manter uma conversa com a namorada com base em deduções lógicas não deveria ser interpretado como um sinal de arrogância, Mark é um ser imensamente reprimido: ao ver a ex-namorada rejeitá-lo novamente e pouco interessada no seu projecto, ele decide avançar com a expansão do mesmo; ao saber que o seu melhor amigo foi aceite numa república universitária, a sua primeira reacção é lançar um comentário depreciativo; ao ser confrontado com factos que põem em causa a sua lealdade, a sua resposta é focar-se no trabalho. Desta forma, Mark surge não como um vilão, alguém detestável, mas sim como um indivíduo com que facilmente nos identificamos. No fundo, ele busca a aceitação social, ser acolhido pelos seus pares, mesmo que esse objectivo seja virtual, pouco palpável.

 

Contudo, o inteligente roteiro de Sorkin (aliado à composição de Eisenberg) delineia traços da personalidade de Zuckerberg que o tornam ainda mais fascinante. Seria ele assim tão ingénuo e influenciável? Afinal, ele não andou semanas a evitar os gémeos e o projecto de Harvard para se dedicar exclusivamente ao Facebook? Aquando a digressão para angariar investidores, Mark sabota todas as entrevistas com o seu jeito desleixado, só ficando entusiasmado com a reunião com Parker, o criador do Napster. Seria isto um acaso ou ele realmente pretendia juntar-se a Parker, já que ambos partilham traços em comum (inteligentes, alcançaram a fama jovens e são uns párias da sociedade)? No fundo, ainda que não alinhe no estilo de vida de Parker, Mark inveja o seu estatuto e acaba por sentir-se atraído pela sua trajectória rumo ao sucesso e, neste aspecto, há que realçar a prestação enérgica de Justin Timberlake como alguém que conhece os meandros daquele mundo, ao mesmo tempo que o peso do reconhecimento público lhe trouxe devaneios paranóicos.

 

Claro que o perfil do nosso anti-herói não estaria completo sem a sua relação com aqueles que lhe são mais próximos e aqui reside a grande surpresa do filme: Andrew Garfield. Como Eduardo Saverin, ele estabelece uma amizade com Mark que soa genuína e acompanhar a deterioração da relação entre eles está entre os pontos altos de A Rede Social. O certo é que Saverin não seria a melhor pessoa para ocupar o cargo de Director Financeiro (cuja nomeação por parte de Mark pode ter sido um impulso do momento ou uma recompensa pela ajuda inicial) e, num mundo implacável como é o empresarial, ele nunca manteria as funções por muito tempo. Porém, a forma como o processo é conduzido levanta muitas dúvidas sobre a afeição entre ambos: Mark só o queria por perto devido à conta bancária em seu nome ou preocupava-se realmente com ele? Garfield tem uma interpretação estupenda ao retratar um Saverin ansioso e que mal consegue conter a alegria de ser bem sucedido, ao passo que a expressão extasiada dá lugar à confusão e a uma desilusão cada vez mais maior com o passar do tempo (e o seu olhar de remorso para o ex-colega contrasta de forma perfeita com a frieza deste).

 

Longe de ser uma película pró-Facebook, A Rede Social dedica grande parte do seu tempo a retratar a ascensão de Zuckerberg e as consequências do sucesso na sua vida. A crítica velada às redes sociais por oposição às relações pessoais está lá, mas apenas nas entrelinhas, sem nunca fazer a apologia do slogan “o Facebook mudou o Mundo!” (algo que temi aquando o anúncio da produção), mas mantendo sempre presente que a Internet alterou a forma como nos relacionamos e que, como tudo na vida, tem aspectos a favor e contra. E mesmo que David Fincher tenha um trabalho discreto aqui, ele sabe bem o ouro que lhe foi parar às mãos e faz com que a narrativa flua naturalmente, condimentando-a com pequenos momentos de humor (como o relato sobre a galinha ou a reunião com o Reitor de Harvard). Outra excelente (e subtil) opção de Fincher é alternar entre os espaços fechados e acolhedores de Harvard com lugares mais amplos e claros dos escritórios, como se o sucesso do Facebook levasse a impessoalidade das corporações a invadir e a modificar o habitat daquelas personagens.

 

Numa indústria cada vez mais dedicada a lançar filmes acéfalos para audiências que até os justificam, é um prazer ver que A Rede Social não precisa de elaboradas cenas de acção ou de uma montagem "frenética" para prender o público, atingindo o mesmo efeito através dos seus primorosos diálogos que são debitados com imensa elegância e acidez. Apesar de poder ser acusado de ser historicamente impreciso, o grande mérito do filme é o seu argumento e o seu trágico protagonista: um indivíduo à procura do seu lugar na sociedade e que, ironicamente, criou uma das ferramentas de relacionamentos actualmente mais usadas por esse Mundo fora.

 

Qualidade da banha: 18/20

 

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publicado às 00:04



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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