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Sessão dupla

por Antero, em 14.06.08

Ontem fiz algo que pretendia fazer há muitos anos, mas nunca tive oportunidade: uma sessão de cinema dupla. Aproveitando a estreia de dois filmes, que pretendia assistir, na mesma semana, lá arranjei um tempinho para me sujeitar a mais de 4 horas de cinema. Seguem as minhas impressões sobre cada um dos filmes:

 

O Incrível Hulk

The Incredible Hulk

 

 

5 anos depois da adaptação ao grande ecrã comandada por Ang Lee, chega agora aos cinemas um novo filme que muito pouco tem a ver com o que lhe antecedeu. O Incrível Hulk não é uma continuação directa (actores, argumentista e realizador são diferentes) nem tão pouco um remake de Hulk. Seguindo a lógica de que os espectadores já estão familiarizados com as personagens e as suas relações, o filme reconta a origem do herói maldito da Marvel Comics (durante os créditos iniciais), permitindo que a história arranque mais rapidamente. Bruce Banner está no Brasil isolado daqueles que conhecia, embora mantenha contacto com um tal de Mr. Blue, de modo a encontrar uma cura. No entanto, o General Ross continua com os seus esforços para encontrar e capturar Banner, com o objectivo de utilizar o seu sangue contaminado de radiação gama para reactivar o programa do super-soldado, do qual o Capitão América é o resultado mais famoso (isto não é mencionado no filme, mas um pouquinho de cultura dos comics nunca fez mal a ninguém).

 

Apesar da narrativa se concentrar mais na acção do que no aprofundamento das personagens e das suas motivações, o filme consegue ter os seus méritos: Edward Norton surge bem melhor que Eric Bana no papel de amargurado Bruce Banner, desta vez há um vilão à altura da força e descontrolo do Hulk (Tim Roth, com uma loucura adequada ao papel) e a história consegue ser mais empolgante que no filme de 2003, que por vezes se arrastava demais. Quanto ao restante elenco as alterações não melhoraram grande coisa: Liv Tyler não é nenhuma Jennifer Connely (tanto em actuação e beleza) e William Hurt não consegue fazer esquecer o General Ross vivido por Sam Elliott.

 

Não tendo a complexidade do filme anterior, O Incrível Hulk consegue superá-lo num ponto que pareceu estar ausente em 2003 e que, porventura, foi decisivo na reacção fria que o filme recebeu aquando o seu lançamento: as sequências de acção são espectaculares e muito bem encenadas. Nada daqueles cortes rápidos e confusos em que não se percebe do que se passa (alguém disse Transformers?), com realce para o embate que se trava num jardim e para o clímax, que parecem saídas de uma história de quadradinhos. Aliás, todo o argumento parece uma boa revista de banda desenhada: sem rodeios, com tudo muito compacto e, o melhor, cheio de referências a personagens que povoam o mesmo universo das revistas (Tony Stark, o Homem de Ferro, aparece no final do filme, numa cena que é consequência directa daquela pós-créditos de Homem de Ferro).

 

Durante meses, andei a dizer que O Incrível Hulk seria um filme fraco que, não respeitando o anterior (o que não acontece, ele apenas é diferente) só teria razão de ser para suprimir as necessidades do público jovem, adeptos da acção descerebrada e vazia. Queimei a língua: o filme é um bom entretenimento e mostra que a Marvel Studios está mesmo determinada a acertar no alvo, agora que produz as adaptações das suas próprias criações.

 

Qualidade da banha: 14/20


 

O Acontecimento

The Happening

 

 

Ao contrário de O Incrível Hulk, andei meses a antecipar, com grandes expectativas, o novo filme de M. Night Shyamalan, que depois do horrível A Senhora da Água, parecia querer voltar ao género que melhor conhece e que lhe deu fama: o suspense. Voltei a queimar a língua: O Acontecimento vem provar que A Senhora da Água não foi um acidente de percurso e que o realizador/argumentista perdeu-se completamente. Narrando uma história em que um fenómeno estranho ameaça a costa leste dos Estados Unidos, cujos habitantes perdem orientação e suicidam-se em catadupa, o filme nunca consegue levar a sua óptima premissa a bom porto.

 

A primeira meia-hora é boa: toda a construção do suspense é muito bem feita e Shyamalan continua um mestre a filmar cenas tensas e de prender qualquer um na cadeira. Onde o homem falha mesmo é no argumento, que é povoado de personagens com a profundidade de um acetato (mal começa o filme, cada uma delas atira – este é o termo correcto – para o espectador todas as suas preocupações e problemas, de maneira falsa e maniqueísta) que, para piorar as coisas, só dizem coisas absurdas na situação em questão. Os diálogos do filme são, na sua maioria, de doer nos ouvidos: inócuos, ridículos, inverosímeis e disparatados. Destaque para a cena em que Mark Whalberg, totalmente perdido em cena, fala com uma planta (!) ou quando tenta, de forma infantil e risível, fazer ciúmes à sua esposa. Depois temos a montagem: dá a impressão que a película foi retalhada ao máximo, porque cada novo obstáculo que surge é mal desenvolvido (tudo é “resolvido” em pouco tempo) ou não é desenvolvido de todo.

 

O recurso utilizado em Sinais de fornecer informações às personagens (e ao espectador) através dos meios de comunicação não resulta aqui porque é usado até à exaustão. Já para não falar que as teorias levantadas pelos media não chegam a lugar algum (Acidente nuclear? Terroristas? Desastre ambiental?), servindo para quebrar o ritmo da narrativa e não para criar ainda mais tensão. Além do mais, qualquer pessoa com dois dedos de testa desvenda facilmente o que está por detrás dos estranhos fenómenos. Mas, se não chegarem lá, o filme apresenta toda a mensagem que deseja transmitir nas últimas cenas (uma entrevista televisiva e uma cena passada em França) para que ninguém saia da sala a dizer que não percebeu patavina. Foi-se a subtileza, restando o óbvio e o pretensiosismo de um cineasta que prometeu, cumpriu (um dos melhores filmes da década, O Protegido, é dele), mas deixou que o seu ego inchasse e que o sucesso lhe subisse à cabeça. Não era mal pensado que Shyamalan começasse a apostar em argumentos escritos por outros autores e investisse apenas na realização.

 

Qualidade da banha: 6/20

 

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publicado às 14:09



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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