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Ladra mas não morde

por Antero, em 19.02.10

 

Nas décadas de 30, 40 e 50, a Universal investiu numa série de filmes série B que apresentavam ao público seres monstruosos que fizeram as delícias dos espectadores e a fortuna do estúdio. Nos últimos anos, a onda de refilmagens tomou conta de Hollywood e a Universal foi ao fundo do baú acordar os seus Monstros Clássicos que agora contam com as mais recentes tecnologias de efeitos especiais para lhes dar mais realismo e acção. No entanto, o estúdio não sabe tratar bem a prata da casa: depois do divertido A Múmia, seguiram-se as inevitáveis (e intragáveis) sequelas chegando ao fundo do poço com o pavoroso Van Helsing. O Lobisomem não chega ao nível deste último, mas é uma diversão descartável. Não adianta refazer as coisas para o público do século XXI se não se vai acrescentar algo de novo a não ser efeitos digitais (que nem são nada por aí além).

 

Após uma fraca e dispensável introdução, O Lobisomem começa com a chegada de Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) à sua terra natal, para o enterro do irmão que foi assassinado em circustâncias estranhas. O ano é 1891 e estamos na Inglaterra vitoriana. Talbot decide investigar a morte do irmão apesar dos avisos do distante pai (Anthony Hopkins) e da aproximação à ex-futura cunhada (Emily Blunt) e depara-se com... um... vejam lá se acertam... lobisomem. Tão óbvio como aparecer um lobisomem no filme é o desenrolar da trama e com 10 minutos corridos eu já antecipava todos os acontecimentos que iriam ocorrer dali em diante - e qual não foi o meu espanto quando as revelações surgem a meio da película e não no final, o que poderia abrir novas possibilidades narrativas.

 

O que não acontece. Benicio Del Toro passa ao lado dos 100 minutos do filme: o seu Lawrence Talbot não percorre nenhum arco dramático envolvente, nem consegue se tornar numa personagem trágica, amaldiçoada (para além do óbvio claro). Nunca sabemos muito sobre ele nem o filme parece querer aprofundá-lo e não é de admirar que o seu romance com Gwen seja tão artificial e cliché. Por falar nela, Blunt faz figura de corpo presente numa mulher fraca que, em período de luto, não hesita em atirar-se aos braços do irmão do noivo após uma embaraçosa cena em que Lawrence lhe ensina a atirar pedras na água, ao passo que Anthony Hopkins não parece levar muito a sério o que está a fazer à frente das câmaras.

 

E é uma pena que ninguém tenha aprendido com Hopkins que o descompromisso só favorecia O Lobisomem e, em vez disso, temos uma obra que cai no ridículo com diálogos fracos ("Só o amor o salvará!") e cenas estúpidas como o inquérito do detective Alberline (ele desconfia imediatamente de Talbot porque este é...um actor consagrado!) ou quando determinada personagem rasga a camisa sem motivo aparente antes de uma luta feroz (resposta: para que o público pudesse identificar os intervenientes. Fica a dica para Michael Bay.). Assim, os pontos fortes de O Lobisomem são os seus aspectos técnicos como a fotografia escura e a fazer bom uso das sombras e dos tons cinzas e o design de produção que retrata a propriedade dos Talbot como um lugar decadente, sujo, sombrio, mas majestoso.

 

Quanto à maquilhagem usada para criar o lobisomem, esta é boa mas nada de excepcional, enquanto que a transformação (usando efeitos digitais e próteses) não causa impacto algum, embora nada se compare ao efeito do lobisomem a correr sobre 4 patas que é quase amador de tão artificial. Mais impactantes são os efeitos sonoros, mas pelas piores razões: nada como saber dar acordes altos em alturas fulcrais para que o espectador salte da cadeira, o que acaba por se tornar quase um exercício de sadismo tantas são as vezes que este recurso é usado para oferecer um susto falso (por outro lado, o filme não faz cerimónias quanto ao gore nas cenas mais violentas, o que é de louvar). Como se pode ver, O Lobisomem é um filme inconsequente e pouco envolvente, deixando ainda uma porta aberta a uma sequela de forma pouco subtil, o que me leva a pensar que não é a prata que mata esta fera mas sim a falta dela.

 

Qualidade da banha: 7/20

 

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publicado às 16:57



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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