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Para cima é o caminho

por Antero, em 15.08.09

 

Provavelmente o estúdio mais eficaz em Hollywood (o saldo é todo ele positivo), a Pixar Animation Studios estabeleceu um patamar elevado nas suas animações lançadas para o cinema, não sendo de todo injusto afirmar que a mesma ocupa agora o lugar anteriormente reservado aos clássicos dos estúdios Disney (que não lança uma obra-prima desde O Rei Leão). Alicerçada em produções cuja perfeição técnica é algo de secundário na arte de bem contar uma história, a Pixar consagra uma nova idade de ouro para a animação, com obras como Ratatouille,WALL·Ee Toy Story (1 e 2), sem também esquecer os excelentes Monstros & Companhia, The Incredibles – Os Super-Heróis, À Procura de Nemo e, os menos bons do curriculum, Uma Vida de Insecto e Carros. E é com pena que incluo o recente Up – Altamente! neste último grupo: apesar de plasticamente belo e de contar uma história comovente, o filme acaba por sucumbir à previsibilidade e à falta de rasgo por parte dos realizadores Pete Docter e Bob Peterson.

 

Logo a abrir, Up – Altamente! apresenta-nos ao jovem Carl Fredicksen que se delicia com as crónicas do explorador Charles Muntz. Esta admiração é partilhada com a excêntrica Ellie que se tornará a sua esposa por várias décadas até morrer de velhice. Sozinho e rezingão, Carl vê a sua casa ameaçada pela onda do progresso urbanístico (leia-se, arranha-céus por toda a parte) e decide levá-la para a América do Sul recorrendo a milhares de balões de hélio, satisfazendo um dos sonhos do casal. Involuntariamente, acaba por levar consigo o prestável (até demais) escuteiro Russel e ambos embarcam numa aventura que envolve cães falantes, aves raras e paisagens de sonho.

 

Começando pelo óbvio, o visual do filme é arrebatador: com uma palete de cores forte e vibrante, principalmente a partir do momento em que a América do Sul torna-se o centro da acção (o que faz um contraste exemplar com o cinzentismo da urbanização inicial), a Pixar revela todo o cuidado na concepção dos seus planos e das suas personagens, mesmo que a sua relevância seja reduzida. A título de exemplo, podem verificar a caracterização dos executivos das obras (que aparecem por poucos segundos), com as suas formas esguias e vestuário escuro, ressaltando, de forma económica, a impessoalidade das grandes corporações. Outro grande exemplo de economia narrativa é a montagem que mostra o passar das décadas e o envelhecimento do casal, onde, num único plano, ficamos a saber que Carl e Ellie não podem ter filhos. Neste aspecto, há que realçar a partitura de Michael Giacchino (do qual sou grande fã) que consegue passar de momentos alegres para outros mais melancólicos de forma natural e exibindo uma tremenda consistência ao longo de toda a narrativa. 

 

Mas é na composição das personagens que a Pixar esbanja todo o seu talento: rejeitando aquela tendência para as tornar as suas feições mais reais (o que tornaria tudo aborrecido), as personagens são desenvolvidas com traços que logo determinam a sua personalidade. Assim, Carl exibe uma face quadrada que revela o seu jeito inicialmente recatado e resmungão passado uns anos; Russel é retratado com traços mais arredondados que mostram uma certa insegurança infantil (que se revelará determinante no decorrer da história); Charles Muntz é como se fosse uma mistura de Errol Flynn e Howard Hughes octogenário, com a sua pose de aventureiro e magnata; e a postura fechada do doberman Alpha (que, com este nome, só poderia ser chefe da matilha) acaba por render momentos hilariantes devido à sua voz fininha e afeminada. E se isto não chega, resta dizer que o filme conta com óptimas sequências de acção e cenas de puro brilhantismo, como o momento em que Carl revê um álbum da esposa e torna-se impossível para o espectador não se comover com a angústia da personagem.

 

Por outro lado, é inegável que Up - Altamente! é um filme que não arrisca muito: ao contrário de obras como os já citados Ratatouille eWALL·E(e isto só para referir os mais recentes), Pete Docter e Bob Peterson revelam-se como realizadores que jogam pelo seguro, preferindo o divertimento em detrimento de uma complexidade maior da história. A trajectória de Carl é perfeitamente construída, mas o filme pisa terrenos já vastamente explorados, tornando-se previsível de acompanhar. Há a cena em que duas personagens se chateiam, uma delas reflecte sobre a sua nova situação e parte no encalço da outra. Não tenho nada contra estes artifícios, que até aparecem em praticamente todas as obras da Pixar, mas não há aqui um momento como o monólogo final de Ratatouille ou a impactante introdução deWALL·Eque eleve Up - Altamente! a outro patamar, embora nunca deixe de ser um filme divertido e muito melhor que as obras mais recentes da sua principal concorrente, a PDI (cuja irregularidade já se tornou imagem de marca).

 

Este decréscimo na qualidade é perfeitamente compreensível, uma vez que a Pixar não pode manter o nível das suas obras sempre nos píncaros. Acontece que a produtora nos habitou mal. E isto é o melhor elogio que se pode fazer a ela mesma.

 

Qualidade da banha: 16/20

 

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publicado às 23:48



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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