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Aonde nenhum Star Trek jamais esteve

por Antero, em 08.05.09

 

Nunca fui grande fã de Star Trek (ou O Caminho das Estrelas em Portugal): vi alguns episódios da série clássica, conheço Spock, Kirk, McCoy, alguma da mitologia, vi alguns dos filmes lançados no cinema, mas não me entusiasmei muito. Das séries mais recentes, o pouco que conheço foi através das longas-metragens, que pouco ou nada me cativaram. Caída em desgraça há já vários anos, a saga Star Trek ganha agora uma nova versão que praticamente começa tudo do zero, naquela velha lógica (Spock acharia Hollywood deveras interessante…) de baralhar e voltar a dar que, actualizando conceito e modernizando o aspecto, espera revitalizar alguma franquia e atingir as bilheteiras. Chamaram o novo Midas do audiovisual, JJ Abrams (LOST, Alias – A Vingadora, Fringe, Missão Impossível 3) que logo se declarou como pouco adepto da saga, estremecendo os fãs. No entanto, os argumentistas Roberto Orci e Alex Kurtzman, fãs declarados, fizeram com que este reboot fosse feito com o máximo respeito pelo legado da saga e é do conflito entre estas duas visões que nasce este novo e simplesmente intitulado Star Trek, cuja principal vantagem é ser acessível tanto aos fãs como todos aqueles que são alheios àquele universo.

 

O filme encena a juventude de Kirk, Spock e companhia, acompanhando a sua primeira missão da USS Enterprise e como todos eles foram promovidos aos seus cargos. No entanto, esta nova revitalização da saga não entra em desacordo com tudo o que foi mostrado anteriormente: a solução encontrada (que não vou revelar, mas já referida em vários artigos) revela-se engenhosa por permitir recomeçar a história e estabelecer novas possibilidades, sem atirar pela janela todo um universo cimentado em 4 décadas. Maior sinal de respeito com os fãs era impossível, ao mesmo tempo que o espectador desavisado tem uma porta aberta para entrar de cabeça naquele universo estranho que, acima de tudo, era um fenómeno de culto. Mais: o filme resgata todo o fascínio que sempre envolveu Star Trek, tornando-se fácil para o público médio identificar-se com toda a imensidão de naves espaciais, viagens em warp, teleportes, vulcanos e romulanos.

 

O argumento redefine a juventude Kirk e Spock, adicionando-lhes um arco narrativo de conflito pais/filhos (algo muito estimado por JJ Abrams e companhia) que resulta na perfeição por conferir novas dimensões a personagens já conhecidas, mas sem deixar de fora características típicas: Kirk continua fanfarrão (e Chris Pine interpreta-o com a adequada canastrice de William Shatner), McCoy sempre ansioso, Scotty o desvairado do costume, Uhura demonstra o bom senso e Pavel Chekov garante muitos risos com o seu sotaque carregadíssimo. Mas o mais beneficiado (actor e personagem) é Zachary Quinto como um Spock dividido entre a herança vulcana (via paterna) e a natureza humana (por parte da mãe), retraindo os sentimentos ao máximo em prol de uma postura serena e controladora. A costurar todos estes elementos, temos a realização de Abrams que imprime dinamismo ao filme, não deixando que nenhuma cena seja deixada ao acaso, revelando ainda segurança quando o assunto é a acção trepidante (algo já revelado em Missão Impossível 3).

 

Formado na televisão, Abrams percebeu que o cinema possibilita uma espectacularidade que a TV limita, sem com isso perder as rédeas à narrativa, que nunca se deixa deslumbrar pelos aspectos técnicos. Em poucos minutos, o público leigo é apresentado às características de cada uma das personagens, o que revela uma excelente aplicação de economia narrativa. A música do sempre óptimo Michael Giacchino dá o tom épico ao filme, alternando orquestrações majestosas com partituras mais íntimas. Porque Star Trek é, antes de mais, um filme de personagens: personagens conhecidas que se revigoram para as novas plateias e não é de estranhar que lá esteja Leonard Nimoy, como que a fazer uma passagem de testemunho a vários níveis: da sua personagem, dos fãs para os não-fãs, dos 40 anos anteriores para o século XXI. O filme só peca em algumas tentativas de humor infrutíferas e por dar pouco destaque ao vilão Nero (Eric Bana) que, no final, acaba por não ser aquela ameaça que prometia a início.

 

Porém, o melhor do filme é algo que deverá convencer os indecisos a assisti-lo: Star Trek é entretenimento de primeira água, uma daquelas aventuras que Hollywood parece ter perdido o condão de fabricar. A aventura, o romance, o humor e o suspense são de tal forma bem doseados que, a espaços, o filme atinge picos de excitação ao nível de Os Salteadores da Arca Perdida ou A Guerra das Estrelas. Contando com sequências de acção espectaculares e efeitos especiais irrepreensíveis, Star Trek é um hino à space opera capaz de cativar as massas para um género anteriormente cheio de chama e vigor, entretanto perdido para a artificialidade e os excessos da tecnologia. Fã ou não de Star Trek ou de ficção-científica, este novo capítulo da saga merece ser visto por toda a gente.

 

Ao final de Star Trek, com o tema da série a passar, não consegui deixar de imaginar os trekkies (fãs da saga) e os não-fãs em perfeita comunhão. Resultado: eu estava convertido e esperando ansiosamente pelas próximas aventuras.

 

Qualidade da banha: 17/20

 

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publicado às 12:21



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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