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O Estranho Filme de David Fincher

por Antero, em 19.01.09

 

 

É uma pena quando um filme no qual depositamos grandes esperanças acaba por nos deixar um gosto amargo na boca. Não me estou a referir àquelas decepções tremendas que apanhamos de vez em quando, mas sim quando encaramos que o saldo final é positivo, mas que podia ser melhor. Ou seja, quando uma obra não explora a fundo todo o seu potencial. E potencial era coisa que não faltava a este O Estranho Caso de Benjamin Button: uma história com tons de fantasia bastante promissora; um realizador consagrado (David Fincher), uma produção de altos valores e um casal de protagonistas apelativo (Brad Pitt e Cate Blanchett). No entanto, as opções narrativas questionáveis de Fincher aliadas a um argumento que mais parece um remake de Forrest Gump (Eric Roth escreveu ambos) com toques de O Grande Peixe de Tim Burton, acabam por amolgar bastante um filme que se pretendia arrebatador. Que não é, mas não deixa de ser um bom filme, capaz de levantar questionamentos intrigantes.

 

Benjamin Button é um indivíduo com uma grande particularidade: ele nasceu com o aspecto de um bebé com 80 anos e, com o passar do tempo, vai rejuvenescendo. Adoptado por uma família de negros em plena Nova Orleãs no fim da I Grande Guerra, ele atravessa vários momentos históricos do século XX (hello? Forrest Gump), envolve-se com várias personagens caricatas (Forrest Gump, ainda aí?), apaixona-se por uma mulher que o rejeita inicialmente (Forre… ok, já deu para perceber), sempre com a lógica inversa da sua vida a assombrar-lhe. A história é entrecruzada com outra situada em 2005 (durante o Furacão Katrina), na qual a tal rapariga, Daisy Fuller, está às portas da morte e relata à filha (com a ajuda de um diário) toda a fábula de Button. E se acham que isto pouco terá relacionado com O Grande Peixe, resta dizer que mãe e filha não são muito ligadas e a ocasião é aproveitada para resolver zangas antigas.

 

Enquanto as cenas do hospital vão quebrando o ritmo da narrativa principal, Fincher decide adoptar um tom enfadonho em boa parte do filme: as situações sucedem-se de forma pouco equilibrada e enquanto há algumas que são prazerosas de assistir (como o encontro com Elizabeth Abbott na antiga União Soviética) outras já surgem desnecessárias e burocráticas, como o regresso a casa de Button e o encontro com o pai biológico doente. Aliás, a realização de David Fincher – apesar de sensível em boa parte do tempo – não demonstra a garra que o fez famoso e em apenas um momento da projecção, quando Button relata várias situações hipotéticas que poderiam ter evitado uma tragédia, é que se vê o verdadeiro Fincher à solta. Outro grande mal do filme é a sua previsibilidade e tremenda falta de emoção nos momentos finais: há uma reviravolta no terceiro acto do filme que qualquer um adivinha aos 5 minutos de filme e o final acaba por ser um pouco anti-climático na resolução que dá à personagem principal.

 

Ainda assim, O Estranho Caso de Benhamin Button consegue dar a volta por cima graças a inúmeros factores, a começar pela brilhante caracterização e aos subtis efeitos especiais que levas as personagens desde a juventude à velhice de forma totalmente credível. O argumento levanta também vários questionamentos sobre a vida e a condição humana: qual o efeito do tempo nas nossas vidas? Devastador? Positivo? Será a morte a única certeza que temos na vida? Porquê amar um semelhante se este é um sentimento que, mais tarde ou mais cedo (com rompimento ou morte), terá sempre um fim doloroso? Vale a pena apegarmo-nos às pessoas e aos locais, sabendo que tudo isso é efémero? E convém perceber que Button mesmo sendo uma anomalia que contraria a passagem comum do tempo, acaba por ficar preso às leis da passagem do mesmo (ele, eventualmente morrerá, só que morrerá jovem), algo salientado no momento em que é baptizado pela mãe adoptiva e no qual se ouvem as badaladas de um relógio ao longe (aposto que este detalhe passou ao lado de muita gente). Mesmo assim, o filme defende que a sua trajectória não é muito diferente das restantes pessoas: no início da sua vida ele está completamente dependente de outros (e a sua inserção numa casa de abrigo para idosos realça o efeito que o tempo tem na vida das pessoas – interna e externamente); ele vai descobrindo e ficando encantado com o mundo ao seu redor nos primeiros anos; sai para trabalhar longe de casa no final da adolescência; e por aí vai.

 

Toda esta trajectória é retratada com imensa competência por Brad Pitt que, sob quilos e quilos de maquilhagem, consegue transmitir toda a inocência infantil de Button, bem como a transição para uma postura mais madura, introspectiva e sabedora com o decorrer dos anos. Cate Blanchett também está óptima como de costume no papel de Daisy Fuller, embora ela só se destaque mesmo numa fase mais avançada do filme, quando a sua personagem revela o peso dos anos e de tudo o que passou e passa a dedicar a sua vida a um jovem Benjamin Button. O restante elenco é excelente, principalmente pela pequena, mas marcante, prestação de Tilda Swinton como Elizabeth Abbott que se torna na materialização da mensagem do filme: não deixar que o tempo limite os nossos alcances, as nossas capacidades, no fundo, a nossa vida. O Estranho Caso de Benjamin Button é, desta forma, um filme que faz jus ao adjectivo do título: tematicamente, é fabuloso; narrativamente, é um objecto falho.

 

Qualidade da banha: 13/20

 

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publicado às 18:35



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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