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Admirável cegueira

por Antero, em 18.11.08

 

Nota prévia: não li a obra de José Saramago na qual o filme se baseia, logo não posso estabelecer um termo de comparação entre a obra cinematográfica e a obra literária. Embora eu não considere isto um factor que me impeça de analisar o filme, assim como tal não me impediu de apreciar ou repudiar obras como O Senhor dos Anéis, a saga Harry Potter ou O Código Da Vinci.

 

Uma epidemia inexplicável começa a alastrar numa cidade qualquer: as pessoas deixam de ver e passam a sofrer de uma "cegueira branca". Lidando com um mal altamente contagioso e vendo o país a mergulhar no caos, o Governo decide conter a doença enviando os doentes para camaratas isoladas sob regime de quarentena. Este é o mote de Ensaio Sobre a Cegueira, adaptação a cargo de Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O Fiel Jardineiro) que se revela a escolha adequada para a realização: nas suas mãos, o filme transforma-se numa bela e, por vezes, dura metáfora sobre a sociedade actual. Se fosse um tarefeiro qualquer de Hollywood a comandar este projecto, de certeza que veríamos um filme que explicaria de forma (pouco) científica a origem da cegueira e que incluiria uma resolução para a mesma que se cruzasse com o arco narrativo da personagem de Julianne Moore, que é o centro do filme e o elo de ligação com o espectador.

 

No universo de Ensaio Sobre a Cegueira, as personagens não têm nomes: Julianne Moore é a Mulher do Médico que acompanha o marido (Mark Ruffalo) para as camaratas, embora ela não seja atingida pela epidemia e lá testemunhará um quase campo de concentração moderno. A eles juntam-se um cego, uma mulher que anda sempre de óculos escuros, um miúdo que não sabe da mãe, um casal oriental, um ladrão e muitos outros indivíduos numa clara comprovação que a sociedade encara (e ajuíza) os seus membros segundo estereótipos, relegando as suas particularidades para segundo plano. Esta é a verdadeira "cegueira" do mundo actual, muitos antes da cegueira (literal) que assola aquelas personagens: a incapacidade de estabelecer um vínculo genuíno entre os seus pares, torna o Homem num ser estranho no seu próprio habitat. Não é por acaso que o filme contém duas belíssimas cenas (a da chuva e a do banho partilhado pelas mulheres) em que se advoga a comunhão estabelecida entre aqueles sujeitos que, apesar de tudo, conseguem ver para lá da cegueira.

 

Meirelles, aliado ao seu director de fotografia habitual César Charlone, mergulham o filme num contraste entre planos secos e brancos e outros mais escuros e instáveis (como nas cenas passadas na camarata 3), recorrendo ainda a planos desfocados para permitir que o espectador se sinta na pele das personagens. As interpretações são excelentes, a começar por Julianne Moore que revela gradualmente a transformação que se opera na sua personagem, passando da preocupação inicial com o marido até se tornar responsável por muitos companheiros das camaratas. Mark Ruffalo também confere grande intensidade ao Médico, principalmente nas cenas tocantes em que refere que vê o seu papel como Homem ser reduzido a nada (neste ponto, Ensaio Sobre a Cegueira também pode levar a discussões sobre o feminismo, uma vez que é uma mulher que guia aquele conjunto e serve de mãe, confidente, amante, presta cuidados e que os inspira a lutar). Porém, o grande destaque a nível de interpretações - e aposto que passou ao lado de muita gente - é o casal oriental interpretado por Yusuke Iseya e Yoshino Kimura que se destacam pela relação tocante entre ambos e que será posta à prova num dos momentos mais angustiantes da película (quem viu sabe qual é).

 

De salientar também a direcção de arte que não mede esforços em mostrar, sem eufemismos, a degradação que vai tomando conta do abrigo como reflexo do interior das personagens e, principalmente, quando a acção se desvia para a metrópole deserta e caótica, onde os cegos deambulam como se fossem mortos-vivos. Mas nem tudo é perfeito e o grande defeito do filme reside na personagem do Velho da Venda Preta que surge desperdiçado e cujas narrações soam intrusivas, redundantes e gratuitas (pelos vistos, houve muita película a ficar no chão da sala de montagem). E isto é decepcionante porque, pelo que li por aí, a sua personagem é deveras importante no livro e o seu envolvimento com outra parece surgir do nada (isto no filme). De qualquer das formas, há algumas pontas mal explicadas no filme, como por exemplo o abandono da região e o aparente descaso da comunicação social com a situação de quarentena. Mas nada que estrague o resultado final. Ensaio Sobre a Cegueira não é um filme para todos. Mas aqueles que conseguirem olhar para lá do choque e da provocação, vislumbrarão uma mensagem nobre e um filme belíssimo. Lá está: a diferença entre ver e ver.

 

Qualidade da banha: 16/20

 

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publicado às 18:25



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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