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Pólvora seca

por Antero, em 17.10.08

 

Se há género cinematográfico que ainda deve uma obra decente à Humanidade, esse é o das adaptações de jogos de vídeo. Se bem que eu acho que nem umO Cavaleiro das Trevasconseguiria apagar um repertório com lixos como Super Mário Bros., Street Fighter - O Filme, Lara Croft: Tomb Raider, a trilogia Resident Evil ou as empreitadas de Uwe Boll (e estes são os que me lembro por agora). Vai daí, as minhas expectativas para adaptação do jogo Max Payne não era as melhores. E sabem que mais? Eu estava totalmente certo! Contando uma história sem pés nem cabeça, Max Payne (o filme) é mais uma nódoa no tecido tremendamente manchado das adaptações cinematográficas dos jogos de vídeo.

 

A história é bastante fiel ao jogo (que nunca joguei, nem faço questão): Max Payne é um detective do departamento de casos arquivados da polícia de Nova Iorque que há 3 anos procura o verdadeiro assassino da sua esposa. Numa das suas buscas, ele encontra Natasha que é brutalmente assassinada e Max é indiciado como principal suspeito. Então ele une-se a Mona Sax, irmã de Natasha, e tenta resolver o estranho homicídio que parece ter relação com a morte da sua esposa. Ambos vão enfrentar a polícia, a máfia e uma corporação que poderá ser a base de tudo. Para início de conversa, como pode Max Payne andar completamente em liberdade se é o principal suspeito da morte de Natasha e fica bem claro que ninguém morre de amores por ele na polícia? Mas também o que podíamos esperar de uma força policial que conta nas suas fileiras com um detective que diz a Max que "tudo, mesmo tudo!" foi investigado por si sobre o assassínio da sua esposa e só 3 anos depois é que repara numa tatuagem significativa que a mesma tinha no pulso e que se assemelha à da vitíma mais recente (e o porquê da senhora Payne ter tal tatuagem é deixado ao acaso a meio do filme).

 

Mas isto é o menos: o filme começa a meter os pés pelas mãos quando desenvolve toda a conspiração, cujo cerne é uma droga inovadora que - vou tentar não rir ao escrever isto - confere maior confiança aos soldados, por estes se acharem protegidos por anjos nórdicos. Só mais tarde é que descobri que esta droga também já fazia parte do jogo, mas o modo como ela é apresentada no filme (através de um vídeo de arquivo) é tão estapafúrdia e involuntariamente cómica por Amaury Nolasco (o Sucre de Prison Break) que, confesso, cheguei a pensar que ele iria interromper a gravação e dizer: "Estava a brincar, podemos repetir?". Já para não falar que a tal droga confere habilidades sobre-humanas a quem a toma, só que isto não é referido em lado nenhum, uma vez que o filme apenas se refere à mesma como oferecendo "mais moral" (hahahaha!). As reviravoltas do argumento também são previsíveis, o que torna tudo muito aborrecido. E se acham que, pelo menos, as cenas de acção compensam, pensem novamente: todas somadas mal devem passar dos 10 minutos.

 

A completar o ramalhete temos a realização inepta de John Moore, cujas soluções visuais e enquadramentos são de fugir, a começar pelo pavoroso "Uma semana antes" que surge na fachada de um edifício logo no início (vá lá que não repetiu mais a gracinha). Mergulhando Nova Iorque num Inverno rigoroso do qual poucos parecem se importar com isso e recorrendo a batidos e nada estilosos planos em slow-motion, John Moore usa e abusa das sombras para dar um tom noir tal como no jogo original, sendo que os flashbacks da esposa de Payne são imensamente iluminados e em tons mais quentes, num contraste óbvio entre o amor da família e o negrume actual. Porém, o atestado de incompetência do realizador é uma cena em que um atirador surpreende Max Payne por trás e desata a disparar. A composição dos planos é tão mal feita que o atirador falha o alvo (embora pareça que vai atingi-lo) e acerta num monte de frascos que parecem estar a muitos metros de distância de Max que, desta forma, escusava fazer aquela ridícula pirueta para matar o inimigo. Bastava virar-se normalmente e atirar na cabeça do infeliz dotado de péssima pontaria.

 

Poupadinho na nudez e na violência para conseguir uma classificação etária mais baixa e daí ter maior viabilidade comercial, Max Payne ainda tenta desesperadamente fazer uma crítica à indústria farmacêutica e aos militares norte-americanos mas, como o triste do parágrafo acima, atira muito ao lado. Pelo menos numa coisa o filme acerta em cheio: na carreira de Mark Wahlberg que, pelasegunda vezno mesmo ano, leva com um tiro certeiro. E este, meus amigos, não foi de pólvora seca.

 

Qualidade da banha: 4/20

 

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publicado às 17:36


5 comentários

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De Maximiliano Pena a 20.10.2008 às 14:45

"A história é bastante fiel ao jogo (que nunca joguei, nem faço questão)"

Lol?

O resto também é lol, mas isto foi mais lol.

Lol.
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De Antero a 20.10.2008 às 15:38

Antes de mais, obrigado pela visita e pelo comentário. Quanto ao excerto que recolheste do meu texto, sabes como sei isso? Da mesma maneira que tu viste cá parar e fizeste um comentário: Internet. Ainda bem que achaste o meu post um tremendo "Lol". É que eu achei o mesmo do filme, embora essa não fosse a função dele...
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De Marques Paím a 20.10.2008 às 19:43

Eu cá discordo do senhor Maximiliano. A frase que apontou não foi a que mais lol forneceu. Todo o artigo é revelador de uma profunda incompreensão do filme.

Vejamos:

"só 3 anos depois é que repara numa tatuagem significativa que a mesma tinha no pulso e que se assemelha à da vitíma mais recente (e o porquê da senhora Payne ter tal tatuagem é deixado ao acaso a meio do filme)."

Lol.

"uma droga inovadora que - vou tentar não rir ao escrever isto - confere maior confiança aos soldados, por estes se acharem protegidos por anjos nórdicos."

Lol.

"Já para não falar que a tal droga confere habilidades sobre-humanas a quem a toma, só que isto não é referido em lado nenhum, uma vez que o filme apenas se refere à mesma como oferecendo "mais moral" (hahahaha!)."

Lol.

"Max Payne ainda tenta desesperadamente fazer uma crítica à indústria farmacêutica e aos militares norte-americanos"

Lol.

Resumindo, lol.

É capaz de haver mais lol, mas tenho fome e vou jantar.

Boa noite, senhor Monteiro.

Lol.
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De Tanbark a 20.10.2008 às 20:00

Eu até percebo que não se goste do filme, mas há algumas incongruências nesta análise.

1- A tatuagem não era da mulher do Max Payne, mas sim de um dos assassinos da mulher que ele abateu.
2 - A droga é verdade que retira os medos e dá mais confiança (nada que muitas das drogas actuais já não façam), mas em lado algum é mostrado que confere poderes sobre-naturais.
3 - Vir falar de slow-motion em Max Payne é muito cómico, uma vez que esse era um dos grandes atractivos do jogo. Até acho que o realizador teve o cuidado para não entrar no exagero de cenas em slow-motion. Apesar disso é verdade que aquela situação do atirador é idiota.
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De Antero a 20.10.2008 às 20:39

Acho que é a primeira vez que sou tão criticado por causa de um filme, mas se isto resultar numa discussão saudável não há qualquer problema. Vamos por partes e de maneira a responder a todos:

Slow-motion: eu só escrevi que eram batidos (e câmara lenta no cinema de acção hoje em dia está mais que gasta) e pouco estilosos, principalmente nessa cena do atirador. Não critico o recurso à mesma como homenagem, reclamo, isso sim, de como a mesma foi utilizada. Querem um exemplo de um realizador que usa e abusa do slow-motion com estilo? John Woo. Querem um filme recente que usa e abusa do slow-motion com estilo? Wanted - Procurado.

Drogas: o Max Payne toma uma dose depois de sair do rio gelado e, pouco depois, leva com uns tiros em cheio na sequência da sede da tal indústria (lembro-me que um deles foi na zona do abdómen), mas continua a correr e a disparar como se nada fosse. Essa minha frase foi irónica e, relendo o texto, entendo que a tenham percebido erradamente.

Tatuagem: de certeza que não era ela? Eu duvido. Além do mais, lembro-me do braço e do pulso como se fosse de uma mulher, mas admito que aqui possa estar enganado.

Criticas à indústria e aos militares: mulher de Max Payne descobre segredos sobre uma grande corporação e é morta? Esse segredo refere-se a um medicamento para ajudar militares em campo? Militares descontrolados e que devem ser parados? Tudo certo e tudo muito mal desenvolvido no filme. Pressinto uma tesoura desgovernada na sala de edição.

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Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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