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A Gaiola Dourada

por Antero, em 29.08.13

 

La Cage Dorée (2013)

Realização: Ruben Alves

Argumento: Ruben Alves, Hugo Gélin, Jean-Andre Yerles

Elenco: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Maria Vieira, Jacqueline Corado, Jean-Pierre Martins, Alex Alves Pereira

 

Qualidade da banha: 

 

Êxito surpresa em França e a caminho de se tornar o filme mais visto em Portugal este ano, A Gaiola Dourada deve o seu sucesso ao olhar simpático que dirige à comunidade portuguesa por terras gaulesas (e que, de certa maneira, reflete a maior parte da diáspora portuguesa) ao seguir as peripécias de uma série de personagens que, mesmo com as suas peculiaridades, nunca soam como meros artifícios para provocar o riso. É a doçura com que Ruben Alves encara aquele universo que faz com que a narrativa ressoe junto do espectador e torne a película numa agradável experiência.

 

Escrito pelo próprio realizador ao lado de dois colaboradores, A Gaiola Dourada foca-se em Maria (Blanco) e José (Almeida), um casal de portugueses emigrados em França há mais de três décadas. Ela trabalha como porteira num condomínio de uma bairro de Paris e ele trabalha como construtor civil e ambos são vistos pelos patrões e pela família como pessoas trabalhadoras e humildes. Quando recebem a notícia que José herdou uma quinta no Douro, o casal vê o sonho de regressar a Portugal e viver uma vida desafogada mais perto da realidade. No entanto, a decisão deles encontrará vários obstáculos: a irmã de Maria pretende abrir um negócio com ela, a filha do casal começou a namorar com o filho do patrão de José e ninguém no condomínio quer perder os seus valiosos zeladores.

 

Com uma galeria de personagens que abraçam todos os estereótipos atribuídos aos emigrantes, A Gaiola Dourada não permite que estes clichés os definam por inteiro: o filme até transmite a ideia de que são os próprios visados que fomentam esta ideia (os jogos de cartas, o Fado, o futebol, o bacalhau, o jogo da malha), mas não permite que estes resvalem para a caricatura, usando-os a favor da história ao evitar que estes se tornem o centro absoluto da narrativa. Da mesma forma, Ruben Alves delineia os traços gerais das personagens com imensa economia: quando a herança lhes cai do céu, José e Maria mal perdem tempo a idealizar um regresso a Portugal e imediatamente começam a pensar nas implicações que a saída de Paris traria aos demais – o que demonstra o pragmatismo do casal. Ao mesmo tempo, quando José e Maria recebem os compadres num divertido jantar que indica a perceção equivocada de ambas as famílias, José mal consegue disfarçar o desconforto por receber o chefe de trinta anos em sua casa – o que, mais uma vez, dá a entender toda uma vida dedicada à condição de subalterno sem praticamente mostrar nada (neste ponto não posso deixar de referir o hilariante momento em que Solange decide consultar a Wikipedia para se preparar para o referido jantar com a família portuguesa, o que revela o caráter sem noção da sujeita – como se ler um website substituísse a aprendizagem de uma cultura nacional).

 

O elenco do filme é certeiro e injeta imenso coração na história: Rita Blanco, a mais completa das atrizes nacionais, retrata todo o carinho de uma mulher devotada ao trabalho e à família ao mesmo tempo que deixa transparecer uma certa confusão despoletada pela situação; Joaquim de Almeida surge à vontade no papel de pai de família modesto e orgulhoso; Chantal Lauby rouba todas as cenas em que aparece como a despassarada Solange e o resto do elenco composto por franceses e luso-descendentes faz um bom trabalho ao tornar aquela galeria de indivíduos cativantes e minimamente interessantes. Enquanto isso, o design de produção faz um trabalho discreto mas competente: reparem como a casa dos Ribeiro está desprovida de grandes luxos ou espaços amplos como as demais do prédio, mas evoca uma familiaridade e um calor humano mais do que apropriado àquela família – sem esquecer as janelas que estão protegidas com uma grade exterior, o que faz um belo e curioso reflexo do título do filme.

 

No entanto, nem tudo são rosas: a simplicidade da história acaba por jogar em desfavor, já que esta se mostra sem grandes ambições – uma constatação que surge nalguns tópicos desaproveitados ou abandonados a meio como o facto de Pedro ter vergonha da sua ascendência portuguesa ou a discussão que Paula tem com os pais no tal jantar se encerrar com uma ação grave por parte de José que não gera grandes consequências. Além disso, o argumento investe numa zanga absurda entre Paula e o namorado que era resolvida com duas frases, mas que é usada para criar um conflito artificial que os separe e torne a reunir no fim da projeção. Nada disto se compara, porém, à gratuita e embaraçosa participação especial de Pauleta (sim, esse Pauleta!) que, com meros dois diálogos, prova que como ator é um excelente futebolista.

 

Relativamente curto e ágil nos seus pouco mais de 90 minutos, A Gaiola Dourada não é mais do que uma comédia de situação povoada por seres que provocam imediata empatia no público e que traça um retrato sensível e amigável sobre os emigrantes. Não é nenhuma obra-prima, mas isso também não lhe era pedido.

 

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publicado às 00:16


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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