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Zombies iguais a tantos outros

por Antero, em 29.11.11

 

The Walking Dead - temporada 1

A Noite dos Mortos-Vivos. The Evil Dead. Morte Cerebral. 28 Dias Depois. O Renascer dos Mortos. Shaun of the Dead. [REC]. Zombieland. O que é que estas obras (e são as que me lembro de cabeça) têm em comum? Todas, de uma maneira ou de outra, souberam aproveitar as características dos "filmes com zombies" para temáticas mais adultas, para fins cómicos ou mesmo para exercícios de terror absoluto. Todos eles, à sua maneira, são bons exemplares do subgénero.

 

The Walking Dead, série transmitida no canal por cabo AMC (de Mad Men, Breaking Bad e The Killing), pega numa misturadora e enfia lá dentro todos os exemplos supra citados. O resultado, como não podia deixar de ser, soa tudo menos fresco e inovador. Inspirada por uma banda desenhada, a série mostra-nos a cidade norte-americana de Atlanta mergulhada no caos e infestada de comedores de carne viva. Rick Grimes é um polícia que acorda de um coma de vários meses (hello?! 28 Dias Depois!) e vê-se num mundo pós-apocalíptico onde a sua maior preocupação (para além de manter-se vivo) é encontrar a sua família que, por sua vez, sobrevive num acampamento improvisado fora das grandes urbanizações com outros sobreviventes.

 

Produzida por Frank Darabont, The Walking Dead chupa todos os elementos conhecidos destes filmes e adapta-os para o pequeno ecrã com resultados irregulares: se os aspetos técnicos são louváveis (nomeadamente, a caracterização dos zombies) e o investimento em cenas de violência gráfica ser mais do que adequado, o grupo de sobreviventes parece obedecer a todas as regras estabelecidas e gastas. Há o líder, o conflituoso, a esposa sofredora, o cretino, o rapaz prodígio (e asiático), o velho paternalista, as irmãs inseparáveis e mais um monte de gente que ou servirá de comida para os mortos-vivos ou ganhará mais destaque adiante mesmo que tenha passado os episódios anteriores em branco.

 

A primeira temporada, composta por míseros 6 capítulos, já dá o mote da série: espécie de road zombie movie, vemos aquele grupo de dinâmica formulaica a lutar pela vida em diferentes cenários que tentam ocultar o facto de que nada de especial acontece – e quando a história está prestes a arrancar de vez (como com a chegada ao Centro de Controlo de Doenças), voltamos à estaca zero sem que nos seja dada alguma informação que não puséssemos deduzir por nós próprios (como o processo de "infeção" nos humanos). Só quem nunca viu meia dúzia de filmes de zombies é que se impressiona com The Walking Dead.

Pelos vistos, a migração dos mortos-vivos para o pequeno ecrã não foi lá grande ideia.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 01:07

Fringe: integração

por Antero, em 21.11.11

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

Fringe 4x07: Wallflower

É uma pena que Fringe se despeça de 2011 com um episódio que, lá por ter os seus méritos, empalidece se comparado com o rastilho acendido no anterior. Quando suponhamos que a narrativa iria dar prioridade a Peter e ao seu "regresso" a casa, Olivia é posta novamente no centro das atenções e Peter e Walter são deixados em segundo plano. É certo que este não seria o capítulo final antes das férias (devido à pausa prolongada por causa dos jogos de basebol), mas sim o próximo que promete ser bombástico (eu vi a promo) e volta a trazer o outro lado para a ação.

 

Centrado na investigação sobre uma ex-cobaia da Massive Dynamic com predisposição genética para se tornar invisível, Wallflower mostra-nos Eugene, uma personagem cuja história era tão curiosa quanto trágica e, à sua própria maneira, romântica – afinal, ele só queria ser visto. No meio do caso, Lincoln luta para se integrar e conviver saudavelmente com tantas coisas bizarras do seu trabalho, Peter vê-se no epicentro das desconfianças ao ser encarado como um Evento Fringe e uma Olivia ligeiramente mais distante da que conhecemos sente-se incapaz de se envolver emocionalmente e suspeita que isso possa ser um efeito colateral dos testes de cortexiphan levados a cabo por Walter e William Bell.

 

Eugene quer amar e ser visto; Olivia quer amar e ser alguém. Curiosamente, ambos são criações indiretas da Massive Dynamic. No final, ficamos a saber que Nina Sharp, a pessoa em quem Olivia mais confia, tem uma agenda oculta para com a sua protegida e que esta remete a injeções decortexiphanadministradas à revelia dela (daí as suas enxaquecas). Walter chegou a frisar que a substância não era eficaz em adultos, o que justificava os testes em crianças e os seus cérebros em desenvolvimento. Agora, com Olivia a ser injetada em adulta, as vantagens (se é que as há) poderiam passar pelo crescimento de outras capacidades que não apenas a de viajar entre universos sem riscos (o que poderá ajudar Peter no futuro). E qual o papel de Nina no meio disto tudo?

 

Respostas só em Janeiro. Até 2012.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 23:15

A Saga Twilight: Amanhecer - Parte 1

por Antero, em 17.11.11

 

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1 (2011)

Realização: Bill Condon

Argumento: Melissa Rosenberg

Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Billy Burke, Peter Facinelli, Nikki Reed, Elizabeth Reaser
 

Qualidade da banha:

 

Eu tentei, juro que tentei. Enchi-me de boa vontade e dirigi-me ao cinema para ver o novo Twilight. Estava disposto a esquecer que o primeiro filme não tem grande história, que nosegundonão acontece nada de especial e que oterceiroé uma repetição do anterior. Queria deixar para trás o insosso triângulo amoroso formado por Edward-Bella-Jacob, a impressão que as interpretações são da escola Madame Tussuad, as imbecilidades da narrativa criada por Stephenie Meyer e a falta de tensão dos capítulos anteriores. Afinal, Bella (Stewart) e Edward (Pattinson) casam-se, vão de lua-de-mel e voltam com um rebento por nascer que, gerado por uma humana e um vampiro, ameaça não só o mundo destas criaturas, mas também a trégua firmada com os lobisomens. Eu esforcei-me, a sério, mas Amanhecer - Parte 1 voltou a confirmar-me o porquê de Twilight, a saga onde pouco acontece, ser um poço de mediocridade.


Dividido em dois tomos sem razão aparente que não aquela de incrementar o lucro (uma decisão que funcionou nos últimosHarry Potter), Amanhecer - Parte 1 é o tipo de disparate que demora duas horas a contar uma história simplória que facilmente era arrumada num terço do tempo. O filme comete os erros de sempre: Bella, a nossa heroína, anda sempre nervosa e com ar depressiva, como se estivesse prestes a ter uma quebra de tensão, e isto no dia do próprio casamento! Sempre desconfortável ao lado de Edward, o amor da sua vida, Bella é interpretada por Kristen Stewart com a já costumeira falta de alegria e de vida que faria Vítor Gaspar soar como João Baião. Não que eu a censure: o agora marido pode ser bastante carinhoso (ainda que pouco articulado para alguém que já viveu mais de um século), mas logo dá sinais da sua habitual agressividade e machismo, chegando a ser desagradável com a moça e entrando numa espécie de transe quando a gravidez começa a correr mal (aquele pequeno problema mensal que levantei no texto sobreLua Novaestá resolvido).

 

É aí que entra o terceiro vértice do triângulo: Jacob (Lautner), praticamente irreconhecível com a t-shirt vestida na maior parte do tempo. Possessivo e obcecado ao extremo (o protótipo do amor incondicional, segundo as jovens fãs), ele passa o filme com o seu olhar de adolescente birrento que até tem direito a uma cena na qual desfaz-se do convite de casamento e, à chuva, foge sem destino... e sem t-shirt (isto com um minuto de filme). Sim, a forma física do rapaz é invejável, mas eu preferia admirar a sua forma artística e que ele debitasse os diálogos com o mínimo de convicção. No entanto, isto seria pedir muito, já que os diálogos são profundamente risíveis e tragicamente pastosos e creio que nem Peter O'Toole conseguiria imprimir o mínimo de elegância à narração que acompanha a ridícula cena em que Jacob confronta o bebé recém-nascido e... não, não vou revelar o que acontece. Basta referir que a mesma, em toda a sua grandiosa lamechice, quase vale o preço do bilhete.

Deixando de lado a metáfora da abstinência sexual, Amanhecer - Parte 1 leva uma eternidade a preparar a noite de núpcias do casal e, quando o momento chega, temos direito a menos que nada e logo Edward recusa os avanços de uma Bella acabada de descobrir a sua própria sexualidade. A conclusão deprimente é que a saga promove a necessidade "imperativa" de se praticar a abstinência (sexo é perigoso!) e, mais tarde, torna-se descaradamente antiaborto, numa continuação temática da punição pela quebra da castidade, apesar das personagens terem feito tudo após o casamento, como mandam os "desígnios", e esperarem três filmes (e ele 100 anos) pelo momento. O que esperar, porém, de uma narrativa que atraiçoa as suas personagens quando os vampiros já nem brilham à luz do Sol, desrespeitando uma das (estúpidas) regras estabelecidas anteriormente?

 

Inexplicavelmente atraído para este projeto, Bill Condon (dos ótimos Deuses e Monstros e Relatório Kinsey) vê-se obrigado a trabalhar com uma classificação etária que limita uma abordagem mais adulta e gráfica, como a história exigia. Além disso, o seu despreparo com efeitos visuais é notório: os lobisomens são impecáveis quando estáticos; quando se movem soa tudo falso, pouco fluido e as lutas são de difícil compreensão devido a uma montagem sem nexo que sabota até a sequência do parto, cuja tensão é inexistente. Pior é perceber que ele não soube aproveitar as (poucas) boas ideias presentes no texto como o cerco infligido à família Cullen e a míngua a que foram sujeitos pela falta de sangue ou facto de uma integrante do clã de Jacob estar insatisfeita com a pessoa que lhe foi "destinada". Até o Rio de Janeiro é desaproveitado aqui, com uma daquelas panorâmicas que devem ter sido emprestadas pelo arquivo da Rede Globo e a banda sonora, tanto a incidental como a selecionada, tira qualquer um do sério pela sua constante intrusão e obviedade (não há um momento sem música no filme!).

 

Absurdamente superficial e entediante para uma história de contornos mais sombrios, Amanhecer - Parte 1 espera que comecemos a nos preocupar com a chata da Bella, o bronco do Edward e o louco do Jacob quando três filmes falharam completamente nessa tarefa. O único indivíduo de quem realmente nutro pena é o sensato pai de Bella e não pela sua dor pela ausência da filha, mas sim pela constatação que ele criou e sofre por uma rapariga tão frágil e insignificante.

 

Nem tudo é mau: falta um. Por outro lado, ainda falta um.

 

PS: há uma cena importante durante os créditos finais.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 20:02

A Seleção de alguns de nós...

por Antero, em 16.11.11

Olhando para trás, a escolha de Paulo Bento para suceder o Carlinhos na... errr... liderança da Seleção Nacional foi o melhor que podia ter acontecido: numa situação delicada quanto ao apuramento para o Euro 2012, exigiam-se pontos e rápido. Ora, poucos treinadores portugueses conseguem ser tão pragmáticos e disciplinadores (para o bem e para o mal) como Bento, habituado a trabalhar com recursos limitados (quatro épocas seguidas naquele Sporting não foram por obra e graça do Espírito Santo) e a conseguir bons resultados ainda que à custa de bom futebol.

 

Hoje não houve nada disso: Portugal goleou, jogou muito bem, dominou, humilhou, deu recital, deu para Postiga bisar (!) e está no Europeu depois de fazer picadinho destes pobres bósnios que, esforçados, nunca pareceram ter arcaboiço para a Seleção (nem lá, nem cá). É certo que Bento não terá a exclusiva culpa de Portugal ter ido parar ao play-off, mas uma derrota hoje (ou um empate) seriam da sua inteira responsabilidade – e ver um crápula como Amândio de Carvalho afirmar o contrário causa repulsa, mas não surpresa, pela pessoa em questão. Eu percebi a ideia de querer aliviar a pressão sobre os jogadores e o selecionador, mas não seria necessário ginástica mental para imaginar possíveis situações onde o verme iria morder a língua caso a coisa desse para o torto, como já aconteceu. O silêncio ainda é de ouro.

 

É isto que me apoquenta: a cretinice que reina na Federação Portuguesa de Futebol. Estava tudo a correr tão bem, goleada para o povo, apuramento no bolso, adeptos em festa e as câmaras focam a tribuna VIP do Estádio da Luz e lá estão aqueles escrotos, com o boneco Madaíl à cabeça (finalmente vai-se embora!) e pensei: "pfffff... estragaram tudo!". E não deixo de pensar que quando tudo corre bem, lá estão eles a dar a cara, a brindar, a dar palmadinhas nas costas uns dos outros pelo trabalho feito; quando corre mal, é arranjar o bode expiatório mais à mão e sacudir os ombros uns dos outros por que, afinal, fizeram tudo o que (não) estava aos seus alcances. Se Portugal é uma selva e o futebol é um pântano, então a FPF é o lodo.

 

Isto pode soar a conversa de aziado que quer o mal da Seleção. Nada mais falso: eu desejo o seu sucesso, mas um sucesso sustentado, vigoroso, cativante e duradouro. As camadas jovens são o que se vê, os campeonatos ditos profissionais são o que se sabe. É ridículo achar que estes momentos fugazes de alegria poderão mudar alguma coisa no curto prazo. É ridículo ver um caramelo como Vieirinha, convocado às pressas, dizer que temos das melhores seleções do Mundo (do Mundo!). É triste ver a comunicação social elevar os jogadores a heróis nacionais, a entrar em euforia total com rankings duvidosos e a publicar manchetes escusadas e lamentáveis que soam a brejeirice pegada ou a sobranceria injustificada. Mas ter os pés assentes no chão nunca foi da natureza cá do burgo, pelo menos no que à última década diz respeito.

 

Venha de lá o Euro para o depressivo povo que este ao menos merece alguma alegria nestes tempos conturbados. Tudo o mais são tretas, já cantava o Tordo. E das grandes, digo eu!

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 00:43

Fringe: a bolha

por Antero, em 15.11.11

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

Fringe 4x06: And Those We've Left Behind

Um episódio e peras. Fringe sempre ganha outro brilho quando os casos semanais espelham os dramas pessoais da equipa e este não foi exceção: tal como Walter, o cientista Raymond cruza todos os limites para salvar a pessoa que mais ama, sem sequer pensar nos riscos para si e para os outros e, tal como Peter, ele vê-se submerso num estado de impotência perante a apatia da amada que, doente de Alzheimer, não se recorda de nada. A experiência de criar bolhas temporais para voltar, ainda que fugazmente ao passado, foi despoletada pela chegada de Peter que virou do avesso as regras da continuidade espácio-temporal, o que explica (até ver) as distorções temporais que vimos nos últimos tempos.

 

Com algumas semelhanças com o estupendo White Tulip da segunda temporada (até pela maneira como gere e brinca com os saltos no tempo), este capítulo traz a verdadeira perceção que Peter está onde não deveria e tornou-se numa anomalia rapidamente a ser corrigida. O mais engraçado é que todos os dados estavam lá desde o início da atual temporada, mas, como Peter, andámos em negação e demorámos a compreender: os transmorfos 2.0, a relação de Nina com Olivia, o desconhecimento dos Observadores, os dramas de Walter, foi toda uma nova mitologia construída a partir de tudo o que sabíamos. O certo é que o novo arco da série deverá ter como função o regresso de Peter a casa, seja de que maneira for. Afinal, esta é uma terceira realidade, aquela não é a nossa Olivia, o nosso Walter, e tudo pode acontecer daqui em diante.

 

Sejam benvindos ao Lado C!

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 18:52

Nos Idos de Março

por Antero, em 14.11.11

 

The Ides of March (2011)

Realização: George Clooney

Argumento: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon

Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Phillip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei, Jeffrey Wright
 

Qualidade da banha:

 

Além de excelente ator, George Clooney é um ótimo cineasta e isso volta a ser comprovado por este Nos Idos de Março, um regresso à boa forma por parte do ator/realizador depois do pouco visto (e nem estreado por cá) Jogo Sujo. Tal como no altamente recomendável Boa Noite e Boa Sorte, Clooney mostra-se perfeitamente à vontade a comandar narrativas povoadas por personagens inteligentes que, profissionais ao extremo, se vêm envolvidas em situações complexas. Onde antes tínhamos a guerra entre os média e a política, aqui a primeira passa para segundo plano para dar espaço a um desencantado conto sobre a perda de inocência nas entranhas de uma campanha eleitoral.


Escrito por Clooney, Grant Heslov e por Beau Willimon a partir da peça escrita por este último, Nos Idos de Março mergulha nas primárias democratas para decidir quem será o candidato do partido ao cargo mais importante do país – uma corrida liderada pelo carismático governador Mike Morris (Clooney), cuja campanha é comandada pelo experiente Paul Zara (Hoffman), chefe do assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling). Com um opositor mais conservador que conta com o inteligente Tom Duffy (Giamatti) como estrategista, a equipa de Morris traz ainda a estagiária Molly (Wood), que, ao se envolver com Meyers, permite que este descubra um segredo com potencial para provocar uma reviravolta completa na disputa.

 

Interessante por trazer uma contenda dentro do mesmo partido (os republicanos não são tidos nem achados), o filme desenvolve as personagens como indivíduos totalmente empenhados com o seu trabalho e que parecem estar num intenso e constante jogo de xadrez, o que faz com que admiremos o profissionalismo de Duffy ainda que torçamos pela sua derrota, ao passo que Zara surpreende pela sua perspicácia, pragmatismo e discernimento quando, por exemplo, disseca dolorosamente os motivos de uma ação impensada de Meyers. Neste particular, o fabuloso elenco secundário aproveita o tempo limitado a que tem direito para espremer as suas prestações ao máximo: além de Giamatti e Hoffman, Clooney confere sofisticação e eloquência a Morris, bem como injeta-lhe alguma dignidade por recusar não ceder novamente a propagandas negativas e a lamentar ter de se rebaixar perante potenciais financiadores; e Marisa Tomei retrata com competência a ambiguidade dos média que, consoante a ocasião, são tratados como aliados ou inimigos.

Contudo, Nos Idos de Março é mesmo de Ryan Gosling e do seu Stephen Meyers: demonstrando estar a ter um 2011 em grande depois de incursões tão distintas na comédia Amor, Estúpido e Louco e no vindouro Drive, Gosling faz do assessor alguém idealista e competente, mas inexperiente (ele sorri subtilmente quando é elogiado por Duffy, o que demonstra consideração pelo rival, o que, por sua vez, revelar-se-á um erro) – e é o seu despreparo que poderá deitar tudo a perder quando ele começa a cruzar os limites impostos pela sua idoneidade na defesa da campanha de Morris e, mais tarde, da sua pessoa. Além disso, ele acredita piamente no valor de Morris e isto será o catalisador do grande arco dramático da película e levará a todas as transformações vividas pelo sujeito (o seu olhar de desilusão por o Homem não estar à altura do Símbolo é simultaneamente mordaz e comovente).

 

Encerrando-se com uma bela rima visual que opõe a cena final à inicial em contextos semelhantes, mas tematicamente distintos, Nos Idos de Março merece destaque também por sequências habilmente construídas, como o discurso de Morris em frente à bandeira norte-americana enquanto Stephen e Zara discutem acesamente nos bastidores ou as sombras que envolvem o confronto entre Morris e Meyer. Não tanto uma alegoria do processo eleitoral, mas sim uma história sobre moralidade e desencantamento de um jovem promissor, o filme é um entretenimento sólido, intrigante e inteligente. Tal como as suas personagens.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 18:38

Religião e limites

por Antero, em 13.11.11

Esta noite tive uma discussão um tanto ou quanto acesa com um amigo meu sobre religião, um tópico que hesito em discutir com alguém que tenha uma opinião diferente da minha não por que não gosto de ouvir pontos de vistas divergentes, mas sim por que é um tema sensível e que, mal gerido, leva a um clima inflamado como, eventualmente, aconteceu.

 

Dizia ele que eu, ao renegar a educação cristã que tive durante anos e o papel desta nos valores que me foram incutidos (bem como desprezar a Igreja Católica), tornara-me numa pessoa limitada. Nunca, em toda a história da Humanidade, seja em que campo for, alguém que tenha rompido com o estabelecido, com o status quo, foi apelidada de "limitada", mas acho que há sempre uma primeira vez para tudo. Ele, por outro lado, compreende e valoriza tudo o que lhe foi transmitido por essa educação e tenta tirar dela o melhor para si e para os seus, o que deveria ser a principal função de todo e qualquer interveniente religioso (o que sabemos bem não acontecer em inúmeros casos, todos eles bem documentados numa História ainda a ser escrita e que, infelizmente, ganham mais mediatismo que os aspetos positivos).

 

Isto pôs-me a pensar: primeiro, cometi o erro de usar a expressão "renegar", uma palavra forte e inadequada para a discussão em causa. Ora, eu não posso garantir que a pessoa que sou hoje não tenha sido influenciada, ainda que numa ínfima porção, pela educação católica que tive ou que os meus pais (e avós, bisavós, e por aí fora) tiveram. Aí, sim, fui limitado na ideia que quis transmitir e que, admito, estava equivocada. No entanto, a educação que tive obriga-me a respeitá-la e, em último caso, a seguir a doutrina? Não! Obriga-me a catequizar os meus filhos? Não! "Então, não me fodam a cabeça!" – e assim rematei a discussão.

 

Dito isto, tenho imensa consideração por esse meu amigo e estou-lhe grato pela frontalidade, mesmo que não concorde nada com a opinião dele. Caso contrário, se ele não se sentisse à vontade para a exprimir livremente e cara a cara, eu não teria tanto apreço por ele. Lamento que a discussão tenha resvalado para um tom mais virulento, mas são coisas que acontecem (consigo ser bastante ríspido, o que por vezes é um enorme defeito). E, generalizando um pouco mais agora, por muito jogo de cintura que possa ter, não estou disposto a aceitar posições absurdamente disparatadas mascaradas sob o lema de "é a minha opinião, tens mais é que respeitar!". Não, não tenho.

 

Se isto faz de mim altivo, grosseiro e limitado, então seja! Caráter é algo que ninguém deveria ser obrigado a abdicar.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 05:37

Terra Velha e Bafienta

por Antero, em 10.11.11

 

Terra Nova

Benvindos a Terra Nova, a solução para um planeta sobrepovoado, demasiado poluído e tantos outros clichés futuristas. Uma colónia na pré-história para onde uns quantos (in)felizes são enviados numa viagem no tempo, cujas circunstâncias são explicadas num único diálogo pela inteligente filha do meio dos Shannons, a aborrecida família que acompanhamos desde o início. Basicamente, eles não podiam ir para o próprio passado e arriscarem a alterar o futuro deles: eles são enviados por um portal emprestado de Stargate para outra linha temporal e esquecem-se que o tal Efeito Borboleta que eles tanto queriam evitar não se limita à sua realidade, e nada impede que o novo futuro já não esteja estragado. Isso, porém, só saberemos se Terra Nova for renovada para muitas temporadas, algo que eu desejo fortemente que não aconteça.

 

Produzida por Steven Spielberg (que já havia emprestado o seu "selo de qualidade" à intragável Falling Skies que, de tão má, mal passei do piloto), Terra Nova é um logro do início ao fim: o lugar é comandado pelo ator que fez de vilão em Avatar e aqui surge como o vilão de Avatar, apenas mais bonzinho; os cenários são providenciados por paupérrimos chroma keys e os dinossauros, além de tecnicamente vergonhosos, mal aparecem e devem passar fome, visto que nunca comem ninguém. Os construtores da colónia devem ter lido os argumentos e acharam que poderiam facilitar na segurança do local, já que a bicharada nunca dá as caras mesmo, e fizeram uma cerca tão baixa e com troncos de madeira cilíndricos que qualquer T-Rex destruiria num sopro. Eu não consigo culpar os animais: talvez eles tenham medo de encontrar os Shannons e extingam de tédio. Mais vale aguardar pelo asteroide e rezar para que não seja tão doloroso.

 

Ah, os Shannons... que família feliz! O pai é um ex-polícia, a mão é médica, o filho mais velho é um adolescente revoltado, a filha do meio é uma geek de primeira e a mais nova é apropriadamente adorável. Tão amorosos que eles são que parecem saídos de um anúncio de detergente, no qual o pai transpira no trabalho, o filho sua-se todo a jogar futebol, a filha verte sumo na camisola, a mais nova suja-se no parque e lá vem a mãe resolver a situação o último grito do pó para a roupa, para todos acabarem sorridentes e asseados. Depois temos os Outr... digo, os Sextos, grupo que se rebelou de Terra Nova e vive no meio da selva sem qualquer problema mesmo com o perigo jurássico ali à porta (daí eu achar que os dinossauros são anoréticos). Há muita intriga pelo meio, situações mal resolvidas, muitos efeitos especiais embaraçosos, mil personagens desinteressantes e o sono é uma constante. Terra Nova é, acima de tudo, um drama familiar. E dos piores!

 

A série foi-me aconselhada por um amigo que me disse que era "tipo LOST!" e os últimos anos têm-nos ensinado que qualquer comparação com a maravilhosa série da Ilha deserta mais povoada de sempre é meio caminho andado para o descalabro. Visto cinco episódios, rendo-me ao sofrimento e abandono Terra Nova sem olhar para trás. Não há guilty pleasure que salve isto, nem para acompanhar só uma temporada. Já tive a minha dose de Heroes, FlashForward e The Event. Sofri muito nesses tempos e até eu tenho os meus limites. Chega!

 

Terra Nova começou a ser exibida aos domingos à tarde na TVI. Não deixem de perder!

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 18:10

Fringe: uma segunda oportunidade

por Antero, em 06.11.11

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

Fringe 4x05: Novation

Ah! Como é bom ter Fringe de volta depois de uma pausa de duas semanas, em parte graças ao play-off do campeonato de basebol norte-americano. Ainda para mais deixaram-nos a pão e água com o regresso de Peter e o facto de ninguém se lembrar dele. E há tanto para falar sobre este episódio que trouxe novos dados sobre o renovado universo onde o nosso herói cai de paraquedas e lança os dados acerca do grande arco dos próximos capítulos. Vamos lá por partes:

  • Peter

Está de regresso e depara-se com um estado de amnésia coletiva. Basicamente está como nós: sabemos de tudo e da sua importância, mas nada disso importa por que estamos a acompanhar todo um novo mundo. Facilmente ultrapassa o choque inicial e reage a tudo com imensa calma, um indicativo do seu amadurecimento e das experiências que teve. Ninguém sabe o que são os Observadores, a Máquina não foi enviada por Walter no tempo e mesmo os transmorfos evoluíram para lá daquilo que Peter tinha conhecimento. Apenas o novato Lincoln parece disposto a dar-lhe o benefício da dúvida, já que até o próprio Walter o renega.

  • Walter

Incrível a capacidade de John Noble em comover com a angústia da personagem. Percebemos como ele e Nina se desentenderam na ocasião em que o primeiro atravessou para o Lado B na tentativa de salvar Peter e o frasco com a cura partiu-se devido a ela. Não consegue aceitar a benção em receber novamente o filho perdido e até lança a dúvida de que ele poderia ter vindo de um terceiro universo (será que os que acompanhamos são o Lado C e D?! F***-se!). Adora cozinhar leite-creme para afogar as mágoas.

  • Olivia

Foi adotada por Nina Sharp e daí serem todas BFF. Não compreende o alcance da influência de Peter na sua existência e, azar dos azares, leva com uma nega de Lincoln que surge mais perspicaz que ela. Numa das suas idas à Massive Dynamics ficamos a saber que William Bell morreu (pelo menos o deste lado).

  • Transmorfos 2.0

Mais avançados e letais que aqueles que tinham mercúrio em vez de sangue, estes conseguem agregar até seis tipos de ADN diferentes no seu sistema, o que impossibilita a sua identificação. O modus operandi é em tudo semelhante às primeiras versões e parece que se irão infiltrar na Divisão Fringe. Será que Walternate planeia alguma? Ou será outra pessoa? Ou mesmo outro universo?

  • Distorção temporal

Foi aquilo que depreendi da cena final de Olivia quando recebe duas pastas da mesma pessoa em momentos diferentes. Exatamente como no episódio anterior com eventos a serem replicados um minuto antes de acontecerem. Estará relacionado com a presença de Peter e um certo ajustamento temporal providenciado pelos Observadores? Fez-me lembrar Matrix, no qual um déjà vu referia-se a correções feitas no sistema.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 23:54

Puro Aço

por Antero, em 04.11.11

 

Real Steel (2011)

Realização: Shawn Levy

Argumento: John Gatins

Elenco: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Kevin Durand
 

Qualidade da banha:

 

Misto de Rocky com Transformers? Parece impossível, mas é isto que Puro Aço propõe: em 2020, o boxe é praticado por robots em vez de humanos, uma medida politicamente correta que visa reduzir a violência crescente do desporto. Charlie (Jackman) já foi um lutador com relativo sucesso, mas os tempos são outros e agora promove combates robóticos de quinta categoria. Cheio de dívidas, ele decide relutantemente passar umas semanas com Max (Goyo), o filho que renegara há dez anos e que é fã da modalidade. Ambos unirão esforços para voltar a ter sucesso nos ringues, reutilizando peças descartadas e a Atom, uma máquina de segunda geração destinada à sucata encontrada por Max.

Só de ler a sinopse acima já posso imaginar o vosso pensamento: "pfff... mais uma história batida de superação, em que o pai e o filho reatam a muito custo, um deles hesitará antes do terceiro ato ter início e até aposto que há um interesse amoroso que debita pérolas sobre o valor do amado...". Tudo isto é verdade e Puro Aço está recheado de clichés, mas com a diferença de que sabe trabalha-los para extrair o máximo de emoção ao espectador sem parecer maniqueísta. Assim, o facto de Charlie receber dinheiro para acolher o filho poderia ser usado para criar um conflito artificial mais à frente, mas logo este dado é sabido por Max que de seguida confronta o pai (e, consequentemente, dá sinais do seu génio forte que, isso sim, será relevante para a narrativa). Mesmo o interesse romântico vivido por Evangeline Lilly é desenvolvido com cuidado para não soar forçado, tendo como função pontuar a relação pai-filho que é o que realmente interessa para a história.

 

Demonstrando um imenso entrosamento em cena, Hugh Jackman e o jovem Dakota Goyo revelam uma química essencial para o sucesso do filme, já que é por eles que torcemos ao longo de duas horas. Jackman, um ator talentoso, demonstra um perfeito equilíbrio entre a comédia e o drama no papel do pai falido e pouco carinhoso que, aos poucos, compreende o verdadeiro peso de criar um filho. Max, por outro lado, é construído pelo argumento como uma criança que, mesmo não querendo, partilha vários aspetos com o progenitor: a paixão pelo boxe, a autoconfiança e uma pontinha de matreirice e língua afiada. Claro que isto não é muito aprofundado ou dramático, mas serve para carregar bem o filme e preparar terreno para o verdadeiro espetáculo: os robots.

Tecnicamente impecáveis, os robots movem-se com total fluidez, são perfeitamente credíveis naquele universo e têm um design que incorpora algumas caraterísticas da modalidade nos seus corpos: como máquina de treino, Atom tem uma fisionomia humana, com o crânio que tem uma grade retalhada (que se assemelha a uma cara), os olhos luminosos, braços com uma aparência de luvas de boxe e pés com formato de sapatilhas. Além disso, o seu visual sujo, datado e podre contrasta brilhantemente com os robots recentes, limpos, brilhantes e tecnologicamente mais avançados - já para não falar no detalhe genial de ele estar preparado para assimilar movimentos humanos como forma de estabelecer um padrão de treino, o que o torna ainda mais humano aos nossos olhos.

 

No entanto, a grande surpresa de Puro Aço é mesmo o realizador Shawn Levy que depois de comandar uma série de comédias insignificantes (À Noite, no Museu; A Pantera Cor-de-Rosa; À Dúzia É Mais Barato), demonstra segurança na condução da película para que esta não descambe no sentimentalismo e, o melhor de tudo, filma os combates de maneira empolgante, com coreografias que remetem diretamente ao boxe e que nos permite vislumbrar o belo trabalho de efeitos especiais ao serviço da história (uma lição que Michael Bay poderia aprender). Só condeno um ou outro pormenor: porquê fazer dos vilões seres arrogantes e desprezíveis? Era mesmo necessário demoniza-los sem comprometer a nossa simpatia por Charlie e Max? E por que não cortar as partes dos credores mafiosos que alongam demasiado a duração? Ou deixar questões em aberto como o facto de Atom ter ou não uma essência?

 

Nada disto retira o brilho a Puro Aço que, previsível do início ao fim, soube tirar partido dos seus pontos fortes, esconder até onde pôde as suas falhas e transformar-se num entretenimento cativante e eficaz.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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