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O crepúsculo dos brinquedos

por Antero, em 30.07.10

 

O voo final de Buzz Lightyear. As lembranças de Jessie. O sorriso de Sulley. O desespero de Marlin. O quotidiano de Bob Parr. O discurso de Anton Ego. O bailado de WALL-E e Eva. A vida a dois de Carl e Ellie. Momentos de puro brilhantismo proporcionados pelos estúdios da Pixar, cujo impressionante currículo traçou uma meta praticamente inigualável e, ironicamente, acaba por amaldiçoá-los – afinal, como manter a fasquia tão alta? O que antes era improvável tornou-se impossível. Só que a Pixar não tem medo de ousar, vai até ao infinito e mais além e, magnificamente, volta a superar-se. Toy Story 3 é o melhor, mais complexo, humano e comovente filme da casa. O que era inicialmente uma nova sequela feita para render mais uns trocos à Disney torna-se numa obra assombrosa com um coração imenso. Se a primeira e a segunda parte já mereciam o Olimpo, o que dizer agora? Nada, a não ser levarmo-nos pela montanha-russa de emoções oferecidas por Woody, Buzz, Jessie e companhia.

 

Ao levar-nos pela imaginação de Andy numa das suas típicas brincadeiras, Toy Story 3 evoca um agradável sentimento de nostalgia logo nos primeiros minutos. Só que os anos passaram e Andy está crescido e prestes a ir para a universidade. O seu quarto, palco que dá sentido à vida dos bonecos, já não lembra o mesmo cenário dos filmes anteriores, sendo agora forrado com posters e decorado com adereços que retratam as actuais preocupações do jovem adulto. Os brinquedos, ou melhor, aqueles que sobraram, foram confinados a permanecer num baú e a esperar qualquer momento em que o dono repare neles, algo já antecipado no final de Toy Story 2. As opções para os brinquedos passam pela doação, o lixo ou o sótão, solução que os manteria próximos de Andy. No entanto, um lapso leva-os até ao infantário Sunnyside onde surgem novos dilemas e aventuras.

 

Se o primeiro Toy Story era um luminoso conto sobre identidade e objectivos, a sequela ampliava o dilema e trazia a curiosa questão “o que acontece aos brinquedos quando os donos crescem?”. No terceiro capítulo, o mais sombrio e denso de todos, Woody e Buzz devem enfrentar o seu destino e reconhecer que Andy não mais brincará com eles. A temática passa agora pela morte e aceitação. Emocionalmente carentes, os brinquedos entregam-se a qualquer instante, por mais fugaz que seja, que lhes devolva a sensação de cumprimento dos seus propósitos – e não deixa de ser comovente a ansiedade do grupo ao chegar a Sunnyside, onde poderão brincar para sempre, ou o sentimento de negação de Woody que se recusa a abandonar o rapaz ao qual foi presenteado anos atrás.

 

Por falar em Andy, um dos grandes acertos do novo capítulo é retratar o adolescente com extrema sensibilidade. Desenvolvido a partir da relação com os seus brinquedos e da devoção que estes lhe têm, Andy passa de figura periférica a um individuo que vê nos antigos companheiros uma reminiscência de uma fase distante e mais inocente e da qual não se quer despedir totalmente – um dilema que ressoa junto a qualquer um de nós, já que envelhecer não é fácil. Se Andy terá que seguir em frente, também os brinquedos terão que fazê-lo e a separação, por mais antecipada que seja, será sempre custosa. Se eles vivem em função do dono, o que será deles quando forem deixados de parte? Sem uma razão para viver, eles deixarão de existir? Qual o sentido de continuar? É este tipo de questões profundas que elevam Toy Story 3 a um patamar mais maduro e intrincado, acima do preconceituoso argumento de que filme de animação é só para crianças.

 

Não que a película seja completamente depressiva; se há coisa que a Pixar faz como ninguém é divertir e emocionar na mesma medida. Assim, para cada ocasião mais introspectiva, há uma mão cheia de tiradas hilariantes, sendo que os destaques ficam por conta do efeminado Ken, a figura caricata do Sr. Cabeça de Batata ou a reprogramação operada em Buzz. Com um sentido de humor invejável, Toy Story 3 traz uma imensidão de bonecos novos, dos quais o reprimido Lotso é mais uma prova de que a Pixar faz o que a maioria dos realizadores não consegue com actores de carne e osso: personagens tridimensionais e cheias de humanidade.

 

Com uma narrativa fluída e valores técnicos já característicos da Pixar (Sunnyside é de uma concepção espectacular), Toy Story 3 adopta a estrutura de filme de fuga da prisão, com influências notórias de A Grande Evasão, e conta com habilidosas e emocionantes sequências de acção. O terceiro acto, em particular, é construído com uma tensão crescente e desesperadora que culmina num momento arrebatador, na qual a firmeza dos heróis perante a provável morte é admirável e tocante. Acima de tudo, a trilogia Toy Story fala sobre valores como amizade e família e, se choramos e rimos ao longo de toda a jornada, é por que nos identificamos com aquelas carismáticas personagens.

 

Capaz de provocar, ao mesmo tempo, sentimentos de alegria e melancolia nos seus instantes finais, Toy Story 3 fecha com chave de ouro a caminhada do estouvado Woody, do heróico Buzz Lightyear, da esquentada Jessie, do cínico Porquinho, do mal-humorado Sr. Cabeça de Batata, do fiel Slinky, do acanhado Rex e de tantos outros que nos acompanharam por três maravilhosas longas-metragens que a imaculada Pixar teve o prazer de criar.

 

Qualidade da banha: 20/20

 

PS: ainda que Toy Story 3 faça um uso discreto da dimensão adicional, a inventiva curta que o precede, intitulada Dia e Noite, vale por si só o pagamento extra dos malfadados óculos 3D.

 

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publicado às 12:01

A realidade sonhada

por Antero, em 23.07.10

 

Na comunidade cinéfila, há um certo número de indivíduos que repudiam o conceito de blockbuster (muitas vezes com razão, como comprovam as porcarias lançadas por Hollywood todos os anos). Lançados nas alturas de maior afluência às salas (Natal e Verão do hemisfério Norte), os blockbusters são aqueles filmes de grande orçamento que aplicam o paradigma do espectáculo de massas que é o Cinema, apostando em valores técnicos que, muitas vezes, não encontram reflexo num aprimoramento narrativo. Expoente máximo do negócio que sustenta Hollywood, a maioria desses filmes não vale um décimo da milionária campanha publicitária de que são alvos e, por isso, é tão prazeroso assistir a um filme como A Origem: sem renegar a sua génese de entretenimento sazonal feito para render milhões, ele consegue a proeza de aliar o melhor que a tecnologia actual oferece a uma história insólita, inteligente e fascinante. Mérito para Christopher Nolan, um dos poucos artesãos que ainda consegue criar obras instigantes sem tratar o espectador como um atrasado mental.

 

Desenvolvido durante mais de uma década e alvo de extensas revisões, A Origem traz Dom Cobb como um profissional de uma arte peculiar: ele consegue extrair segredos valiosos dos sonhos dos seus alvos quando estes se encontram num sono profundo, logo quando a mente está mais vulnerável e o subconsciente se encontra mais activo. A sua habilidade é um trunfo na área da espionagem empresarial e Dom, bem como a sua equipa, é encarregue de um trabalho arriscado e complexo - em vez de retirar uma ideia, eles terão que plantar uma na mente de um herdeiro de uma companhia poderosa e, com isso, fazer com que ele desmembre o vasto império do seu pai enfermo. Como fugitivo internacional, Dom encara esta tarefa como a saída necessária para voltar à sua família e encerrar as acusações que recaiem sobre si, algo que não será nada fácil, visto que a sua própria consciência pode deitar tudo a perder.

 

Tal como emShutter Islandlançado este ano, Leonardo DiCaprio interpreta Dom como um sujeito dividido entre a realidade e o sonho, remoído por actos passados e que encontra nas suas memórias o escape necessário para manter a sua sanidade e, também como no filme de Scorsese, uma figura feminina representa a origem da sua psique conturbada. Como herói torturado, DiCaprio parece repetir o mesmo Teddy Daniels daquele filme só que, aqui, Dom parece estar em absoluto controlo de tudo o que o rodeia, isto até as suas próprias lembranças comecem a ameaçar o sucesso da empreitada. E que empreitada: dissecando a psique humana de várias formas, Nolan mergulha-nos numa viagem surrealista que envolve sonhos dentro de sonhos, vários níveis de consciência, consciências paralelas e um sem número de alegorias que remetem para a eterna batalha entre as diferentes instâncias do aparelho psíquico (Id, Ego e o Superego).

 

Por exemplo, para exemplificar a mente fracturada de Cobbs, Nolan não hesita em utilizar a metáfora de um elevador no qual cada andar corresponde a um nível da estrutura mental (memórias) que ele idealizou, ao mesmo tempo que sugere que, a cada etapa da missão, a noção de tempo torna-se mais difusa, retratando a distância cada vez maior da realidade (o que levará ao clímax, na qual três acções paralelas convergem de forma impactante). Por outro lado, a morte no irreal representa o despertar da consciência do indivíduo; os acontecimentos de um nível superior influenciam os do seguinte; e cada um dos intervenientes no processo deve ter um objecto pessoal (um totem) que servirá como âncora para a realidade. Todos estes conceitos engenhosos vêm embrullhados numa estrutura de heist movie (filme de golpe) que compensa as partes mais cerebrais do filme com elaboradas sequências de acção.

 

Repleto de cenas de inegável beleza plástica (os planos em câmara lenta são de tirar o fôlego e a luta num corredor de hotel é sensacional), A Origem conta com faustosos efeitos especiais que, longe de serem um mero artifício, soam orgânicos à narrativa: se abrimos a boca de espanto por vermos parte de uma cidade ser "dobrada" é pelo que aquilo representa no contexto - nada mais do que a infinitude das capacidades da mente humana aquando o sonho. Além disso, o filme conta com um elenco em perfeita sintonia, do qual se destacam Ellen Page como a novata Arquitecta a desvendar as possibilidades do processo de Extração (tal como nós), Joseph Gordon-Levitt a destilar profissionalismo como o Apontador, Tom Hardy como o desconfiado Falsificador, Cillian Murphy como o milionário emocionalmente atormentado pela sua relação fraterna, e, claro, Marion Cotillard que, em poucos minutos, cria uma personagem trágica dividida entre o real e o que ela quer que seja a sua "realidade".

 

No entanto, o grande mérito de A Origem é a sua confiança na inteligência do espectador, obrigando-o a pensar por si e a estar atento a cada pormenor, sob pena da compreensão da obra ficar irremediavelmente perdida (não há cá finais mastigados a explicar tudo ao pormenor). Tal como acontecia em Memento ou O Terceiro Passo, o argumento é hipnotizante na forma como vai arquitectando as suas ideias, além de oferecer um protagonista com traços em comum com tantos outros das obras anteriores de Nolan (o indivíduo que, em busca da redenção, é capaz de pôr tudo em causa para o conseguir - aqui é a noção de "realidade"). Merecedor de ser visto mais do que uma vez, A Origem é uma experiência altamente gratificante capaz de prender a atenção do espectador até ao último segundo.

 

Literalmente.

 

Qualidade da banha: 19/20

 

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publicado às 19:45

Filmes Expresso #4

por Antero, em 18.07.10

Collapse

Collapse (2009)

Assustador e hipnotizante documentário sobre um antigo trabalhador da CIA que traça um retrato negro sobre o futuro do planeta, o risco dos recursos naturais e a dependência do petróleo e que, paranóia ou não, lança na mente do espectador uma mão cheia de questionamentos difíceis de ignorar.

Qualidade da banha: 18/20

 

O Escritor Fantasma

The Ghost Writer (2010)

Depois do escorregão que foi Oliver Twist, Roman Polanski volta à sua melhor forma com um suspense conduzido de maneira calma, mas eficaz, recheado de críticas à promiscuidade entre os governos norte-americanos e britânicos e em que Ewan McGregor, Pierce Brosnan e, principalmente, Olivia Williams oferecem excelentes interpretações.

Qualidade da banha: 15/20

 

Green Zone - Combate Pela Verdade

Green Zone (2010)

Jason Bourne no Iraque. É a melhor frase para descrever este filme dirigido por Paul Greengrass e que traz Matt Damon em mais um boa interpretação no papel do soldado que se rebela contra os (falsos) motivos que levaram à Guerra no Iraque e que, com um argumento fluído e trepidante, diverte ao mesmo tempo que incita a discussão sobre o papel dos media e dos bastidores do poder.

Qualidade da banha: 15/20

 

Mary and Max

Mary and Max (2009)

Uma das experiências mais depressivas (diferente de deprimente) que já assisti. A história de uma amizade entre um norte-americano mergulhado na depressão e uma vivaz garota australiana, com muito humor negro e uma animação de stop-motion que, por se revelar pouco virtuosa, é encantadora em todo o seu minimalismo.

Qualidade da banha: 17/20

 

Millennium 2 - A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo

Flickan som lekte med elden (2009)

A segunda parte da trilogia Millennium escrita pelo falecido Stieg Larsson desce muitos degraus em relação ao capítulo anterior, nomeadamente na aborrecida história que atira flashbacks a torto e a direito e que só é salva (em parte) pela instigante protagonista.

Qualidade da banha: 6/20

 

Millennium 3 - A Rainha no Palácio das Correntes de Ar

Luftslottet som sprängdes (2009)

A conclusão da trilogia Millennium é satisfatória na medida em que fecha praticamente todas as pontas da narrativa, ainda que o eficaz clima de suspense presente no original seja uma memória distante e o filme se renda a muitos clichés na sua conclusão.

Qualidade da banha: 9/20

 

Não Chamem a Polícia!

Cop Out (2010)

Se aturar Tracy Morgan em 30 Rock ainda é suportável, um filme inteiro com ele como protagonista é uma tortura. Realizado por um Kevin Smith longe da garra e da acidez que o tornou famoso, este buddy cop film traz as costumeiras referências populares dos filmes do realizador, mas agora atiradas ao acaso e sem o charme de outrora, já para não falar de um argumento sem pés nem cabeça e pouco divertido.

Qualidade da banha: 5/20

 

Soldados da Fortuna

The A-Team (2010)

Adaptação da famosa série dos anos 80, Soldados da Fortuna é um filme de acção histérico, barulhento, com diálogos pedestres, um elenco canastrão ao máximo e situações tão implausíveis (e não estou a falar das exageradíssimas sequências de acção) que poderia ter sido realizado por Michael Bay.

Qualidade da banha: 4/20

 

Toy Story - Os Rivais

Toy Story (1995)

Primeiro filme da Pixar e que tornou a animação computorizada não só possível mas também economicamente viável. Ainda que os valores técnicos sejam admiráveis (embora algo datados), é na história, nas piadas e, principalmente, na força das personagens que está a grande valia do filme.

Qualidade da banha: 19/20

 

Toy Story 2 - Em Busca de Woody

Toy Story 2 (1999)

Sem se limitar a repetir a história do original, esta sequela expande o universo dos brinquedos e oferece uma narrativa ainda melhor que a anterior: o dilema é agora saber como se sentem os bonecos ao serem abandonados pelos donos que os trocam por outras diversões. Hilariante e emocionante na medida certa, Toy Story 2 é mais uma prova do brilhantismo dos estúdios da Pixar no desenvolvimento de diversões atemporais.

Qualidade da banha: 20/20

 

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publicado às 20:15

O caneco foi parar aqui ao lado

por Antero, em 12.07.10

 

Convenhamos que qualquer um dos semi-finalistas ficaria bem sentado no trono do futebol mundial. Fosse pela máquina alemã, pelo estoicismo uruguaio, pelo percurso 100% vitorioso da "laranja mecânica" até à final, ou pelo colossal jogo colectivo da luminosa Espanha. Foi a partir dos quartos-de-final que o torneio começou a ganhar interesse e relevância, com os candidatos ao pódio a definirem-se em jogos emocionantes, ainda que não totalmente bem jogados. Bom futebol, aliás, foi algo que só a espaços se viu nestas últimas semanas e a final foi o reflexo dessa tendência. A Espanha dominou durante largos períodos, mas os contra-ataques da Holanda destilavam veneno e valeu Casillas contra Robben. Nesse momento, estava escrito que a Holanda sairia derrotada da sua terceira final. Bastante agressivo (os cartões amarelos voavam do bolso do árbitro), o jogo lá foi caminhando para o prolongamento, a Holanda viu-se com menos um quando o deveria ter visto mais cedo, e Iniesta levou os nuestros hermanos ao céu a quatro minutos do final do prolongamento.

 

Vitória justa de uma Espanha que fica com a fama de só ganhar por 1-0, embora faça o suficiente para marcar mais (excepção feita, talvez, com o Paraguai). Olhando para trás, seria um crime que tão enfadonha selecção portuguesa eliminasse tão vibrante fúria vermelha: aqueles "chouriços" que acontecem quando o rei faz anos havia sido a derrota inicial com a Suíça, pelo que, dificilmente, a Espanha voltaria a cair noutra. Porém, falar do Mundial 2010 é falar também de Fórlan que carregou o Uruguai às costas, da coesão não recompensada dos germânicos, dos esforços dos dispensados Robben e Sneijder, da bomba (no mau sentido) que foi o futebol argentino, da desilusão brasileira, do destino cruel dos ganeses, da fraude chamada Inglaterra, do empolamento injustificado da Selecção Nacional (apesar dos históricos 7-0), do polvo, da organização africana, da Shakira, dos árbitros zarolhos, da Larissa Riquelme, do beijo de Casillas à namorada repórter, das insuportáveis vuvuzelas (espero que não se torne moda), de uma Itália expirada, da eterna guerra Adidas contra Nike, ou da birra francesa.

 

Vemo-nos daqui a quatro anos, no Brasil.

 

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publicado às 12:48

 

Lançado em 2001, Shrek foi a primeira grande resposta da Dreamworks ao domínio, até então, da parceria entre a Disney e a Pixar. Irreverente e cativante justamente por satirizar vários elementos que fizeram a fortuna da companhia concorrente, o filme subvertia as próprias regras do género e, três anos depois, veio a inevitável sequela que, já sem o efeito surpresa do original, expandia o universo fantasioso com personagens carismáticas como o Gato das Botas ou a Fada Madrinha. No terceiro filme, a irreverência deu lugar ao humor infantil e a ruína era ainda maior por constatarmos que a série rendia-se aos piores defeitos das animações que parodiava. Não contente em deixar de espremer a franquia, a Dreamworks lança agora o prometido (será?) encerramento das aventuras do ogre verde numa história que, apesar de soar irrelevante, ainda contém motivos suficientes para manter a série em andamento. Seria um crime que a última aparição de personagens tão queridas fosse o desastroso Shrek, o Terceiro.

 

Confortável com o seu casamento e adquirido o estatuto de celebridade, Shrek começa a entrar numa espécie de crise de meia-idade: a rotina tomou conta da sua vida e a adrenalina das aventuras anteriores parece bem distante e praticamente impossível de reaver. Depois de ter um colapso em plena festa de aniversário dos filhos, o ogre decide fazer um pacto com o sinistro Rumpelstiltskin que lhe dá a oportunidade de ter um dia inteiro onde tudo o que aconteceu anteriormente é uma ilusão e onde ele poderá reviver os tempos em que era temido e caçado pelos humanos. No entanto, o vilão tem planos obscuros e leva-o para uma realidade paralela onde Shrek nunca existiu, Bué, Bué Longe é governada sob mão de ferro por Rumpelstiltskin, Fiona é uma criminosa, o Gato das Botas está obeso e pouco charmoso e os ogres são capturados e mantidos como escravos. A solução para isto passa pelo (adivinhem só!) o verdadeiro beijo do amor que invalidará o contrato que Shrek firmou.

 

Longe do politicamente incorrecto (com as devidas ressalvas, claro) que marcou as duas primeiras longas-metragens, Shrek Para Sempre parece ir, nos primeiros minutos, pelo mesmo caminho que condenou o terceiro tomo, ao incluir piadas frágeis que envolvem arrotos e excrementos. Contudo, logo o filme abandona este tipo de piadas e constrói a sua narrativa na mesma base de Do Céu Caiu Uma Estrela que, usada e abusada nas últimas décadas, denota a secura de ideias que invadiu a série. Além disso, a ideia da realidade paralela poderia ter sido melhor aproveitada: é intrigante perceber como a história regressa às origens para subvertê-las (Fiona teve de se desenrascar da Torre sozinha, uma vez que o seu amado nunca chegou a existir), porém poderiam ter trazido Lorde Farquaad de volta, já que este continua a ser o melhor e mais hilariante antagonista que a série rendeu. A ideia que fica é que Rumpelstiltskin é uma pálida comparação com o diminuto fidalgo e que os argumentistas limitaram-se a criar um "clone" que apenas faz suspirar pelo original.

 

Não que as personagens surjam desinteressantes como o vilão de agora. É impossível resistir ao charme de seres que acompanhamos por vários anos e, novamente, são o Gato das Botas e o Burro que seguram o filme e garantem as maiores gargalhadas. O Gato, por exemplo, é daqueles que por muito que insistam na mesma piada, ela revelar-se-á sempre certeira, como a sua expressão de suplício ou os seus trejeitos de conquistador (que, aqui, soam ridículos vide a sua forma pançuda). Por outro lado, Shrek continua o menos interessante do quarteto e nem me vou alongar muito sobre a adição do Flautista Mágico em duas cenas patéticas que nem o facto de isto ser um filme animado redime a conclusão inevitável: aquilo não tem graça nenhuma.

 

Realizador do lastimoso Deuce Bigalow: Gigolo Profissional, Mike Mitchell é uma verdadeira surpresa por não deixar o filme resvalar para o humor de casa de banho que caracterizava aquele lixo protagonizado por Rob Schneider, mas os seus méritos acabam por aqui. De resto, o seu trabalho acaba por ser tão impessoal, quase como se a série fosse realizada sempre pelo mesmo sujeito. E não podemos esquecer que, como todos os filmes animados saídos dos grandes estúdios, não podia faltar a lição moralista e Shrek Para Sempre enfia-nos goela abaixo a máxima do "só se valoriza aquilo que se perde" em discursos óbvios ditos por alguém a cada dez minutos, para que ninguém saia da sala sem a lição estudada.

 

Inofensivo e desnecessário, Shrek Para Sempre é a prova que a série deveria ter acabado no terceiro volume, visto que o sentido de gozo e espectáculo dos dois primeiros filmes é uma distante memória. Ainda que divertido aqui e ali, é uma pena ver a Dreamworks dar tantos passos em falso nas suas animações, logo depois de terem acertado em cheio com o espectacular e comovente Como Treinares o Teu Dragão, não por acaso, um filme que vai beber (e bem) à fonte de inspiração das obras da Pixar. A nível técnico até podem estar ela por ela, mas a um nível narrativo e emocional, a produtora do candeeiro ambulante ainda segue rainha e senhora.

 

Qualidade da banha: 11/20

 

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publicado às 01:22

Sobre as Crepusculetes (e não só)...

por Antero, em 07.07.10

Nos últimos dias, tenho assistido confortavelmente à repercussão do meu texto sobreEclipseque, em poucos dias se tornou o mais comentado da história deste blog (para o qual contribuiu o destaque dado na página do SAPO). Extremaram-se posições, insultaram-me forte e feio, fui apoiado por muitos, houve respostas decentes e construtivas, outras nem tanto, o foco até desviou-se para outras coisas. Não apaguei um único comentário, estão lá todos: assim como acho que quem não deve não teme (não vou pedir desculpa por uma opinião perfeitamente legítima, ainda por cima num espaço que é meu), também não vou cortar a voz àqueles que me desejam insultar e não sabem construir uma argumentação minimamente válida. É para que todos vejam o (baixo) nível de certos seres que aproveitam o anonimato permitido pela Internet para chamarem de tudo e mais alguma coisa a alguém que - heresia! - tem uma opinião dissonante.

 

No entanto, pus-me a pensar e, pelos vistos, ainda é possível tirar uma reflexão intelectual de um produto execrável como a saga Twilight. O tipo de discussão tresloucada, histérica e sem fundamento despoletada pelo meu texto é algo que eu só vejo a acontecer com três tópicos: política, religião e futebol. Eu mesmo sofro deste mal e, quem me conhece, sabe da minha postura algo agressiva numa discussão cara a cara. Se na política ainda me remeto ao silêncio devido à minha gritante ignorância em certos temas, no futebol e, principalmente, na religião ataco ferozmente e defendo a minha opinião com unhas e dentes. Isto está longe de passar por má educação ou injuriar quem discorda de mim. O diálogo até pode ter um tom mais aceso, mas sempre dentro dos limites do bom senso e, regra geral, fica mal quem perde a razão. Isto aconteceu por um motivo tão mundano como um filme. Não me entendam mal; eu adoro LOST e já tive grandes discussões com pessoas que não gostavam da série, mas convenhamos que os três tópicos anteriores são bem mais relevantes na sociedade actual (então o futebol... e se for o Benfica, mais ainda!). O que até poderia dar um certo desconto às Crepusculetes que vieram aqui parar. Só há um problema.

 

O discurso delas foi escrito.

 

Foi pensado antes de materializado. Não saiu da boca para fora. Não foi algo que me foi dito em pessoa depois de eu ter "insultado" a saga do coração delas. É isso que me perturba: pelo facto de ter sido escrito supõe-se que se estava a pensar no que se escrevia. Deixaria de ser uma resposta a quente, na hora. Das duas, uma: ou elas realmente não reflectiram aquando a escrita (ou depois, até), o que as torna umas imbecis de primeira por não compreenderem que perderiam toda a razão que poderiam ter devido à sua (não) argumentação; ou, pior ainda, elas tinham bem noção do que estavam a escrever e dos impropérios que lançaram, sentindo-se vitoriosas por terem rachado num bloguista qualquer que maldisse de algo que elas idolatram.

 

Parecendo que não, isto deixa-me triste. É deprimente. Passou-se agora com o Twilight, mas já vi isto com Harry Potter, LOST, Heroes, FlashForward, José Saramago, animés e tantos outros produtos de entretenimento. E isto não é exclusivo de crianças acéfalas - ou melhor, é sim delas: quem toma uma atitude destas, a rigor, não cresceu nem tem maturidade. O tipo de pessoa que não sabe construir uma argumentação, parte para o ataque vil como forma de defesa de algo tão prosaico, que se mostra de um fanatismo extremista reprovável, só é digna de uma coisa: pena.

 

Por isso, caras fãs de Twilight, um conselho: cresçam. É doloroso, mas faz bem. Isto é só um filme, caraças! E bem medíocre, por sinal.

 

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publicado às 22:19


Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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