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Breaking Bad e a sedução do Mal

por Antero, em 02.10.13

ALERTA DE SPOILER! Este texto contém informações relevantes, pelo que é aconselhável a sua leitura se estiverem a par da exibição norte-americana.

 

 

Há uma lei que não está escrita em lado nenhum, ninguém reclama a sua autoria e todos conhecem. Não foi algo estabelecido no tempo; foi-se aperfeiçoando ao longo dos séculos, passando por gerações e por variadas formas de suporte na técnica de "contar narrativas" (ou storytelling em inglês). A lei: quanto maior for o fator humano da narrativa, maior o impacto desta. Por muito elaborada que seja a história, por mais reviravoltas que tenha, por muito que os aspetos técnicos deslumbrem, nenhuma história se sustenta no tempo a menos que a identificação do espectador com o elemento humano (ou antropomorfizado) seja estabelecida e reforçada a um certo grau.

 

O ponto de partida é incrivelmente simples: por mais canalha que seja, o protagonista terá sempre algo com que nos relacionamos e é a nossa esperança no seu processo de humanização (e de o acompanhar) que nos leva a descartar as suas falhas em prol daquilo que ele tem de nobre – mesmo que o contexto lhe seja adverso (daí que a trajetória tenha mais importância que o desfecho). Um mafioso implacável com ataques de pânico; um brilhante médico quebrado física e emocionalmente; um assassino em série em busca da integração na sociedade; uma adolescente com superpoderes e piores problemas na transição para a vida adulta – premissas que, por mais fantasiosas que sejam, tornam estes indivíduos caros ao público e despertam o seu interesse. Há exceções, claro: basta ver como o quarteto de Seinfeld abraçava as facetas mais podres da natureza humana e não havia o mínimo esforço em torná-las mais simpáticas aos nossos olhos – e ele funcionava tão bem não só por ser contracorrente, mas principalmente por se inserir numa comédia. Levados a sério, Jerry, George, Elaine e Kramer seriam encarados como seres desprezíveis.

 

Mas... e se alguém invertesse o paradigma? Pegar num bom moço e transformá-lo num monstro?

 

Sempre mais disposto a experimentalismos, o Cinema faz isto há décadas: retratar a tragédia do processo de corrupção da índole individual ou coletiva. E fazer isto num meio mais limitado como a Televisão? Com os seus intervalos publicitários, a história fragmentada em episódios semanais, a necessidade de estabelecer temporadas que abarcam anos e sustentar o interesse comercial? Como fomentar a curiosidade do espectador típico que ao mínimo estímulo desvia a atenção (e nunca a Televisão teve tanta concorrência como agora) e poderá nunca mais voltar? Seria possível? Estaria o público disposto a acolher um conceito assim?

Pois bem: Breaking Bad tornou-o possível. E mais: fê-lo com mestria.

 

Criada por Vince Gilligan, Breaking Bad é a história de Walter White, um pacato professor de química que é diagnosticado com um inoperável cancro do pulmão e decide enveredar na produção caseira de metanfetaminas para assegurar o sustento futuro da sua família. Com o tempo Walter vai mergulhando no mundo do crime até se tornar uma lenda viva ao lado de Jesse Pinkman, um antigo aluno seu, e enfrentar uma série de situações de risco que o irão opor a gangues rivais, a brigada dos narcóticos e até a sua própria família.

 

Uma das surpresas que tive ao acompanhar a série depois de tanto hype foi perceber que Walter não se torna naquele badass todo que me apregoavam. Sim, ele diz umas frases de efeito ameaçadoras, consegue ter uma postura intimidante, é extremamente inteligente e cada vez mais seguro das suas decisões e dos seus atos enquanto escala a hierarquia do crime. O sujeito, porém, também hesita, comete erros, sofre na pele, depara-se com dilemas de resolução impossível e entra em pânico diante das adversidades. Isto diz muito da cuidada trajetória que a personagem percorre ao longo de cinco temporadas e é apenas um exemplo da imensa complexidade de uma série que funciona essencialmente como um belíssimo estudo de personagens.

 

Contudo Gilligan é um tipo esperto. Ele estabelece que Walter poderia ter uma escapatória – bastava querer. Quando os seus ex-sócios da Gray Matter oferecem-se para pagar os tratamentos, Walter recusa por orgulho. Quando já amealhou o valor estimado por si para garantir a sustentabilidade da sua família, Walter continua a produzir drogas já com a casa dos milhões de dólares em vista. Depois de eliminar Gus Fring e salvar todos os que lhe eram próximos, Walter teve a oportunidade ideal para saltar fora – e decidiu ir mais fundo, não pelo "dinheiro" ou o "negócio" mas pelo "império". Poderia ter preservado um aliado valioso como Mike, mas assassinou-o num acesso de fúria motivado pelo seu orgulho (claro) e sem necessidade (como ele constata logo a seguir). Desta forma, a desculpa da família perde sentido ao mesmo tempo que Walter se torna mais frio, distante e cruel. A sua tragédia é estar sempre no fio da navalha de perder tudo aquilo que – segundo ele - o levou a cozinhar cristais.

 

Claro que a vilania de Walter só é devidamente percecionada com os efeitos nefastos naqueles que o rodeiam. Jesse não consegue suportar o peso dos crimes nos quais participou e é uma autêntica marioneta nas mãos de Walter. A relação deles é fascinante: ora servem como apoio mútuo ora como um empecilho, a dupla desenvolve uma dinâmica de codependência que leva o espectador a compreender porque Walter não descarta o jovem ou porque este não se afasta da figura monstruosa de Heisenberg (o alter-ego de Walter no submundo do crime). O professor serve como a figura paterna que Jesse tanto necessita e Jesse é uma espécie de filho adotivo, o último pilar da humanidade decrescente e corrompida de Walter, além de que, como é facilmente manipulável, o rapaz é um parceiro de negócios de inegável valor – e Aaron Paul é impecável ao demonstrar todas as facetas de Jesse (a ingenuidade, a perspicácia, os remorsos).

Mas se há trajetória e personagem que consegue rivalizar com a de Walter – e sei que aqui vou ser um pouco polémico – ela é Skyler White. Inicialmente mostrada como demasiado controladora do marido (o que é compreensível dado o seu cancro), Skyler atravessa uma jornada emocional intensa ao saber dos negócios de Walter. Como Skyler ocupa a posição de esposa (não esquecer a "desculpa" da família) ela é também o maior obstáculo que Walter enfrenta. Ela, sim, faz o que faz para proteger a família. Até tornar-se cúmplice dos negócios e aconselhar Walter devidamente sobre como lavar dinheiro. Quando ela trai o marido com o patrão e atira-lhe isso de forma seca, toda a gente pensou "Que vaca!". Se Skyler é uma "vaca", Walter é o quê? Ela só faz isso como uma maneira agressiva de conseguir o divórcio de Walter e pôr os filhos a salvo e, só mais tarde, ela toma noção das proporções gigantescas dos negócios. E o que lhe acontece? Torna-se praticamente uma refém na própria casa e vítima de abusos psicológicos de Walter.

 

Juro que não percebo o desdém por Skyler. "Ah, mas ela bem que usufruiu do dinheiro!". Ora, quem não se aproveitaria das comodidades trazidas pela riqueza? Quantas vezes ela não alertou Walter do perigo que a família corria? Que o dinheiro era mais do que suficiente? Skyler é odiada por meio mundo porque ela é uma ameaça ao sucesso de Walter. Estamos tão condicionados a nos identificar com o protagonista que os fãs tomam-na como mesquinha e castradora do (anti-)herói – uma visão tristemente machista da realidade. Walter é o vilão, ponto. Quem se agarra à ideia de que "foi tudo pela família" não acompanhou a série com o devido olhar. Há muito que Walter estava além de qualquer tipo de redenção e nesta reta final pudemos presenciar as sequelas devastadoras da sua carreira no mundo das drogas. Mesmo que ele tenha abandonado os negócios com o regresso do cancro, o mal já estava feito.

 

Muitos, porém, não conseguiam assimilar isto. Os problemas tinham de ser solucionados, Walter tinha de dar a volta à situação. Era por ele que se torcia e Skyler, Jesse, Hank e outros tinham mais era que se dar mal porque cometeram o pecado de em algum momento o enfrentar – e automaticamente se transformavam num impedimento à consagração do "herói". Mas esta não era a história que Gilligan tinha em mente e o final transmitido esta semana veio comprová-lo. Depois de tantas mortes, de ser descoberto, de ficar sem a fortuna, de ver a sua família cair em desgraça e fazer com que Jesse se tornasse um escravo fabricante de metanfetaminas, só a morte esperava Walter. A morte e não a redenção – a própria personagem reconhece isso quando admite a Skyler que tudo o que fez foi "por ele", para alimentar o seu ego e o seu orgulho, e não pela família ou para encher os bolsos. De professor miserável e indivíduo patético, Walter tentou a ascensão com o seu génio para a química apenas para destruir tudo o que havia construído em 50 anos de vida. E deixar um rastro de sangue atrás dele.

 

Eu admiro Walter White... como personagem de ficção. É multifacetada, ambígua, tem um intelecto assinalável e é o papel da vida de Bryan Cranston (o que só me faz lamentar como o ator é tão desperdiçado nas escolhas que faz na sua carreira no cinema). Como ser humano, Walter White é um ser repugnante e com uma moral distorcida. Ninguém mentalmente são torce por uma pessoa assim. Na maioria das vezes, Walter é digno de pena: como alguém pode desperdiçar tanto o seu potencial?

 

E é por esta razão que Breaking Bad é ouro televisivo. Obriga-nos a ponderar, a pôr em perspetiva, a avaliar, a reavaliar, a achar que apanhamos tudo e no momento seguinte voltamos à estaca zero e repetimos o processo. Outra vez. E outra vez, e outra vez. No desfecho todas as pontas são amarradas, os conflitos são resolvidos (se é que havia resolução possível) e a história encerra-se exatamente onde teria de acabar. Se há um "defeito" (e uso o termo à falta de melhor) no final é este ser precisamente aquilo que se esperava, de não haver surpresas na última curva, é simples e direto. No entanto, o encerramento dá continuidade lógica aos acontecimentos; não poderia ser de outra forma. Até porque depois do turbilhão emocional do episódio 5x14: Ozymandias dificilmente se atingiria aquele pico de excitação e brilhantismo. Numa visão cínica, esse episódio poderia servir como um final mais do que apropriado. Mas Walter tinha de sofrer. Gilligan queria que víssemos e sentíssemos o seu sofrimento. E percebêssemos que este era mais do que justo. Redutoramente justo, entenda-se.

 

A série não é perfeita. Claro que houve coisas que não gostei. O arranque tem um ritmo demasiado "lento" para o que se espera da uma temporada de estreia; a parte de Marie ser uma cleptomaníaca era dispensável; detestei o clímax do segundo ano lá com a queda do avião a justificar toda uma temporada à espera do que significaria aquele urso rosa; os irmãos ou primos ou lá o que são com movimentos sincronizados eram ridículos (isto é Matrix Reloaded agora?). A série só me agarrou de vez a partir da terceira temporada (quando acontece o ataque ao Hank) e daí é sempre a crescer. Também não gostei da expansão dos negócios para a Europa ser retratada numa única sequência; achei o regresso do cancro e a mudança de Walter brusca; também torci o nariz quando Hank, sempre mais sagaz do que supúnhamos, descobre o segredo numa cagada. E, óbvio, há umas quantas cenas que põem à prova a nossa suspensão de descrença (mesmo no final com aquela metralhadora rotativa).

Todavia isto são pecadilhos perfeitamente desculpáveis diante de tudo aquilo que a série consegue alcançar. Eu poderia abordar os fartos simbolismos da história, a imagética irrepreensível, os planos de câmara inusitados, o esquema de cores, o design de som, a tensão quase palpável de certos momentos, as atuações, os diálogos, a estrutura narrativa altamente cinematográfica e muito mais, mas para isso existem centenas de sites e milhares de artigos que dissecam a produção de uma maneira que eu nunca ousaria fazer. Basta dizer que Breaking Bad é digno de todos os elogios e um dos mais gratificantes e fascinantes entretenimentos que já passaram pelo pequeno ecrã.

Como nunca vi todos os episódios ou todas as séries já produzidas, incomodam-me questões do tipo... mas vale perguntar: será Breaking Bad a melhor série já feita? Talvez. Será a minha favorita? Não. Há uma certa ilha no Pacífico Sul que ainda me arranca suspiros de saudade.

Mas não se enganem: isto foi História a ser escrita. Quem não descobriu está a passar ao lado de uma dos mais portentosas obras do universo do audiovisual.

 

 

Como foi bom acompanhar a queda de Walter White.

 

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publicado às 03:05


3 comentários

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De Cidalia a 02.10.2013 às 20:15

é o problema das grandes series quando acabam.... e agora....
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De Dark a 07.10.2013 às 19:53

Ahhhh, a ilha do pacifico... Tb tenho saudades :(
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De Beth a 23.11.2013 às 03:45

Antero, que texto bárbaro! Que bom ler de vez em qdo opiniões de quem vê a Skyler como uma personagem interessantíssima e bem construída. Melhor ainda se o texto tiver sido escrito por um homem, pois a misoginia tem rolado solta qdo o assunto é a sra. White. Quase todo mundo acha ela apenas uma vaca chata que atrapalha a vida de Heisenberg e que deveria ficar caladinha e agradecer por não levar uns tapas do marido.

Skyler foi, durante toda a série, a única do casal White realmente preocupada com a família. Desde insistir com Walt para ele começar a tratar sua doença, passando por ir pra cama com o chefe só pra irritar Walt e fazê-lo sair de casa, ou lavar o dinheiro sujo da meth pra não expor os crimes do marido à sua família.

No desespero ousou até se separar dos filhos para protegê-los ou se armar com uma faca contra aquele homem perigoso que tomou o lugar do seu marido. Anna Gunn talvez tenha pecado um pouco nas duas primeiras temporadas compondo uma Skyler irritante um tom acima, mas depois firmou sua atuação e merece todos os prêmios possíveis.

Acho que o maior mérito dessa série é mostrar a face dos seus telespectadores, aqueles que louvam as atitudes bad ass de Heinsenberg, acham Jesse um viadinho por seu fraco com crianças ou a sua incapacidade de aceitar sua vida de assassino e ser um "ingrato" e "desleal" com Walt ou a Skyler, esposa chata, controladora e vagabunda. Como alguém brilhantemente escreveu em blog (não lembro quem), em BrBa, a tela da tv tornou-se nosso espelho. Torcer pra esse ou aquele personagem serve pra mostrar um pouco do que nós somos.



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Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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