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Além da Escuridão: Star Trek

por Antero, em 06.06.13


Star Trek Into Darkness (2013)

Realização: J. J. Abrams

Argumento: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof

Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Benedict Cumberbatch, Bruce Greenwood, Peter Weller, Alice Eve
 

Qualidade da banha:

 

Ao escrever sobreStar Trekhá quatro anos referi que a maior vantagem daquela reinvenção (e o termo ajusta-se na perfeição) era ser acessível tanto aos fãs de longa data que eram bafejados com uma lufada de ar fresco como aos recém-chegados que tinham ali uma porta de entrada para décadas e décadas de mitologia distribuídas por filmes, séries, livros e outras plataformas. Um novo universo era criado através do recurso das viagens no tempo, o que, além de demonstrar respeito pelo que já fora estabelecido no cânone da série, implicava que, a rigor, tudo poderia acontecer dali em diante. Por adorar tanto o filme de 2009 (e admito sem problemas: Star Trek nunca foi a minha praia), tinha um enorme receio que J. J. Abrams e companhia não fossem capazes de aguentar o pique e desperdiçassem todo o potencial gerado pela aquela obra – e posso assegurar que estes temores são deitados por terra diante de Além da Escuridão, uma aventura espetacular que faz justiça ao legado deixado por Gene Roddenberry.

 

Escrito por Damon Lindelof juntamente com os mesmos argumentistas do filme anterior, Além da Escuridão agarra o espectador e atira-o para uma sequência de ação frenética logo no início – e nunca mais o larga já que as cenas de ação sucedem-se a um ritmo alucinante. Depois de cumprir uma missão no planeta Nibiru e desrespeitar os regulamentos da Frota Estelar, o agora Capitão Kirk (Pine) é destituído do seu posto e a Enterprise passa a ser comandada pelo seu antigo mentor. É então que um terrorista que dá pelo nome de John Harrison (Cumberbatch) leva a cabo vários atentados contra a Federação e cabe à equipa da USS Enterprise descobrir o seu rasto e detê-lo a todo o custo.

 

Beneficiado pelo facto de já ter devidamente contextualizado as suas personagens, Além da Escuridão expande e enriquece o seu universo obrigando a tripulação da Enterprise a encarar novos desafios que, por sua vez, desenvolvem a dinâmica dos seus elementos. Se o capítulo anterior ancorava a sua narrativa na temática da filiação e das relações pais-filhos, esta sequela vai mais além ao determinar a tripulação como um verdadeiro núcleo familiar e, a partir daí, remeter para temas como a responsabilidade e a maturação emocional requeridas a qualquer membro de um grupo. Neste particular, Kirk assume o papel do líder (ainda) inexperiente que comete erros de julgamento e cuja impulsividade só é atenuada pelos relacionamentos criados com aqueles que o rodeiam, nomeadamente o emotivo Dr. Leonard McCoy (Urban) e o extremamente racional Spock (Quinto). Há uma cena em que estes discutem uma certa decisão e Abrams filma-os sentados em triângulo, o que não poderia ser mais apropriado visto que a dinâmica deste trio é a alma da geração clássica d' O Caminho das Estrelas.

 

E por falar na série original, convém dizer que o argumento de Além da Escuridão encontra tempo para incluir alegorias políticas que refletem questões contemporâneas – e é este lado mais "cerebral" e ambicioso de Star Trek (por oposição à fantasia de Star Wars – que eu amo do coração) que a torna tão respeitada e lembrada após tanto tempo. Desta forma, o filme questiona a validade de uma ação violenta contra uma "nação" vizinha baseada em dados falíveis como resposta a um ato terrorista ou mesmo o recurso a armas de destruição em massa como método de retaliação. Que estas questões venham embrulhadas num pacote de diversão requisitada ao típico blockbuster de Verão em nada desmerece a película: em vez de servirem como desculpa para explosões e tiroteios, estas questões são discutidas com inteligência e acabam por serem as catalisadoras de todos os acontecimentos, culminando num momento dramático em que o próprio Kirk admite que falhou.

 

Sem a frescura e o arrojo da obra que a antecedeu, Além da Escuridão conta com um vilão bem mais interessante que o Nero de Eric Bana: o John Harrison do excelente Benedict Cumberbatch (o Sherlock dasérie homónima) assume-se como uma ameaça letal à Enterprise com a sua voz colocada e sibilante e uma postura que exala frieza e uma perspicácia fora do normal. Entretanto, Chris Pine e Zachary Quinto mostram que nasceram para estes papéis tamanha é a naturalidade com que incorporam personagens míticas e reproduzem a riquíssima interação entre Kirk e Spock. O resto do elenco também se encontra em boa forma ainda que um pouco apagados diante dos protagonistas e do antagonista, embora a história encontre tempo e dê que fazer a cada um deles (e o timing cómico de Simon Pegg continua impecável).

 

Com um ritmo frenético (a meia hora final é um turbilhão de emoções) e momentos de bom humor, Além da Escuridão é simplesmente irrepreensível nos seus aspetos técnicos e visualmente estonteante: desde o planeta com a sua vegetação avermelhada em contraste com um mar impossivelmente azul ao centro de um vulcão em erupção, passando por uma Londres futurista e verosímil, o filme nunca deixa de ser um festim para os olhos (e, felizmente, J. J. Abrams mostra-se mais contido nos seus característicos flares). No entanto, é no equilíbrio entre o clima de aventuras e o peso dramático da narrativa que Abrams realmente se destaca, conseguindo harmonizar momentos mais introspetivos com situações trepidantes – tudo isto pontuado com uma banda sonora sensacional de Michael Giacchino, somente o melhor compositor da atualidade.

 

Incluindo inúmeras referências à mitologia da série que provocará pequenos orgasmos nos fãs, Além da Escuridão consegue a proeza de reutilizar ideias de outros capítulos (um em especial, mas referi-lo pode contar como spoiler – embora a Internet se tenha encarregue de destruir a surpresa) sem parecer uma mera cópia disfarçada de homenagem e usá-las em benefício da sua narrativa ao intensificar os arcos dramáticos de Kirk e Spock. Que Star Trek não vá onde nenhum homem jamais esteve não é problemático desde que a série se mantenha tão excitante e intrigante como tem estado desde que Abrams e companhia operaram uma revolução na velhinha USS Enterprise.

 

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publicado às 20:57


1 comentário

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De vane a 15.05.2014 às 14:39

Eu sou fã da série e estou maravilhada com esta produção. Me reporta aos mesmos sentimentos que sentia quando assistia a série. Perfeito! tomara que continuem com os mesmos autores, diretores, produtores, autores. Amei!

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Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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