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Fringe: o fim

por Antero, em 22.01.13

ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

 

 

Há quase três anos, na ressaca do final de LOST, pedi que me aconselhassem uma nova série que preenchesse a minha necessidade de uma narrativa televisiva semanal inteligente. Indicaram-me Fringe avisando para ser paciente com a primeira temporada que na segunda a história começaria a carburar. Meu dito meu feito: ainda demorei a acabar o primeiro ano, mas devorei o segundo em poucos dias e os poucos episódios do terceiro que me faltavam até chegar à exibição norte-americana também foram despachados em pouco tempo. Fringe era um oásis numa televisão recheada de enlatados criminais e dramas clínicos: com personagens cativantes e uma mitologia riquíssima (algo que divide com a série da Ilha mais famosa da TV), a série era uma ficção científica de primeira categoria que não se acobardava diante dos desafios proporcionados pela sua narrativa - e quando a guerra com a realidade paralela se tornou uma realidade, a série tornou-se numa montanha-russa de emoções que espremia ao máximo as possibilidades dos seus conceitos absurdos.

 

O preço a pagar por não subestimar a inteligência dos espectadores foi o óbvio: audiências pífias e a ameaça do cancelamento nos últimos anos. Como a série não atraía as atenções de um Emmy ou de um Golden Globe e a base de fãs era pequena (embora fiel), é quase um milagre que Fringe tenha conseguido atingir cinco temporadas e a marca de 100 episódios – o que é ainda mais espantoso vindo de uma estação aberta (mais sensível ao impacto nas audiências) como a FOX, conhecida pelas suas decisões de fechar a torneira prematuramente a produtos de fantasia e ficção científica sem nenhum voto de confiança, algo que Fringe beneficiou várias vezes (apesar de, na minha opinião, isto ter influenciado negativamente os rumos da história). Assim, antes de mais há que congratular toda a equipa pelo esforço em manter no ar e conseguirem completar uma arriscada produção que, para salvar a pele, bem poderia basear-se em episódios isolados e personagens unidimensionais como acontece na maioria dos casos na televisão atual.

 

Antes de passar para o final propriamente dito, convém fazer uma recapitulação do ponto onde deixei de comentar a série semanalmente por absoluta falta de tempo: com a busca das cassetes com partes do plano para derrotar os Observadores em curso, Peter implanta em si o dispositivo que fornece aos vilões as suas extraordinárias capacidades, o que, claro, opera no sujeito uma crescente metamorfose que diminui a usa humanidade em prol de uma inteligência e perceção superior que o aproxima da apatia e frieza daqueles que deseja aniquilar. Isto trazia dois problemas: com Peter superpoderoso e capaz por si só de vencer os Observadores, todo o esquema das cassetes e o tempo perdido com elas tornar-se-iam redundantes. A solução encontrada foi trazer Peter de volta à normalidade através da sua relação com Olivia e, por mais que tenha gostado da maneira como isto ocorreu (quando Fringe apela para o lado emocional consegue ser bem lamechas, mas a forma como Olivia recorre ao luto de Etta para resgatar Peter foi simplesmente comovente), não posso deixar de ficar desiludido uma vez que preferia acompanhar a queda do nosso herói no lado negro pela salvação da raça humana do que ficar à espera das informações da cassete seguinte.

 

Voltámos, então, à rotina de antes: recuperar artefactos que pudessem auxiliar no plano final. Ao mesmo tempo, Walter lidava com a "regressão" da sua personalidade para o tempo em que a sua megalomania deitou tudo a perder; sacrifícios foram feitos (a despedida de Nina Sharp foi sensacional); soubemos mais sobre os Observadores, sendo que Windmark, o chefão, tem de responder a um superior muitos anos no futuro (e lança o interessante conceito de "protocolo temporal" que deve ser respeitado); e Michael, o rapaz observador visto na primeira temporada, revela-se como peça fundamental para a missão dos nossos heróis. Filho de Setembro (despojado das suas habilidades devido às suas interferências na linha temporal), o rapaz trata-se de uma anomalia genética na linhagem dos Observadores e que, para sua proteção, foi enviado para o passado antes que pudesse ser detetado e eliminado.

 

 

Mas o que tem Michael de tão diferente? Tal como o pai, ele alia o seu intelecto superior a uma compreensão das emoções que regem os comportamentos humanos – e se Setembro tinha alguma dificuldade em compreendê-las (embora não as negasse), o seu filho demonstra entendê-las na sua plenitude, tanto é que através de lembranças projetadas em Walter que este consegue descortinar que o obscuro Donald é o próprio Setembro, haja visto a amizade que cresceu entre os dois. Desta forma, Fringe continua a pavimentar o caminho que sempre guiou os seus rumos: a parentalidade como definidora do nosso caráter e catalisadora das nossas emoções mais extremas. O poder de Michael, aliás, vai muito além dos seus companheiros de espécie como visto na cena em que Windmark o tenta interrogar e acaba por sofrer dos efeitos secundários recorrentes da extração de memórias.

 

O plano em si sinceramente... deixou-me dececionado. Já se sabe que cada uma das partes teria a sua função, mas vê-lo a ser posto em prática por uma sugestão milagrosa de Astrid revela que o mesmo talvez não tivesse sido tão bem pensado quanto isso. E com tão pouco tempo até o encerramento, era óbvio que nada iria correr mal: enviar Michael para o futuro para demonstrar que esta "anomalia" pode ser uma bem-vinda evolução cognitiva dos Observadores e estes não precisariam de ser criados sem emoções e, deste modo, a invasão de 2015 poderá ser evitada. Walter acompanha o miúdo devido à morte sem sal de Setembro e também para não se tornar um paradoxo temporal capaz de pôr em risco todo o plano – confesso que esta parte não percebi muito bem. Se Walter redesenhasse a linha do tempo, por que raio se tornaria numa ameaça ao sucesso da missão? Ao reescrever tudo, nunca haveria invasão, cassetes, planos, mortes e afins e o cientista seguiria confortável a sua vidinha. A cassete com a revelação de Walter para Peter foi um momento poderoso entre os dois, mas não faz qualquer sentido já que, se tudo corresse como previsto, ela jamais seria vista.

 

Por outro lado, lembraram-se de algo com o qual me questionava há imenso tempo: o Lado B. É através dele que Olivia resgata Michael dos Observadores e como foi bom rever Altivia e Lincoln. Ao longo do episódio final, vários são os momentos que remetem para outros capítulos da série como a droga alucinogénia que simula borboletas mortais, os isótopos radioativos, balas de antigravidade e por aí fora. E, claro, o regresso do cortexiphan, cujas doses maciças injetadas em Olivia permitem-lhe não só cruzar os universos como também ter um acesso de fúria e matar Windmark antes que este se teletransportasse completamente. No entanto, a informação mais importante da conclusão foi sabermos que a expedição que incluía Setembro continha 12 Observadores (cujo nome de código refere-se a cada mês do ano), sendo que este grupo inicial afeiçoou-se de tal maneira à natureza humana (lembrem-se que Agosto morreu por se ter apaixonado por uma humana e Setembro salvou Walter e o jovem Peter do lago por compaixão) que acabam por conspirar contra o reinado de opressão chefiado por Windmark.

 

O plano corre bem: Michael e Walter vão para o futuro e a linha do tempo é reescrita. Tudo o que vimos referente à quinta temporada (mais o episódio 4x19) não aconteceu. A invasão foi impedida e os Observadores não existem... pelo menos não da maneira como os conhecíamos. Assim, como Peter pode estar são e salvo junto de Olivia e da pequena Etta a usufruir de uma tarde no parque? Duas hipóteses:

  • No futuro, Walter pode ter alertado para o envio da expedição original e da necessidade de Setembro (ou outro qualquer) interferir no rumo dos acontecimentos no momento em que Walter cruza o universo para resgatar o filho doente. Assim, a linha do tempo original é preservada até 2015 (as quatro primeiras temporadas) e é a partir deste ponto que tudo foi alterado.
  • Esta é mais complicada: não havendo Observadores também nunca houve expedição original e Setembro nunca existiu para interferir. Logo tanto o Peter do Lado A como o do Lado B morreriam (por razões diferentes) e não haveria Fringe para ninguém. A questão é que... Peter é uma anomalia. Foi apagado no final da terceira temporada e reapareceu em Reiden Lake no início da quarta temporada. Ele próprio conseguiu furar a lógica do seu desaparecimento e as regras não se aplicam a ele. É como se o universo tivesse feito uns pequenos ajustes à sua continuidade devido à ausência de um dos seus elementos: na temporada 4 foi Peter; agora são os Observadores. 

 

Não foi a melhor das temporadas (creio que até foi a menos boa de todas), mas foi um encerramento digno. Como já referi, ter chegado aqui foi um milagre: a indecisão do cancelamento criou uma abrupta reviravolta da terceira para a quarta temporada, originou um final insatisfatório a apressado para esta última e levou a uma temporada final mais curta que, mesmo sem os rasgos de criatividade de outrora, encerrou as pontas convenientemente. Olhando para trás, há que saudar a competência e coesão de Fringe (algo a confirmar numa futura maratona), com uma primeira temporada a plantar as sementes de forma cuidada e lenta (ah, os casos do Padrão!) para injetar fôlego num segundo ano a fazer a ponte para a explosão de ousadia e qualidade narrativas vistas na temporada 3 (ainda a minha favorita). A quarta começou devagar, mas depois arrancou de vez com mais mistérios, nós no cérebro e respostas ansiadas há muito. Esta temporada voltou a mexer na estrutura da série: foram-se os casos da semana e ficava a missão de derrotar os Observadores.

 

E, no meio disto tudo, o que não falhava era a fabulosa galeria de personagens e os seus dramas: Olivia e o seu distanciamento emocional devido a experimentos científicos e a um pai abusivo; Walter e o seu complexo de Deus transformado em remorso que o levou a operar o cérebro, o que lhe forneceu uma deliciosa infantilidade; Peter e a sua gradual e comovente reaproximação do pai. E, claro, os secundários: Astrid, Broyles, Nina, Setembro, William Bell, David Robert Jones, os metamorfos, e tantos outros que pontuaram a narrativa – sem esquecer as contrapartes que habitam o Lado B com os seus dirigíveis, as Torres Gémeas intactas e a sua Estátua da Liberdade de bronze. Mais os conceitos absurdos e divertidos, a mitologia única, e temas universais como a relação pais-filhos, Destino versus Livre Arbítrio, a Ciência como algo a ser simultaneamente contemplado e temido.

 

E agora?

 

Agora olho à minha volta e não vejo nada de bom. Vejo séries de investigação que já devem esgotado o stock de homicidas dos EUA, dramas clínicos cujo emparelhamento romântico de casais já devem ter usado todas as combinações possíveis com o elenco disponível, produtos formatados para um público jovem que os consome sem perceber que subestimam e até insultam a sua inteligência. Acabou-se Fringe e não vejo uma série que me desperte aquele fascínio de dissecá-la, discuti-la, de exercitar o meu cérebro com cambalhotas até ele quebrar, com aqueles momentos "WTF?" ou "PQP!". Não vejo ambiguidade ou engenho (ok, berram-me aos ouvidos "Breaking Bad! Breaking Bad!" e eu juro que hei de lá chegar). Houve uma altura em que estreava a série com o rótulo de "novo LOST". Fringe apareceu nessa altura, foi caracterizada como tal (embora deva mais a Ficheiros Secretos do que a LOST) e daquela fornada foi a única artisticamente bem-sucedida.

 

E para todos aqueles que estão a fritar massa cinzenta à procura de uma explicação para a tulipa branca que Peter recebe nos derradeiros segundos, não pensem muito nisso. Se é um furo ou se há realmente uma justificação para aquilo, essa é a herança que Fringe nos deixa. Erro ou não, se Peter percebe o seu significado ou se Walter conseguiu sabe-se lá como enviá-la, a tulipa vale pelo simbolismo que encerra em si. E nada mais justo que nos despeçamos desta fantástica série com ela.

 

 

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publicado às 23:26


2 comentários

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De Nuno a 23.01.2013 às 03:05

finalmente, já andavas desaparecido! quanto ao final, não foi o mais emocionante mas ainda assim acho que não defraudou a série no seu todo. Não concordo que esta tenha sido a pior. Tinha muitos condicionantes pelo facto de ter de encerrar a série e mesmo assim conseguiu alguns dos mais emocionantes episódios. O Black Botter foi dos mais magníficos exercícios do John Noble na série.
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De Raquel a 31.01.2013 às 14:32

Só queria dizer que também acompanhei a serie e é das minhas favoritas, mas discordo do que disseste sobre o facto da Olivia e o Peter estarem no parque com a Etta. Se o plano para destruir os observadores era que eles nem existissem e o plano foi bem sucedido o Peter no lado B não morre porque o Walter não é distraído pelo September quando está pestes a descubrir a cura para o Peter. Dessa forma o Walter do lado A também não faz a travessia para o outro universo.

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Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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