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Nos Idos de Março

por Antero, em 14.11.11

 

The Ides of March (2011)

Realização: George Clooney

Argumento: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon

Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Phillip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei, Jeffrey Wright
 

Qualidade da banha:

 

Além de excelente ator, George Clooney é um ótimo cineasta e isso volta a ser comprovado por este Nos Idos de Março, um regresso à boa forma por parte do ator/realizador depois do pouco visto (e nem estreado por cá) Jogo Sujo. Tal como no altamente recomendável Boa Noite e Boa Sorte, Clooney mostra-se perfeitamente à vontade a comandar narrativas povoadas por personagens inteligentes que, profissionais ao extremo, se vêm envolvidas em situações complexas. Onde antes tínhamos a guerra entre os média e a política, aqui a primeira passa para segundo plano para dar espaço a um desencantado conto sobre a perda de inocência nas entranhas de uma campanha eleitoral.


Escrito por Clooney, Grant Heslov e por Beau Willimon a partir da peça escrita por este último, Nos Idos de Março mergulha nas primárias democratas para decidir quem será o candidato do partido ao cargo mais importante do país – uma corrida liderada pelo carismático governador Mike Morris (Clooney), cuja campanha é comandada pelo experiente Paul Zara (Hoffman), chefe do assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling). Com um opositor mais conservador que conta com o inteligente Tom Duffy (Giamatti) como estrategista, a equipa de Morris traz ainda a estagiária Molly (Wood), que, ao se envolver com Meyers, permite que este descubra um segredo com potencial para provocar uma reviravolta completa na disputa.

 

Interessante por trazer uma contenda dentro do mesmo partido (os republicanos não são tidos nem achados), o filme desenvolve as personagens como indivíduos totalmente empenhados com o seu trabalho e que parecem estar num intenso e constante jogo de xadrez, o que faz com que admiremos o profissionalismo de Duffy ainda que torçamos pela sua derrota, ao passo que Zara surpreende pela sua perspicácia, pragmatismo e discernimento quando, por exemplo, disseca dolorosamente os motivos de uma ação impensada de Meyers. Neste particular, o fabuloso elenco secundário aproveita o tempo limitado a que tem direito para espremer as suas prestações ao máximo: além de Giamatti e Hoffman, Clooney confere sofisticação e eloquência a Morris, bem como injeta-lhe alguma dignidade por recusar não ceder novamente a propagandas negativas e a lamentar ter de se rebaixar perante potenciais financiadores; e Marisa Tomei retrata com competência a ambiguidade dos média que, consoante a ocasião, são tratados como aliados ou inimigos.

Contudo, Nos Idos de Março é mesmo de Ryan Gosling e do seu Stephen Meyers: demonstrando estar a ter um 2011 em grande depois de incursões tão distintas na comédia Amor, Estúpido e Louco e no vindouro Drive, Gosling faz do assessor alguém idealista e competente, mas inexperiente (ele sorri subtilmente quando é elogiado por Duffy, o que demonstra consideração pelo rival, o que, por sua vez, revelar-se-á um erro) – e é o seu despreparo que poderá deitar tudo a perder quando ele começa a cruzar os limites impostos pela sua idoneidade na defesa da campanha de Morris e, mais tarde, da sua pessoa. Além disso, ele acredita piamente no valor de Morris e isto será o catalisador do grande arco dramático da película e levará a todas as transformações vividas pelo sujeito (o seu olhar de desilusão por o Homem não estar à altura do Símbolo é simultaneamente mordaz e comovente).

 

Encerrando-se com uma bela rima visual que opõe a cena final à inicial em contextos semelhantes, mas tematicamente distintos, Nos Idos de Março merece destaque também por sequências habilmente construídas, como o discurso de Morris em frente à bandeira norte-americana enquanto Stephen e Zara discutem acesamente nos bastidores ou as sombras que envolvem o confronto entre Morris e Meyer. Não tanto uma alegoria do processo eleitoral, mas sim uma história sobre moralidade e desencantamento de um jovem promissor, o filme é um entretenimento sólido, intrigante e inteligente. Tal como as suas personagens.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 18:38


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Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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