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Puro Aço

por Antero, em 04.11.11

 

Real Steel (2011)

Realização: Shawn Levy

Argumento: John Gatins

Elenco: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Kevin Durand
 

Qualidade da banha:

 

Misto de Rocky com Transformers? Parece impossível, mas é isto que Puro Aço propõe: em 2020, o boxe é praticado por robots em vez de humanos, uma medida politicamente correta que visa reduzir a violência crescente do desporto. Charlie (Jackman) já foi um lutador com relativo sucesso, mas os tempos são outros e agora promove combates robóticos de quinta categoria. Cheio de dívidas, ele decide relutantemente passar umas semanas com Max (Goyo), o filho que renegara há dez anos e que é fã da modalidade. Ambos unirão esforços para voltar a ter sucesso nos ringues, reutilizando peças descartadas e a Atom, uma máquina de segunda geração destinada à sucata encontrada por Max.

Só de ler a sinopse acima já posso imaginar o vosso pensamento: "pfff... mais uma história batida de superação, em que o pai e o filho reatam a muito custo, um deles hesitará antes do terceiro ato ter início e até aposto que há um interesse amoroso que debita pérolas sobre o valor do amado...". Tudo isto é verdade e Puro Aço está recheado de clichés, mas com a diferença de que sabe trabalha-los para extrair o máximo de emoção ao espectador sem parecer maniqueísta. Assim, o facto de Charlie receber dinheiro para acolher o filho poderia ser usado para criar um conflito artificial mais à frente, mas logo este dado é sabido por Max que de seguida confronta o pai (e, consequentemente, dá sinais do seu génio forte que, isso sim, será relevante para a narrativa). Mesmo o interesse romântico vivido por Evangeline Lilly é desenvolvido com cuidado para não soar forçado, tendo como função pontuar a relação pai-filho que é o que realmente interessa para a história.

 

Demonstrando um imenso entrosamento em cena, Hugh Jackman e o jovem Dakota Goyo revelam uma química essencial para o sucesso do filme, já que é por eles que torcemos ao longo de duas horas. Jackman, um ator talentoso, demonstra um perfeito equilíbrio entre a comédia e o drama no papel do pai falido e pouco carinhoso que, aos poucos, compreende o verdadeiro peso de criar um filho. Max, por outro lado, é construído pelo argumento como uma criança que, mesmo não querendo, partilha vários aspetos com o progenitor: a paixão pelo boxe, a autoconfiança e uma pontinha de matreirice e língua afiada. Claro que isto não é muito aprofundado ou dramático, mas serve para carregar bem o filme e preparar terreno para o verdadeiro espetáculo: os robots.

Tecnicamente impecáveis, os robots movem-se com total fluidez, são perfeitamente credíveis naquele universo e têm um design que incorpora algumas caraterísticas da modalidade nos seus corpos: como máquina de treino, Atom tem uma fisionomia humana, com o crânio que tem uma grade retalhada (que se assemelha a uma cara), os olhos luminosos, braços com uma aparência de luvas de boxe e pés com formato de sapatilhas. Além disso, o seu visual sujo, datado e podre contrasta brilhantemente com os robots recentes, limpos, brilhantes e tecnologicamente mais avançados - já para não falar no detalhe genial de ele estar preparado para assimilar movimentos humanos como forma de estabelecer um padrão de treino, o que o torna ainda mais humano aos nossos olhos.

 

No entanto, a grande surpresa de Puro Aço é mesmo o realizador Shawn Levy que depois de comandar uma série de comédias insignificantes (À Noite, no Museu; A Pantera Cor-de-Rosa; À Dúzia É Mais Barato), demonstra segurança na condução da película para que esta não descambe no sentimentalismo e, o melhor de tudo, filma os combates de maneira empolgante, com coreografias que remetem diretamente ao boxe e que nos permite vislumbrar o belo trabalho de efeitos especiais ao serviço da história (uma lição que Michael Bay poderia aprender). Só condeno um ou outro pormenor: porquê fazer dos vilões seres arrogantes e desprezíveis? Era mesmo necessário demoniza-los sem comprometer a nossa simpatia por Charlie e Max? E por que não cortar as partes dos credores mafiosos que alongam demasiado a duração? Ou deixar questões em aberto como o facto de Atom ter ou não uma essência?

 

Nada disto retira o brilho a Puro Aço que, previsível do início ao fim, soube tirar partido dos seus pontos fortes, esconder até onde pôde as suas falhas e transformar-se num entretenimento cativante e eficaz.

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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publicado às 03:00



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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