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As Serviçais

por Antero, em 08.10.11

 

The Help (2011)

Realização: Tate Taylor

Argumento: Tate Taylor

Elenco: Viola Davis, Emma Stone, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Allison Janney
 

Qualidade da banha:

 

É difícil não gostar de As Serviçais. É um filme certinho, beneficiado com grandes prestações do seu elenco, enriquecido por uma reconstituição de época competente e que, no seu núcleo, debruça-se sobre uma história humana e com contornos reais. Em contrapartida, trata-se de uma obra convencional, académica, formatada para atacar a próxima temporada de prémios e, quiçá, com uma mensagem desgastada para com os assuntos que pretende discutir. Aí, porém, voltamos às prestações dos actores que dão um verdadeiro espectáculo e são a maior virtude do filme.

 

Baseado no best seller de Kathryn Stockett, As Serviçais passa-se em Jackson, capital do Mississípi, no início da década de 60 e no epicentro da questão dos direitos civis entre brancos e negros. Aibileen (Davis) é uma criada afro-americana de uma família abastada e que se dedica às tarefas do lar bem como à criação dos bebés, tendo já um longo currículo nesse aspecto. A sua melhor amiga é a também criada Minny (Jackson), reconhecida pela sua frontalidade e bons cozinhados. Ambas dividem o esforço de um trabalho árduo e, muitas vezes, sofrem na pele os efeitos da segregação racial em vigor no estado sulista. É então que a jovem Eugenia (Stone), mais conhecida como Skeeter, regressa a Jackson depois de acabar o curso e decide escrever um livro sobre as experiências das criadas afro-americanas, algo que revelará mais obstáculos que aquilo que ela suponha.

 

Centrado nas relações entre patrões e criadas, As Serviçais pinta um retrato nada glamoroso do trabalho das segundas: além do desgastante emprego que as obriga a estar longe das suas famílias (já para não falar de ser mal pago e sem regalias como segurança social), as criadas ainda têm de suportar comentários e atitudes racistas das senhoras que servem por anos. Num contexto social dominado pelas infames Leis de Jim Crow que, seguindo o lema hipócrita "separados mas iguais", dividiam os espaços entre brancos e "pessoas de cor", ditavam comportamentos e definiam castas sociais numa nação que apregoava a igualdade entre seus indivíduos, as criadas eram umas quase escravas sem protecção eficaz da Lei e cujos focos de indignação eram violentamente retraídos. Por outro lado, o argumento deixa bem claro que o que as afecta não é o trabalho em si, mas sim o ambiente de medo e repressão que as rodeia, já que Aibileen, Octavia e restantes companheiras gostam do que fazem, chegam a demonstrar carinho pelas famílias que as empregam e até falam condignamente de antigos chefes.

 

Depois de ter conseguido a proeza de ofuscar Meryl Streep nos poucos minutos que aparece em Dúvida, Viola Davis volta a revelar todo o seu talento na pele da sofrida Aibileen, seja no sorriso contagiante com que recebe as amigas e cuida dos bebés da casa ou a retratar a angústia pelo filho perdido e o ressentimento pelo tratamento reservado pela patroa e as suas colegas superficiais. E mais: ao lado da óptima Octavia Jackson, elas criam uma amizade plena de empatia, bom humor e autenticidade – e é a relação entre elas que conduz o filme, além de proporcionar excelentes momentos de comédia a cargo da debochada Minny. Já a carismática Emma Stone perde força devido ao facto do roteiro tentar fazer dela a protagonista absoluta do filme quando a sua (fútil) trajectória rumo ao sucesso, ao entendimento com a mãe e a arranjar um marido empalidece em comparação com as de Aibileen e Minny (e As Serviçais ganha vida com estas em cena). No entanto, a química entre as três é perfeita e mesmo Bryce Dallas Howard e Jessica Chastain defendem bem as suas personagens unidimensionais, levando-nos a odiar a primeira como uma patroa racista e a comovermo-nos com a segunda como uma dona de casa solitária e carente.

 

Pontuado por factos verídicos como a Marcha sobre Washington ou o assassinato do activista Medgar Evers (o que traz veracidade e urgência à narrativa), As Serviçais tem o seu maior problema na realização convencional, sem identidade e que permite que a história se arraste no terceiro acto, deixando pontas soltas que mereciam ser abordadas (como a prisão das criadas acusadas pelos chefes). Ao preferir concentrar-se na questão de Skeeter e a sua ex-criada e fazer disto o conflito-mor a ser resolvido, o filme perde força, descamba para o que o melodrama tem de pior e acaba tão frívolo como as donas de casa que criticou por duas horas e meia. Vai abocanhar muitas nomeações, isso é certo (e Davis e Jackson merecem), mas é de lamentar como se dilui o imenso potencial de uma mensagem por dramas simplórios e romances da treta.

 

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publicado às 01:47



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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