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Planeta dos Macacos: A Origem

por Antero, em 17.08.11

 

Rise of the Planet of the Apes (2011)

Realização: Rupert Wyatt

Argumento: Rick Jaffa, Amanda Silver

Elenco: Andy Serkis, James Franco, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton
 

Qualidade da banha:

 

De todos os Planetas dos Macacos só vi o original (hediodamente traduzido em Portugal como O Homem que Veio do Futuro) e a espectacular e mal-amada versão de Tim Burton. No entanto, considero a saga como um produto instigante que, para lá do aparato técnico, providencia saudáveis discussões sobre questões sociais como racismo, preconceito, integração, hierarquia, aceitação e liderança – e, como nunca é demais repetir, a aplicabilidade destas discussões no nosso quotidiano a partir de conceitos absurdos é algo que só está ao alcance dos melhores exemplos da ficção científica. Deste modo, é reconfortante perceber como um "recomeço" claramente desenvolvido com intenções comerciais como é este Planeta dos Macacos: A Origem aborda todos os tópicos acima referidos e preocupa-se mais em abordar a moralidade das suas personagens do que em pavonear os seus efeitos especiais que, impressionantes, pertencem à categoria de "cair o queixo".

 

Situado nos dias actuais, o argumento traz Will Rodman (Franco), um promissor e talentoso cientista que procura uma cura para a doença de Alzheimer fazendo experiências genéticas com um vírus em macacos. Este provoca uma mutação nos primatas, aumentando-lhes a inteligência, e, após um acidente com uma das cobais durante a apresentação da cura para um comité de investidores, Will decide adoptar uma das crias que, com o passar do tempo, desenvolve uma inteligência e personalidade únicas. Isto desencadeará uma série de trágicos eventos que levarão a que César (a tal cria) se rebele contra a raça humana.

 

É impossível falar de Planeta dos Macacos: A Origem sem começar por César que é, sem dúvida, o protagonista da história: criado pelos técnicos da Weta Digital com o auxílio de Andy Serkis, o primata é um assombroso progresso na técnica do motion capture (aquela em que os movimentos dos actores são capturados e depois trabalhados) e que já nos havia dado figura marcantes como Gollum, King Kong,  Davy Jones e fartamente usada emAvatar. O esmero na criação de César não passa só pela fluidez dos seus movimentos animalescos ou pela textura do seu corpo peludo que reage com naturalidade às mudanças de luz e ao contacto com superfícies. O que realmente o difere de outras criaturas é o seu olhar e como ele serve de janela para uma infinidade de sentimentos: da pureza mais infantil ao receio do perigo, passando pelo rancor e acabando no amor que sente por Will e o pai deste (que o acolheram e criaram como se fosse da família), César é mais do que um ser bem realizado por CGI – ele é aquilo que muitos actores de carne e osso não conseguem: uma personagem tridimensional.

 

A manifestação destas dualidades é mais do que adequada à proposta do filme que, acima de tudo, funciona como uma parábola sobre a paternidade (Will torna-se indirectamente pai de César para ajudar o seu progenitor), o papel da família e a velha questão do que é ser humano. César torna-se mais inteligente, mas não é nenhuma máquina: tem instintos protectores em relação aos seus, revela certa desconfiança/ciúmes para com novos integrantes no seu círculo e revolta-se contra as restrições que a sociedade lhe impõe, numa trajectória que encontra reflexo na de um adolescente comum que questiona a autoridade paternal e molda o seu carácter através do conflito. O problema (para nós) é que ele é um chimpanzé e, ao ver-se no meio dos seus semelhantes, encontra a força que nunca teria sozinho para ultrapassar as adversidades, numa típica reacção de uma minoria que tenta lutar pela igualdade e aceitação na sociedade.

 

O resto do elenco faz o que lhe é pedido: James Franco é competente no dilema moral de um Will dividido entre a conduta profissional e o dever de pai, John Lithgow é sensível como um pai enfermo, Freida Pinto é bonita que chegue para esquecermos que o seu papel não é mais do que um simples interesse amoroso (embora seja a única a confrontar Will) e Tom Felton (o Draco Malfoy de Harry Potter) encarna o tratador de animais que despreza o que faz como um vilão meramente uniforme. No entanto, o filme é mesmo de Andy Serkis e o seu César: é comovente ver a sua entrega ao choro após uma acção particularmente dolorosa para com Will ou assistir ao seu olhar orgulhoso e confiante após ser aceite pelos seus pares.

 

Oriundo do Reino Unido, o realizador Rupert Wyatt mostra-se perfeitamente à vontade a lidar com milhentos efeitos especiais e a conduzir a narrativa num crescendo de tensão que culmina na espectacular sequência da ponte Golden Gate, na qual as cenas de acção são orquestradas com elegância e impacto. O trabalho de Wyatt (aliado ao roteiro) é tão eficiente que não permite que a previsibilidade da história (ainda mais para quem conhece a série) comprometa a experiência do espectador e merece aplausos pela subtil ironia dramática que atravessa todo o filme: a de que a ruína da Humanidade virá através dos seus próprios actos e não como consequência da revolta dos macacos. Desta forma, Planeta dos Macacos: A Origem revela uma faceta ambiciosa, inteligente e intrigante debaixo da sua capa de blockbuster de Verão.

 

Que mais se pode pedir a uma boa ficção científica?

 

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publicado às 01:54



Banha de Cobra

Alvará

Antero Eduardo Monteiro. 30 anos. Residente em Espinho, Aveiro, Portugal, Europa, Terra, Sistema Solar, Via Láctea. De momento está desempregado, mas já trabalhou como Técnico de Multimédia (seja lá o que isso for...) fazendo uso do grau de licenciado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Gosta de cinema, séries, comics, dormir, de chatear os outros e de ser pouco chateado. O presente estaminé serve para falar de tudo e de mais alguma coisa. Insultos positivos são bem-vindos. E, desde já, obrigado pela visita e volte sempre!

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