Imaginemos os seguintes cenários:
Bem, de acordo com o Projeto de Lei 118, a reformulação que querem fazer à Lei da Cópia Privada vigente, os suportes de armazenamento digitais terão uma taxa extra por cada GB. A desculpa? Direitos de autor. É a forma arranjada para compensar os titulares dos direitos por eventuais casos de pirataria – que, como sabemos, tornou-se prática corrente. É mesmo assim: parte-se do princípio que somos todos culpados e vamos fazer asneiras, o que não só é uma ação de má-fé como também me cheira que seja inconstitucional.
Mas voltemos aos exemplos de cima:
É neste ponto que a porca torce o rabo. Quem é a entidade responsável pelo ressarcimento dos autores? É a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Vejam bem: Portuguesa. Vão compensar os autores estrangeiros? E quem não está registado (sim, é preciso registo) nas suas fileiras? Não é considerado autor? Se alguém copiar este texto na íntegra sem a minha autorização e fizer um audiobook contra este Projeto de Lei, posso recorrer a vocês? E como será feito o processo de compensação? Vão dividir por todos em parcelas iguais? Ou o Tony Carreira leva mais que os Deolinda?
É que se me pedem para pagar por algo que poderei vir a fazer, gostaria de ver mais transparência do outro lado.
Para acalmar o incêndio ateado na blogosfera e nas redes sociais nos últimos dias, a SPA lançou umdocumentoque explica porcamente os pressupostos da Projeto de Lei, chegando ao cúmulo de cometer argoladas como estabelecer um padrão de consumo sem mostrar um único estudo fiável que sustente as suas afirmações (o gráfico no final do ficheiro só pode ser piada); de afirmar que a taxa será cobrada ao fabricante sem que o consumidor saia lesado (como se vivêssemos no País das Maravilhas) ou declarar que equipamentos com maior capacidade venham ser inventados futuramente, provando que desconhecem em absoluto o material que pretendem taxar. Já para não falar que, se isto for avante, o risco das compras online em países com tarifas mais suaves aumenta em flecha. Até me admira as Associações Empresariais, a DECO, uma Fnac ou uma Worten ainda não terem mostrado as garras.
Compreendo a necessidade de preservar os direitos de autor e a justa compensação por eles. A pirataria está aí em força e as indústrias de entretenimento (com a fonográfica à cabeça) levam tareia de todos os quadrantes. E percebo a posição de certos autores em"subscrever"um abaixo-assinado, embora eu creia que muitos deles nem estão verdadeiramente inteirados sobre isto e estejam a ser mal aconselhados.
Não é a aprovar esta Lei abusiva, leviana e imbecil que se resolve a questão da pirataria. Sim, da pirataria, que isto relaciona-se com tudo menos com direitos de autor. Esta não é a melhor forma de lidar com ela, ainda mais com o lobby nojento da SPA e as suas desculpas esfarrapadas.
No entanto, o mais deprimente é que, na mesmanotícia, lemos que todos (TODOS!) os partidos representados na Assembleia da República deram feedback positivo ao Projeto de Lei. Para nos complicar ainda mais a vida, já sabem remar todos para o mesmo lado.
Ide mas é...

The Descendants (2011)
Realização: Alexander Payne
Argumento: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Judy Greer, Beau Bridges, Matthew Lillard, Robert Forster
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O espectador que entrar na sala de cinema para ver a nova obra de Alexander Payne à espera de uma comédia que os faça gargalhar abundantemente, é por que não tem prestado atenção à carreira do realizador. Mais interessado em fazer estudo de personagens do que em arrancar risos do público, Payne desenha indivíduos normais com preocupações triviais - e, por isso mesmo, profundamente humanas. Em Eleição era a ambição de Tracy Flick; em As Confissões de Schmidt era a crise de terceira idade de Warren; em Sideways era a dependência alcoólica de Miles: seres solitários, alienados daquilo que os rodeia e propensos a desvalorizar as suas qualidades ou tudo o que já haviam conquistado. As ocasionais gargalhadas surgiam naturalmente devido à nossa identificação com o drama daquelas personagens que, de certo modo, projetam as nossas próprias dúvidas.
Baseado no livro da havaiana Kaui Hart Hemmings, Os Descendentes traz George Clooney como Matt King, um advogado que mora no Havai e que é o único depositário de um fundo familiar que abrange 25 mil hectares na ilha de Kauai. Quando a família está prestes a firmar um acordo de venda do terreno, a esposa de Matt sofre um acidente de barco e entra em estado de coma. Matt, cuja relação com a parceira não era das melhores, deve então cuidar das duas filhas, a jovem Scottie (Miller) e a adolescente rebelde Alex (Woodley), que nunca foram muito próximas do pai, enquanto lida com o negócio que renderá uma fortuna ao seu clã e tem de decidir se desliga ou não o suporte de vida que mantém a sua esposa.
Usando os cenários do Havai não como postal ilustrado, mas sim para pontuar o clima que quer imprimir no filme, Payne insere as suas personagens num ambiente tropical, mas os seus conflitos são tudo menos pitorescos: Matt tenta reaproximar-se das filhas após o acidente da esposa, mas ironicamente é esta casualidade que os unirá naturalmente e sem recorrer a situações forçadas (não há cá provas desportivas ou musicais para ultrapassar) – o mundo de Matt desaba de vez quando fica a saber do duradouro caso extraconjugal e fica obcecado em saber mais sobre a traição do cônjuge. A partir deste ponto, os incidentes sucedem-se espontaneamente e respeitando os carateres daqueles indivíduos.
O curioso é que nenhum deles é fundamentalmente má pessoa: Brian (Lillard), o amante, poderia ser encarado como um rival de Matt, mas é apenas um homem de família comum que trai a esposa e arrepende-se disso. Mesmo o sogro de Matt, Scott Thornson (Forster), é carrancudo e antipático para com o genro (mas sem exageros) como qualquer sogro seria e isso deriva mais da sua preocupação com a filha (e as suas escolhas) do que propriamente de um choque de personalidades. Até Alex deixa rapidamente os seus lapsos de rebeldia de parte por perceber a gravidade da situação do pai e Scottie é protegida por todos por ainda não ter maturidade suficiente para assimilar o que se passa à sua volta, exatamente como alguém faria com uma criança de tenra idade. Mesmo o estouvado Sid revela-se alguém com uma sensibilidade insuspeita com o decorrer da história.
No entanto, é o cuidado com que Matt é desenvolvido que garante o sucesso de Os Descendentes: ator com um carisma inesgotável, Clooney faz com que simpatizemos instantaneamente com Matt e, apesar de ser um pai ausente e um marido distante, compreendamos a complicada situação para que foi atirado. A sua demanda em tentar atingir algum tipo de resolução antes que a esposa faleça é comovente e Clooney é sensível ao retratar o desgaste dos seus problemas emocionais e familiares e, melhor ainda, tem a inteligência de transparecer uma subtil ambiguidade na cena em que questiona os sentimentos de Brian pela sua esposa: se ele o faz para saciar a sua curiosidade sobre um possível futuro da relação entre os dois, por outro lado percebe que a mesma estaria sempre destinada ao fracasso por causa do estado clínico dela (saber a resposta nunca faria a diferença). Um papel que só poderia recair num experiente ator e um erro de casting aqui poderia pôr tudo em causa.
Payne acompanha todos estes intervenientes de maneira fluida e sóbria: vemos em detalhes a vida emocional de Matt em cacos e percebemos as implicações que envolvem o processo de venda dos terrenos – e, sem forçar muito, Payne mostra-nos que ambas estão intimamente ligadas. Além disso, o realizador tem algumas boas ideias como aquela em que ele desce a câmara para dentro de uma piscina e segue a reação de Alex à notícia do acidente trágico. Com uma lição de moral já batida, mas bem empacotada, Os Descendentes encerra-se numa nota esperançosa e acreditamos que as provações que aquele lar passou nos últimos dias poderão ser ultrapassadas: basta que permaneçam unidos.
ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

Fringe 4x09: Enemy of My Enemy
Título mais apropriado era impossível. David Robert Jones firma-se como a grande ameaça aos dois universos e consegue aquilo que eu suplicava desde o início da temporada: ver os dois Lados a trabalhar em sintonia total em prol do bem de todos. O que não será fácil, uma vez que Jones conta com o Broyles de lá e a Nina Sharp prontos a sabotarem qualquer iniciativa da Divisão Fringe. Só que está lá Peter a fazer a diferença, a variável com que Jones não contava, a deixar os seus planos de regresso para outra altura e disposto a ajudar as Olivias, os Lees e os Walters.
E por falar em Walter(s), acho sensacional como Walternate, visto como o grande vilão da série, reformulou-se para um indivíduo capaz de deixar rancores e mágoas antigas para trás e focar-se essencialmente em proteger o seu universo, percebendo, no processo, que uma aliança é inevitável e será a melhor forma de combater Jones. Walter, porém, recebe a inesperada visita de Elizabeth que, à sua maneira, torna-se a tulipa branca que o cientista encarou como um sinal de redenção (num dos melhores episódios da série) e este decide ajudar o "filho" a regressar ao seu lugar. No final, ficamos com a clara perceção de que a nossa Olivia será fundamental aos planos de Jones. Será que as injeções patrocinadas por Nina revelarão os seus poderes originados pelos testes de cortexiphan (que, nesta realidade, Olivia não chegou a concluir)? Será que Jones os usará para poder cruzar universos mais facilmente e sem sofrer danos colaterais?
Quem tinha dúvidas quanto aos rumos de Fringe na quarta temporada, pode começar a fazer as pazes com esta linha temporal.

The Girl with the Dragon Tattoo (2011)
Realização: David Fincher
Argumento: Steve Zaillian
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Steven Berkoff, Joely Richardson
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NOTA: não posso avaliar a fidelidade da trilogia Millennium em relação às obras literárias que lhe deu origem, uma vez que não as li. Sendo assim, qualquer comparação terá como base a trilogia cinematográfica sueca, falada sucintamenteaquieaqui.
Havia necessidade de Hollywood adaptar os livros do falecido Stieg Larsson quando estes foram levados ao grande ecrã há meros dois anos e que foram um sucesso em todo o Mundo? No aspeto comercial, há sempre necessidade: como os norte-americanos são avessos a legendas, é preferível refazer tudo por um balúrdio do que gastar um ou dois milhões de dólares a adquirir os direitos do original, legendá-lo e distribui-lo. Esta lógica distorcida dita os rumos da indústria há décadas e é mais uma prova da sua falta de criatividade. Por outro lado, do ponto de vista artístico, esta nova versão de Os Homens que Odeiam as Mulheres é perfeitamente válida e tem os seus méritos, embora não seja assim tão superior à película sueca que a antecedeu.
Primeiro capítulo da trilogia Millennium, Os Homens que Odeiam as Mulheres traz o jornalista Mikael Blomkvist (Craig) caído em desgraça após perder um processo em tribunal por difamação contra um influente empresário. Decidido a afastar-se do cargo de editor da revista Millennium e com as finanças arruinadas, Mikael aceita o convite de um velho industrial do norte da Suécia, Henrik Vanger (Plummer), para que se instale na sua moradia e desvende um mistério com 40 anos: o desaparecimento da sua sobrinha-neta, Harriet, que ele acredita ter sido morta por alguém do seu clã. Enquanto isso, Lisbeth Salander (Mara), uma analista e pirata informática que já investigara o passado de Mikael, vê a sua já tumultuosa rotina virar do avesso com o colapso do seu tutor legal e terá uma nova oportunidade quando for recrutada para ajudar na investigação da morte de Harriet.
Escrito pelo experiente Steve Zaillian a partir do livro de Larsson, o argumento mantém a ação na Suécia fria e melancólica do original, uma decisão acertada que visa conservar a ambientação sombria que rodeia as personagens ao mesmo tempo que respeita e explora o grande tema da trilogia: o peso do passado. Tal como aqueles indivíduos vivem em conflito por causa de atos obscuros que vivenciaram, a própria Suécia, país dito evoluído e estável, tem os seus esqueletos no armário refletidos na ascensão do clã Vanger e as suas ligações antigas ao partido Nazi (embora não deixe de ser curioso ver atores de Hollywood a interpretarem suecos que se expressam em inglês com sotaque).
Objeto mais cinematográfico que o original (que era notoriamente um produto televisivo), Os Homens que Odeiam as Mulheres é menos explícito e violento e, aqui sim, podemos afirmar que é um filme "americanizado", mas que não deixa de retratar mortes, torturas e violações – e fugir destes tópicos seria trair a essência da história. David Fincher, habituado a estas andanças, faz um bom trabalho a conduzir uma narrativa intrincada e a estabelecer um clima soturno de perigo e mistérios que inquieta e fascina na mesma medida. No entanto, Fincher não consegue escapar a um terceiro ato que se estica para lá do ideal (algo que já afligia o original) e que a resolução se dilua num sentimentalismo que não combina com o que viramos antes (e isto não acontecia no filme sueco), mas estou tentado a perdoar-lhe estes percalços apenas pela ótima ideia de usar uma cover da Immigrant Song dos Led Zeppelin no brilhante genérico inicial.
E se a narrativa é intrigante, muito deve às suas personagens e ao cuidado com que estas são desenvolvidas: Mikael não é um indivíduo isento de falhas, mas é o seu apego à verdade que guia as suas ações, o que condiz com o seu perfil investigativo. Metódico e altamente racional, ele faz as perguntas certas sem temer as respostas e agarra-se aos factos mesmo quando o caso começa a ameaçar a sua segurança pessoal. Vanger, por outro lado, surge como um idoso vivido que respeita e acarinha os laços familiares e até encara com bom humor as zangas entre os seus, embora deixe transparecer uma certa paranoia e desgaste por uma questão que o consome há décadas, ao passo que Robin Wright, numa participação pequena, demonstre imenso profissionalismo como colaboradora de Mikael na Millennium sem deixar que a saúde financeira da revista a impeça de se preocupar com o colega e amante ocasional.
E eis que chegamos a Rooney Mara e à sua Lisbeth Salander, o centro emocional da história. Com uma existência marcada pela violência, Lisbeth sofreu abusos de todos aqueles que exerciam algum tipo de autoridade sobre ela e não é de admirar que ela adote uma postura defensiva (quase autista, diria) em relação àqueles que a rodeiam – não por acaso, ela traz tantas marcas (tatuagens, piercings) no corpo e se comporte como uma marginal, apenas encontrando conforto nas suas atividades ilícitas e em encontros sexuais fugazes. Em contrapartida, há algo de vulnerável na sua pessoa, como se ela estivesse em constante busca por alguma paz interior que acalme as suas experiências e é na parceria que se desenvolve com Mikael que ela se depara com alguém em quem pode confiar plenamente. No original, a sua impressão positiva sobre Mikael surge aquando a sua investigação privada; aqui, cresce naturalmente à medida que o caso avança. É um papel de total entrega de Mara, com uma transformação física que só encontra paralelo na intensidade com que é levada ao ecrã. Os seus esforços só perdem pelo fator novidade, já que a visceral prestação anterior de Noomi Rapace foi marcante e ainda está fresca na memória.
Mesmo sem abordar a fundo no passado de Lisbeth (uma curta menção e só) que será o estopim dos capítulos seguintes, Os Homens que Odeiam as Mulheres está uns furos acima da película sueca que a precedeu e deixa excelentes indicações de que poderão levar os próximos filmes a outro nível, algo que os originais falharam redondamente. Quando Hollywood pensa e executa com cuidado, só podemos esperar coisas boas.
ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

Fringe 4x08: Back To Where You've Never Been
Primeiro episódio do ano de Fringe, audiências péssimas e a Máquina do Cancelamento promete ser mais aterradora que a Máquina do Apocalipse. Tudo por que este reboot que deram à série mostra-nos novas camadas numa estrutura narrativa pensada ao pormenor: este quarto ano é análogo à primeira temporada. E nada como brincar com todas as possiblidades de novos universos sem cair na repetição, como as variações das personagens que já conhecemos, mas que surgem frescas aos nossos olhos, com outras motivações embora sejam, essencialmente, as mesmas. Será uma pena se a série for cancelada antes de atingir todo o seu potencial.
Depois de receber uma nega de Walter em ajudá-lo a voltar para "casa" (numa ótima cena onde John Noble brilha ao recordar o suicídio da esposa), Peter decide invadir o Lado D para pedir auxílio a Walternate, mas Lincoln e Olivia têm outros planos e decidem ajudá-lo de maneira a reunirem provas que sustentem a tese que o outro universo é o responsável pelos transmorfos 2.0. Do lado de lá, as coisas complicam-se para Lincoln e Peter é reconhecido pela sua "mãe" (noutra ótima cena) que o leva a Walternate. Este revela-se tudo menos o responsável pela variante dos transmorfos e até daquele lado a infiltração destes seres em altas cúpulas atingiu dimensões alarmantes. Walternate promete ajudar Peter se este colaborar a resolver esta conspiração, algo que Peter relutantemente aceita.
Em mais uma demonstração de que a história desenvolve-se a partir de ideias já vistas, porém com novas nuances, é o facto de trazer novamente David Robert Jones, o tal da organização ZFT (lembram-se?) e morto no final da primeira temporada (é ele a quem Peter se refere quando diz que matou um sujeito ao desativar o portal), como o autor por trás dos planos com os transmorfos, embora seja improvável que estejam relacionados diretamente com William Bell, já que este não deverá aparecer mais devido à recusa de Leonard Nimoy. E quais serão os seus motivos? Estarão novamente ligados com a Massive Dynamic? Sabemos que o Broyles do Lado D (Droyles?) trabalha com ele e "deste" lado? E como e porquê Setembro foi baleado e, mais importante, que quis ele dizer ao afirmar que em todos os futuros possíveis Olivia terá de morrer? Como assim? A morte dela é essencial na resolução de tudo? Só esta Olivia ou todas as existentes?
Confesso que já tinha saudades de me debruçar sobre questões assim. Ainda bem que Fringe voltou!

My Week With Marilyn (2011)
Realização: Simon Curtis
Argumento: Adrien Hodges
Elenco: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Emma Watson, Judi Dench, Dominic Cooper, Zoë Wanamaker, Dougray Scott
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Em 1957, duas lendas da Sétima Arte uniram esforços para dar vida ao casal da película O Príncipe e a Corista: Sir Laurence Olivier (Branagh) e Marilyn Monroe (Williams). Realizado e produzido pelo primeiro, o filme exigiu que Monroe viajasse para o Reino Unido a fim de participar numas filmagens que se revelariam turbulentas devido ao seu apego pelo Método criado por Lee Strasberg (e desprezado por Olivier), a sua notória dependência química (que atrasava a rodagem) e aos problemas da sua vida pessoal. É neste ambiente que o jovem Colin Clark (Redmayne), terceiro assistente do realizador, aproxima-se da diva que o fascina e acompanha-a na tal semana do título, que se refere ao período em que a produção foi suspensa e o marido de Marilyn, o escritor Arthur Miller (Scott), ausenta-se para os EUA com a desculpa de ir visitar os filhos.
Baseado em duas autobiografias escritas por Clark, A Minha Semana Com Marilyn retrata a difícil rodagem e a sua problemática protagonista. Dona de um carisma único e infindável frente às câmaras, Monroe estava longe de corresponder à imagem de estrela que a rodeava: insegura, carente e toxicodependente, Marilyn era uma figura para a qual ter o Mundo a seus pés não era o suficiente. Rodeada de indivíduos que viviam para mima-la, Monroe buscava afeto genuíno naqueles à sua volta e quando recebe um elogio da consagrada Dame Sybil Thorndike (Dench) ela reage com a emoção de uma criança inocente, como se precisasse de comprovar o que a veterana atriz acabara de dizer. Outro aspeto abordado era a sua constante demanda por uma figura paterna (ela nunca conheceu o pai) e, assim, é natural que ela tenha crises de confiança com a desaprovação de Olivier, a autoridade no estúdio, para com as suas prestações e tenha tido um historial de envolvimentos românticos com homens mais velhos.
Por outro lado, se Marilyn não era a mais talentosa das atrizes (e não era), ao menos tinha interesse em aprender mais sobre o ofício e, mais importante, estava ciente do seu magnetismo perante as objetivas e sabia como transbordar sensualidade para os olhares alheios. Havia uma imagem a defender e Marilyn fazia-o como poucas. Todas estas facetas são personificadas num trabalho assombroso de Michelle Williams: o andar, os trejeitos, o olhar simultaneamente doce e vulnerável, o sorriso contagiante e principalmente a voz, tudo é feito ao pormenor numa incorporação total de Williams que ultrapassa a mera imitação. Nós não conhecemos Marilyn em toda a sua plenitude, mas não é difícil acreditar que tenha sido algo assim - ou melhor, Williams faz-nos acreditar que tenha sido assim.
Colin, por sua vez, tem o olhar esperançoso digno da sua juventude e os esforços do rapaz em subir na vida sem recorrer à sua abastada família são louváveis. Completamente hipnotizado pelo brilho de Marilyn, o seu fascínio é justificado pela sua imaturidade emocional - e mesmo quando o lado negro da estrela é-lhe escancarado, ele tem o impulso de protegê-la e não de condená-la (o que também revela um claro traço de manipulação da parte dela). Olivier, com um monstruoso ego só comparável ao seu imenso talento, desmistifica a atriz à medida que esta o tira do sério com os seus vedetismos e recaídas, mas reconhece-lhe valor por ter subido na vida e sobrevivido ao "veneno de Hollywood". Num dos melhores diálogos do filme, Colin descreve-os como "um grande ator que quer ser uma estrela e ela como uma estrela que quer ser uma grande atriz".
Com um elenco competente a dar vida a figuras míticas como Vivien Leigh ou Paula Strasberg (esposa de Lee), A Minha Semana Com Marilyn não tem um arco narrativo na verdadeira aceção da palavra. Podia ser sobre a ilusão e consequente desilusão de um jovem com o seu ídolo, mas isto não é muito aprofundado (sim, Colin cresce com a experiência, mas a sua vida segue normal). Podia ser sobre a rodagem de O Príncipe e a Corista, mas isto serve apenas para pontuar a narrativa e não se torna o centro absoluto da mesma, apesar da recriação credível dos estúdios Pinewood. O filme é mesmo de Marilyn Monroe. Da lenda do cinema. Da frágil mulher que lhe dava corpo. Da tragédia que se avizinhava. Do seu poder e das suas fraquezas. De tudo o que tinha e tudo o que lhe faltava.
É também o filme de Michelle Williams, uma excelente atriz que pode ter aqui a sua merecida consagração.

Sherlock Holmes: A Game of Shadows (2011)
Realização: Guy Ritchie
Argumento: Kieran Mulroney, Michele Molroney
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Jared Harris, Stephen Fry, Kelly Reilly, Rachel McAdams
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Em 2009, Guy Ritchie apresentou uma variação sobre a figura icónica do detetive Sherlock Holmes: direcionado para as gerações recentes, Holmes é agora o típico herói de ação, mas sempre acompanhado do inseparável Watson e ainda é o inferno da sua senhoria. Altamente perspicaz e inteligente, a personagem respeitava a essência das obras de Sir Arhur Conan Doyle apesar de todos os exageros impostos pelo faro comercial. Assim, não deixa de ser dececionante que Ritchie, após ser bem-sucedido na tarefa introduzir um renovado Holmes, repita a mesma fórmula do original, ampliando o que aquele filme tinha de pior.
Escrito pelo casal Molroney, Sherlock Holmes: Jogo de Sombras passa-se algum tempo depois dos eventos do primeiro filme: uma série de atentados terroristas, mortes de figuras célebres e aquisições em larga escala levam a que Sherlock (Downey Jr.) relacione-as com o temível Professor Moriarty (Harris). Com o fiel Watson (Law) prestes a casar com Mary (Reilly), Holmes decide levar a investigação avante apesar da recusa do amigo em acompanhá-lo – algo que os fará ir no encalço de Simza, uma cigana que inadvertidamente foi envolvida nos planos de Moriarty.
Situado na mesma Londres vitoriana suja e sombria e depois passando para faustosos cenários europeus como Paris e os alpes suíços, Sherlock Holmes: Jogo de Sombras tem no design de produção e na fotografia os seus pontos fortes: da Ópera de Paris aos bosques alemães, passando pelas ruelas londrinas e na utilização de inovações da época como o automóvel e a massificação dos comboios, tudo surge com um misto de elegância e negrume sem que estas facetas distintas se anulem uma à outra e – com o auxílio de abundantes efeitos especiais – se complementem numa atmosfera de intrigas e mistérios.
É triste, portanto, que o argumento não tenha ponta por onde se lhe pegue e insista, mais uma vez, numa história desnecessariamente confusa e absurda, desperdiçando até o potencial de contar com o arqui-inimigo de Sherlock, cujos planos mirabolantes têm a megalomania de um vilão de James Bond e não da sofisticação digna do detetive. Sofisticação que aparece somente no último confronto entre os dois com uma partida mental de xadrez mas, a esse ponto, já os viramos em confrontos físicos e em ocasiões em que Moriarty tenta eliminar o rival com... armamento pesado!
Talvez cansado de personificar figuras excêntricas (e de carregar filmes nas costas), Robert Downey Jr. está no piloto automático como um Holmes cuja genialidade é substituída pela corrida desenfreada e lutas constantes, enquanto Jude Law parece tão cansado como o seu Watson por ser obrigado a aturar e a ajudar o amigo vezes sem conta – e a dinâmica entre ambos, tão salutar, fluida e divertida no primeiro filme, surge aqui como uma quase dependência por parte de Holmes (o médico quer estar com a amada, porém é arrastado para um novo caso... outra vez!) e um frete da parte de Watson. Por outro lado, Jared Harris dá tudo o que pode como Moriarty e se o vilão não é mais assustador a culpa não é sua, mas sim do argumento, ao passo que Noomi Rapace torna-se, em pouco tempo, nasegundaintegrante do cinema nórdico a não causar impressão alguma numa superprodução de Hollywood (e nem vou abordar as pequenas participações de Kelly Reilly e Rachel McAdams que, com pouco tempo de antena, limitam-se ao mesmo... que já não era memorável.).
Com uma história aborrecida e um elenco subaproveitado, não admira que Sherlock Holmes: Jogo de Sombras seja tão entediante apesar dos esforços de Guy Ritchie em que o espectador não perceba a mísera história que tem em mãos. Mesmo o seu reconhecido virtuosismo acaba por resvalar para o excessivo com as gratuitas câmaras lentas que aparecem em toda a projeção (e esse exagero culmina na sequência em que as personagens fogem por uma floresta debaixo de fogo intenso). Tudo isto seria perdoável se Ritchie aproveitasse a oportunidade para expandir aquele universo (cenários diferentes não contam) e mergulhar a fundo nas motivações das personagens. Assim, temos o indivíduo peculiar com faro para conspirações, o fiel companheiro que se junta a ele por razões desconhecidas e o mauzão que almeja conquistar o mundo.
E explosões, muitas explosões.
Mais um final de ano, mais uma vez a já tradicional lista de melhores e os piores filmes estreados em Portugal em 2011, segundo a minha opinião.
1
Cisne Negro
Black Swan
Um estudo intensivo sobre a Arte, uma jornada emocional arrebatadora, um thriller psicológico impecável e uma Natalie Portman num verdadeiro tour de force.
2
A Árvore da Vida
The Tree of Life
Definitivamente não é para todos, mas o novo de Terrence Malick é mais do que um filme: é uma experiência única, profunda e simbólica e que abarca temas prosaicos como a família, a educação e a adolescência, e outros mais filosóficos como Deus, a natureza humana, o sentido da vida. Pode custar a ver, mas é altamente recompensador.
3
Sangue do Meu Sangue
Sangue do Meu Sangue
É o regresso de João Canijo à boa forma e com mais um relato do Portugal contemporâneo, da família suburbana, com ocupações banais e preocupações quotidianas. Sangue do Meu Sangue é também uma ode ao feminismo e à maternidade num elenco com prestações brilhantemente homogéneas e encabeçado pela enorme Rita Blanco a destilar todo o seu imenso e reconhecido talento.
4
Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro
Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro
Menos trepidante na ação, mas mais intenso do ponto de vista narrativo, Tropa de Elite 2 faz o que só as melhores sequelas fazem: aprofunda a questão, explora novas possibilidades e dá seguimento lógico à trama.
5
X-Men: O Início
X-Men: First Class
A premissa não era nada de especial (oh, uma prequela!), o marketing só metia água (havia uns cartazes medonhos) e o filme não prometia muito. No entanto, a realização segura de Matthew Vaughn aliado a um argumento inteligente e ambicioso deram-nos um dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos, com fascinantes e carismáticas personagens, discussões maduras e adultas sobre integração e diferença, e espetaculares sequências de ação.
6
Indomável
True Grit
Mais uma obra que comprova a versatilidade dos Irmãos Coen e da capacidade da dupla em adaptar-se às necessidades de cada projeto, Indomável é também ainda melhor que a obra que refilma graças a personagens ambíguas, à revelação Hailee Steinfeld e uma belíssima fotografia de Roger Deakins.
7
Nos Idos de Março
The Ides of March
Depois do louvável liberalismo de Boa Noite e Boa Sorte, George Clooney não parece tão preocupado com intrigas políticas, mas sim com o processo de corrupção dos príncipios de um jovem promissor nas agerridas campanhas presidenciais. Recheado de personagens inteligentes que mergulham em situações complexas, Nos Idos de Março pode ter pouco a dizer sobre o processo eleitoral norte-americano (ou português, ou francês,...), mas não deixa de ser um entretenimento sólido e intrigante.
8
A Melhor Despedida de Solteira
Bridesmaids
Não deixa de ser irónico que o melhor filme vindo da casa de produções de Judd Apatow tenha mulheres como centro absoluto da narrativa. Pois é, isto é Bridesmaids: uma comédia hilariante, com situações construídas de maneira genial, e onde a carismática Kristen Wiig mostra que tem tudo para explodir em Hollywood.
9
Rango
Rango
Ano para esquecer para a Pixar, a melhor animação do ano é este fabuloso Rango, uma inusitada e divertida homenagem ao western, recheado de metalinguagem, um excelente design de produção, um ótimo elenco de vozes e sequências de ação inventivas e cativantes.
10
O Código Base
Source Code
Uma ficção científica exemplar (e que falta nos têm feito): apresenta um conceito interessante, explora-o a fundo e, melhor, apresenta questões de fundo filosófico-existencial enquanto cria personagens complexos.
Outros destaques de 2011, por ordem alfabética:
50/50
Blue Valentine - Só Tu e Eu
O Castor
O Deus da Carnificina
Despojos de Inverno
Drive - Risco Duplo
Enterrado
Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2
Splice - Mutante
Provavelmente estão a sentir falta nesta (ou até na próxima) lista dos últimos de Woody Allen, Pedro Almodóvar ou de Lars von Trier. O problema é que não consegui vê-los a tempo do final do ano e certamente que eles teriam lugar nesta listagem.
-10
A Rapariga do Capuz Vermelho
Red Riding Hood
Catherine Hardwike, realizadora do primeiro Twilight, decidiu fazer um Crepúsculo só dela ao reinventar a história de Capuchinho Vermelho. O resultado: uma salada indigesta de contos de fadas, desejos ardentes, carinhas larocas, diálogos risíveis e um Gary Oldman a dar tudo de si para escapar à vergonha. E um elefante gigante dourado inexplicável.
-9
Invasão Mundial: Batalha Los Angeles
Battle: Los Angeles
Os aliens mais miseráveis da galáxia perseguem os nossos heróis escondidos em edifícios para, mais tarde, escaparem como puderem e resguardarem-se noutra estrutura a salvo dos extraterrestres. Por quase duas horas!
-8
Cuidado Com o Que Desejas
The Change-Up
Jason Bateman e Ryan Reynolds numa comédia cujo maior feito é não ter uma única piada memorável. Minto: é bem capaz de ter a dupla de bebés mais bizarra e assustadora que alguma vez vi e que, daqui a uns anos e com agentes de jeito, estarão no próximo O Génio do Mal.
-7
Conan, o Bárbaro
Conan, the Barbarian
Trouxeram a personagem do limbo com mais sangue, violência e um espírito mais próximo das origens e... pffff! A história é um engodo, o ritmo é digno de um Príncipe da Pérsia (não é um elogio) e Jason Momoa talvez consiga carregar o filme pelos músculos, mas nunca pelo carisma. E por que fala ele como se estivesse a precisar urgentemente de Mebocaína?
-6
Dylan Dog: Guardião da Noite
Dylan Dog: Dead of Night
Produção que assentava melhor no canal SyFy do que no grande ecrã, a adaptação de uma banda desenhada de culto é um esforço inglório e aborrecido que mistura desajeitadamente comédia e terror numa narrativa incompreensível e recheada de clichés.
-5
As Viagens de Gulliver
Gulliver's Travels
Jack Black a fazer de Jack Black não é necessariamente mau, mas num filme que descura história a favor de efeitos especiais (que nem são tão especiais assim) e piadas desinspiradas não há talento cómico que nos valha.
-4
O Turista
The Tourist
Um embaraço a todos os níveis, este filme crê que juntar duas estrelas de Hollywood é o suficiente para garantir o sucesso. O argumento é anedótico, os cenários reais são desaproveitados, o ritmo é sonolento, mas a prova maior da incompetência de O Turista é o facto de que a química entre Johnny Depp e Angelina Jolie é inacreditavelmente nula.
-3
Transformers 3
Transformers: Dark of the Moon
Mais duas horas e meia de agonia patrocinadas por Michael Bay e seus companheiros: ação descerebrada, estereótipos a fazerem de personagens, meio de recrutamento militar, overdose de efeitos especiais, mil cortes por minuto, câmaras lentas, planos circulares, filtros amarelos, gajas boas, e – a assinatura do realizador – um fiapo de história.
-2
Engana-me Que Eu Gosto
Just Go With It
Outro ódio de estimação, as parcerias de Dennis Dugan e Adam Sandler já se tornaram uma rotina anual, uma fonte de prazer em si mesmo e até me ajudaram a conhecer melhor: há um claro sadismo da minha parte em ver estes atentados (ia escrever "comédias", mas não tive coragem) só para ver o fundo do poço ganhar ainda mais profundidade. Dificilmente haveria coisa pior este ano, mas eis que...
-1
A Saga Twilight: Amanhecer – Parte 1
The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 1
Todos sabem o quanto abomino os filmes Twilight, mas as fãs vão ter de ter paciência que este novo capítulo é indefensável. É uma porcaria. Uma perda de tempo. O pior dos quatro. Vou repetir: o pior... dos quatro! Conseguem perceber o quão abjeto é este filme? Eu não esperava muito, mas duas horas depois estava afundado na poltrona do cinema com vergonha alheia. Vou temer pela minha sanidade quando o próximo estrear já que pior não pode ficar! Assim espero... ou o Hospital Magalhães Lemos será o meu destino.
Outros destaques (pela negativa) de 2011, por ordem alfabética:
Arthur
Carros 2
Chefes Intragáveis
Green Hornet
Hereafter – Outra Vida
Killer Elite – O Confronto
O Ritual
Sem Tempo
Transgressão
Momentos marcantes (para o bem e para o mal) do ano cinematográfico:
Bom ano e bons filmes!
ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

Dexter: temporada 6
Oh, God! – exclama Dexter antes de encerrar o seu sexto ano. Que bosta de final! E de temporada! – acrescento eu.
Seria de esperar que a série quisesse recuperar-se da fraca temporada anterior e os rumos até apontavam nesse sentido: a discussão sobre religião trazia um seguimento lógico a uma personagem que busca algum tipo de redenção e de integração numa sociedade na qual tem de ocultar e redirecionar constantemente a sua essência. A figura de Brother Sam, um indivíduo que encontrou na Fé a salvação para um passado criminoso, oferecia o contraponto necessário para a postura cética do nosso anti-herói enquanto Travis e Geller estabeleciam-se como vilões eficientes, mas nada digno do Trinity de John Lithgow (já lá vamos à grande "revelação" da temporada). Nisto, Brother Sam é assassinado e, ao vingá-lo num momento de raiva absoluta, Dexter é acometido pelo lado negro do seu Passageiro Sombrio, antes suavizado pela figura paterna, e agora controlado pela imagem do seu irmão, o Ice Truck Killer. Pena que durou tão pouco.
Em tantos aspetos que me incomodaram, este foi um deles: a tendência da narrativa não mergulhar a fundo nas suas ideias. A discussão religiosa ficou pela superfície, talvez por receio de irritar uma parcela do público, e mesmo o facto de ver um Dexter tomado na íntegra pelo seu instinto homicida foi resolvido num capítulo. Pior que isto, só deixar narrativas pelo meio, num puro desperdício de tempo e de talento do elenco: o imbróglio de Matthews serviu para provar a idoneidade de Debra e o jogo sujo de LaGuerta, mas e daí? Batista e Quinn pareciam saídos de uma comédia policial, o novo detetive não serviu para nada, a irmã do Batista e o estagiário do Masuka ocuparam mais tempo do que deveriam e nem quero pensar que este está a ser preparado para ser o próximo vilão apenas por... não conseguir impressionar o Dexter! Até atentados terroristas tivemos este ano. Cruzes!
Nada disto se compara à imbecilidade de criar uma trama romântica entre os irmãos Morgan. Tudo bem que eles não irmãos biológicos, mas – que caraças! – eles foram criados juntos desde cedo! E nada disto foi minimamente abordado nos últimos anos. De onde surgiu isto, então? Ora, da necessidade de estabelecer um conflito em Debra aquando a sua descoberta do segredo do irmão, talvez por que amor fraternal não seria suficiente nas cabeças acéfalas de quem idealizou tamanha cretinice. E dá-lhe sessões com a terapeuta menos articulada da História (deu saudades de In Treatment) capaz de convencer a pobre Debra que a sua dependência do irmão é... amor! E dá-lhe quase orgasmos na presença de Dexter! Chiça, penico!
Quanto à revelação que Gellar é uma alucinação de Travis, bem... desconfiei logo no primeiro capítulo. Afinal, se Dexter tem o seu pai para o auxiliar, não seria descabido pensar que um novo assassino poderia ter um semelhante. No entanto, uma mera suspeita tornou-se algo ridiculamente óbvio ao arrastarem a questão semanas a fio e tornou-se vergonhoso perceber que Travis, desenvolvido como um sujeito normal levado a cometer atrocidades em nome da Fé (um tópico corajoso e ambicioso), logo foi transformado num psicopata esquizofrénico caricatural igual a tantos outros - uma solução covarde e preguiçosa. E que me perdoem aqueles que gostaram de Debra ter descoberto que o irmão é um assassino, mas eu gostaria que a situação tivesse sido construída com mais cuidado e não que ela decida, do nada, declarar-se para o irmão... e numa cena do crime! Ou seja, isto veio com uma temporada de atraso, o que aumenta mais a minha irritação com os caminhos que Dexter tomou nos últimos dois anos.
Não posso deixar de referir aqui os numerosos momentos constrangedores que rechearam esta temporada e cá vão eles:
Acho que já chega.
Não nego que a próxima temporada tem um potencial enorme, mas receio que os produtores vão arranjar novas formas de estragar tudo em vez de levá-la a bom porto. O Dexter que conheciamos está agora no Paraíso das Séries juntamente com LOST, Seinfeld, Friends e Os Sopranos. Amputada de dois membros, é certo, mas eu estou em crer que lá em cima também se preocupam com questões de acessibilidade.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.
ALERTA DE SPOILER! Este post contém informações relevantes, pelo que é aconselhável que só leiam caso estejam a par da exibição norte-americana.

Homeland: temporada 1
Há várias semanas que queria escrever sobre Homeland, sobre o prazer que ela me devolveu em acompanhar uma série todas as semanas, isto numa altura em que as estreias não chamam a atenção (American Horror Story?! Terra Nova?!), em que as de longa data apresentam imenso desgaste (How I Met Your Mother, House) e ainda outras que vão ladeira abaixo (Dexter foi particularmente penoso de assistir, mas isso fica para outro texto). Esfriei os ânimos e decidi esperar pelo final, não fosse desapontar-me a valer. Felizmente, isso não aconteceu. Pode ser difícil de acreditar, mas desde o primeiro ano de LOST que eu não via uma temporada de estreia tão absorvente, intensa e viciante.
Baseado num original israelita, Homeland começa com o regresso do sargento Nicholas Brody de regresso aos EUA após um cativeiro de oito anos no Iraque como prisioneiro de guerra da Al-Qaeda. De regresso a uma família que já havia seguido o seu rumo sem o patriarca, Brody é encarado como um herói por todos exceto a agente Carrie Mathison, que tem a informação de que um militar norte-americano foi convertido ao Islamismo e aos dogmas da organização terrorista. Trabalhando diretamente com Saul Berenson, que serve como mentor, Carrie fará tudo para provar que um ataque aos EUA é iminente ao mesmo tempo que lida com questões pessoais que podem pôr em causa a sua competência profissional e, pior ainda, a sua sanidade.
Ou seja, Brody pode ou não ser um terrorista, Carrie pode ou não estar certa ou, pelo menos, não completamente. Assim, somos atirados de cabeça num jogo de gato e rato, cheio de reviravoltas, traições e onde nada é o que parece. Se isto não soa especialmente inovador para quem já viu Prison Break ou 24 (com a qual divide alguns produtores), Homeland mergulha fundo na mente daqueles indivíduos e percebemos os seus desejos, os seus medos e as suas contradições. Carrie é astuta, determinada e inteligente, mas não será a sua instabilidade psicológica acentuada por anos e anos de trabalho árduo na CIA? Ou é a sua particularidade que a torna numa profissional tão competente? Por outro lado, Brody vê-se num mundo onde não se encaixa, rompe com a dinâmica familiar estabelecida na sua ausência e tem comportamentos estranhos. Será mesmo um terrorista? Ou terá se convertido como mecanismo de defesa?
Ao desenvolver as suas personagens cuidadosamente, Homeland faz com que nos preocupemos com cada uma delas e as consequências dos seus actos, enquanto aumenta a tensão em cenas compostas por confrontos verbais ou um simples teste do polígrafo. Além disso, a série não pinta a CIA como uns santos em defesa da pátria e ilustra bem as motivações dos terroristas bem como as ações destrutivas de ambas as partes em conflito – e é este clima de ambiguidade, em que nada é preto no branco em diferentes escalas, que torna a série tão fascinante e adulta. Mas o que realmente faz desta temporada de Homeland algo tão memorável é a sua ousadia em cruzar linhas que dávamos como certas e, deste modo, abrir toda uma janela de possibilidades – e, volto a repetir, este texto está cheio de spoilers, por isso é melhor parar de ler por aqui. Eu estou a avisar.
Eu avisei.
Continuando...
Quando Carrie e Brody se envolvem romanticamente no brilhante sétimo episódio, a narrativa faz aquilo a que poucas se atreveriam ou, pelo menos, não tão cedo. Sem o auxílio da vigilância ilegal que instalara na casa do sargento, Carrie vê-se obrigada a revelar-se e a conviver com o suspeito que logo se revê no seu caráter autodestrutivo, já que ele próprio está em vias de perder tudo aquilo que tinha. Ela, no entanto, vê nele alguém que preencha o vazio da sua carência emocional e ambos estabelecem um vínculo fugaz, mas marcante. Ela comete um erro, abre o jogo e a série responde a um monte de perguntas que outro produto televisivo arrastaria durante semanas. Aquele fim de semana, contudo, fornece dados que Carrie usará no último episódio para indiretamente (e sem saber) prevenir o ataque terrorista que Brody levara a cabo. A história pode tomar algumas direções bizarras e improváveis, mas, se formos a pensar bem, elas surgem lógicas e condizentes com as personalidades daqueles indivíduos.
A encabeçar um elenco de prestações homogéneas, Claire Danes dá um verdadeiro espetáculo como a decidida Carrie ao dominar todas as facetas da personagem: o génio forte, a instabilidade, a inteligência, a sagacidade, o descontrolo e uma certa vulnerabilidade (e a atriz é inteligente ao abraçar os traços menos atraentes de Carrie sabendo que o sucesso desta não depende da simpatia irrestrita do espectador). Dispensava-se era a narração sobre a sua ineficácia em impedir o 11 de Setembro, uma vez que custa acreditar que a jovial Carrie fosse um agente influente aos vinte e poucos anos, mas em tudo o resto Danes é dinamite pura. E mais: com o carismático Mandy Patinkin, ela estabelece uma dinâmica de pai e filha genuína e que nos leva a temer pela mesma devido às ações impensadas dela. Damian Lewis também brilha a grande nível como o ambíguo sargento Brody e Morena Baccarin destaca-se como a sofrida esposa que tenta endireitar a vida com a chegada do marido desaparecido.
No final, com Brody em direção à política e Carrie a submeter-se a um tratamento de choque, Homeland planta as sementes do já anunciado segundo ano. Porém, tirando uns pozinhos aqui e ali, este seria o final perfeito caso estivesse a falar de uma minissérie, já que os arcos dramáticos deles foram, de certa forma, satisfatoriamente resolvidos: ele em relação à família e à sua missão; ela em relação à doença. Posso até apostar que a próxima temporada não estará ao nível desta, mas estou em pulgas para saber que cartas é que os argumentistas têm na manga. Mesmo assim, fica a memória de 12 maravilhosos capítulos que fazem da temporada algo envolvente, instigante, conciso e perfeito.
Homeland estreia em janeiro na FOX e prepara-se para arrebatar vários prémios nos próximos meses.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.
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